Retrospectiva de setembro

1 de outubro de 2009

No Brasil

O reconhecimento das uniões entre pessoas do mesmo sexo pelo Estado brasileiro continuou sua consolidação em setembro. As ações que estão no STF tratando das uniões homoafetivas podem ganhar um empurrãozinho significativo: no dia 17, o presidente Lula indicou um advogado simpatizante para ocupar a cadeira vaga do STF. O nome de José Antonio Dias Toffoli foi confirmado no cargo ontem numa sabatina do Senado, em decisão que segue para aprovação de Lula. Ontem, ele reafirmou seu apoio à nossa causa, dizendo que “a homoafetividade é um fato da cultura humana”.

O IBGE anunciou que irá contar os casais gays no Censo Demográfico de 2010, e servidores LGBT do poder público estadual de Pernambuco poderão incluir seus parceiros como beneficiários na Previdência. Outras iniciativas regionais merecem destaque: o governo de São Paulo está capacitando agentes da Secretaria de Emprego e Relações do Trabalho (SERT) para inserção de LGBT no mercado, e em Floripa foi aprovada uma lei que proíbe a discriminação em virtude da orientação sexual.

O estado de São Paulo tem uma lei semelhante desde 2001, mas aparentemente ela não é bem divulgada. Em setembro, uma imobiliária da capital desse estado anunciou um apartamento vetando seu aluguel por homossexuais, numa medida desastrada que ainda pode render processo judicial. Em Belém do Pará, um juiz da Vara de Infância e Juventude também não quer homossexuais por perto – no caso, por perto de crianças. A Justiça recomendou a fiscalização da Parada GLBT dessa cidade para evitar a presença de menores, por considerar que o evento tem cenas “atentatórias à moral e aos bons costumes”.

Falando em bons costumes, descobriu-se que isso é coisa que o governador do Mato Grosso do Sul não tem: por conta de desavenças políticas, André Puccinelli chamou o ministro do Meio Ambiente Carlos Minc de “viado”, “maconheiro” e disse que o “estupraria em praça pública” – e ainda tentou aplicar a desculpa de que isso teria sido uma brincadeira. Esse machismo homofóbico também exala da declaração do técnico do Goiás, Hélio dos Anjos, que disse “não trabalhar com homossexuais”.

A discriminação contra os LGBT foi alvo de ação judicial, também – mas não da maneira que esperávamos. O Conselho Interdenominacional de Ministros Evangélicos do Brasil (Cimeb) entrou na Justiça, em ação posteriormente arquivada pelo STF, contra a Lei 10.948/2001 de São Paulo – a lei citada acima, que proíbe o tratamento desigual motivado pela orientação sexual – por considerar que ela fere a liberdade de expressão. Esse argumento mentiroso é o principal dentre aqueles que sustentam a oposição dos religiosos ao PLC 122/2006.

No mundo

No panorama internacional, foi também a homofobia o grande choque do mês. Em uma província da Indonésia, entrou em vigor uma lei que pune a homossexualidade com 100 chibatadas em público e até 8 anos de prisão.  No Iraque, onde a homossexualidade é punida com a morte, a surpresa triste de setembro foi a descoberta de armadilhas dos fundamentalistas: eles entram em chats gays e marcam encontros com os rapazes, para então aprisioná-los e torturá-los até a morte. E a Anistia Internacional viu-se obrigada a condenar uma lei homofóbica aprovada na Lituânia em julho.

É evidente que setembro não foi um mês só de más notícias. O governo da Grã-Bretanha, por exemplo, desculpou-se publicamente pelo tratamento cruel que dedicou ao matemático Alan Turing, processado por ser homossexual e “tratado” desse “mal” com castração química. Esse pronunciamento só ocorreu porque o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, atendeu a uma petição online no site do governo, provando que o ativismo gay 2.0 rende frutos. Na África do Sul, foi vista como avanço na questão LGBT a condenação de dois homens que estupraram e mataram a jogadora de futebol Eudy Simelane em função de sua homossexualidade. Embora esses dois casos sejam específicos e não corrijam o mal sofrido, é notável o fato de que a discriminação contra LGBTs está sendo oficialmente condenada pelo poder público desses países.

Os direitos dos LGBT, contudo, não se limitam a não sofrer agressão: em um mundo ideal, os direitos dessa parcela da população serão os mesmos que os das demais pessoas. E algo me diz que estamos caminhando rumo a essa realidade: na Escócia, os homossexuais agora têm direito à adoção assim como os casais héteros. Nos Estados Unidos, constatou-se que casais entre pessoas do mesmo sexo são estáveis sim, e que procuram oficializar sua situação: o birô do Censo confirmou que 27% dos casais homossexuais são legalmente casados de alguma forma.

A melhor notícia de setembro veio da ciência: pela primeira vez, uma vacina demonstrou ter efeitos consideráveis na prevenção do contágio por HIV. A taxa de 31% de sucesso surpreende, mas ainda é cedo para relaxar na prevenção. A AIDS continua não tendo cura.

No Homomento

Setembro foi um mês de definições: pesquisamos como a homossexualidade aparece nos dicionários, revisamos a história do termo “homofobia” e destrinchamos os principais preconceitos sofridos pelos bissexuais (comentaremos as identidades TTT ao longo de outubro, prometemos). Também falamos pela primeira vez sobre homoparentalidade ao traduzir o texto de uma menina de 10 anos, que conta sua experiência como filha adotiva de duas mães.

Desde sua criação, o Homomento é bastante crítico em relação à mídia gay que temos no Brasil – de certa forma, nosso trabalho surge como uma resposta às falhas que encontramos nessa mídia. Mas foi só em setembro que elaboramos um artigo mais consistente sobre as críticas que fazemos aos sites LGBT brasileiros. E ficamos bastante satisfeitos com o debate que aconteceu nos comentários de nossas análises sobre como a publicidade se dirige aos LGBTs, seja de forma a se mostrar gay-friendly (uma estratégia que pode ser considerada oportunista), seja usando duas mulheres para gerar um apelo sexual (o que também é questionável: para a homossexualidade se tornar visível, basta aparecer?).

As discussões sobre cultura também renderam bastante. Setembro é um mês interessante para nós, pois somos gaúchos e o dia 20 é a data mais importante para o nosso tradicionalismo sexista, que exclui os homossexuais. Ao longo do mês, encontramos subsídios para que pensássemos nossa própria militância, e tivemos também a chance de conversar sobre cultura LGBT com Michael Eichler, do site The New Gay. Foi desse site que tiramos a definição de ativismo 2.0 que abordamos por aqui: acreditamos que a web é um espaço para que todos possamos veicular nossas ideias e compartilhar nossas opiniões. Assim, acreditamos que nosso trabalho pode estimular a discussão rumo a uma aceitação cada vez maior das diferentes sexualidades.

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Entrevista: Michael Eichler, do The New Gay

16 de setembro de 2009

Não é a primeira nem será a última vez que The New Gay vai aparecer aqui no Homomento, pelo simples motivo de que muitas das idéias dos dois blogs são bastante alinhadas. Eu e a Carol tivemos a oportunidade de entrevistar um dos co-fundadores do site, Michael Eichler, que simpática e articuladamente respondeu nossas perguntas. Vale a pena ler a tradução da entrevista (uma versão em inglês foi publicada no The New Gay), que segue na íntegra:

Michael, antes de qualquer coisa, por favor apresente-se brevemente.
Bom, eu sou Michael Eichler (a pronúncia é “ike-ler”), tenho 36 anos e trabalho numa planejadora de transportações. Eu também sou co-fundador do The New Gay, que é uma fonte online para idéias, culturas e eventos relacionados à comunidade LGBT.

Os sites LGBT normalmente são cheios de fotos de homens nus ou notícias de fofoca. Nós temos, porém, ótimos exemplos de bom trabalho como o Box Turtle Bulletin. No cenário dessa mídia específica, como você descreveria o The New Gay?
Nós somos um blog/publicação online abrangente, feito por pessoas comuns, que quer ver mais assuntos na mídia LGBT. Se você mostrar fotos de torsos nus, ignora metade dos homossexuais (se pensarmos que a divisão de gênero é 50% masculina e 50% feminina). Nós tentamos achar um tema em comum para todos os LGBT que vai além da conexão básica de todos nós: o sexo. Exploramos maneiras singulares e diversificadas de ser homossexual, dando oportunidades para as pessoas explorarem seus interesses genuínos ao invés de gostarem das mesmas coisas que todo mundo só para serem aceitas.

Outro co-fundador do TNG, o Ben, define o site como “um movimento inclusivo de indivíduos atraídos pelo mesmo sexo que se recusam a ser definidos pelo passado e lutam para expandir as barreiras do futuro”. De fato, como você disse, muitos dos artigos do site falam sobre como é importante que essas pessoas parem de se estereotipar, e o quão diferentes os LGBT podem ser entre si. Em dois anos de trabalho e reflexões sobre essa temática, o que você aprendeu? O que mudou e o que permaneceu, entre as suas opiniões?
Durante esses últimos dois anos, uma coisa que eu aprendi foi a necessidade de incluirmos todas as minorias sexuais. A parte mais complicada é o fato de que os transexuais normalmente não se expõem e é muito difícil sempre fazer e falar as coisas certas para ser inclusivo com os trans. Como gays e lésbicas, como pessoas que “amam pessoas do mesmo sexo”, nós não conhecemos bem as dificuldades enfrentadas pelos trans e isso não faz parte da nossa forma de pensar, normalmente voltada para autopreservação. Nós, todos os queers, precisamos aprender mais uns sobre os outros e descobrir similaridades. Acho que o trabalho do TNG começou com a exploração das diferenças maravilhosas entre os LGBT, mas agora é o momento para nos unirmos e caminharmos como “um só povo” apesar de todas essas diferenças.

Já que você falou em trans: recentemente vocês participaram de um protesto relacionado à morte de uma transexual em Washington DC. Além desse tipo de manifestação, como nós podemos lutar contra a homofobia no “mundo real”? Nós lemos recentemente um artigo da Jean no TNG sobre o “ativismo gay 2.0” que nos lembra sobre os riscos de nos limitarmos à web.
Eu não participei pessoalmente daquela vigília, mas ajudei a divulgá-la e nós mandamos o nosso fotógrafo. De qualquer forma, eu acho que a melhor maneira de lutarmos contra a homofobia no mundo real é alcançando a visibilidade. Há grandes chances de que cada homofóbico tenha no mínimo um parente ou amigo que seja gay. Se essas pessoas puderem se pronunciar, se assumir e se fazer visíveis, causando uma impressão positiva junto aos que são potenciais perpetuadores da violência contra os LGBT, veremos esse potencial reduzido.
Nós precisamos ser vistos como pessoas, crianças, pais, colegas, amigos, vizinhos, membros da comunidade. Acredito que até nós verem como tal, e não como “o outro”, teremos a violência e a homofobia sempre muito próximas de nós.

Você disse que “se você mostrar fotos de torsos nus, ignora metade dos homossexuais”. Aqui no Brasil, muitos dos sites auto-intitulados “LGBT” são dirigidos aos homens gays, com fotos homens seminus e etc. Há também alguns dirigidos a lésbicas, mas nada que possamos chamar de “neutros” em relação ao gênero para LGBTs.
Exatamente. Esse é um grande problema.

A mídia LGBT norte-americana é muito mais sofisticada que a nossa nesse aspecto. Quanto tempo você acha que ela demorou para se desenvolver dessa maneira? Ou: o que nós, brasileiros, poderíamos fazer para obter algo semelhante?
Ah, espera aí. Nós somos um dos poucos sites que eu conheço que têm a intenção de abranger todos os gêneros e sexualidades. Outros blogs temáticos como Towerload.com ou Queerty.com, ou ainda os “after” (AfterEllen, AfterElton), são voltados para apenas um gênero. Não há unidade. Os jornais LGBT como o Washington Blade estão muito comprometidos com seus anunciantes, que vêem os homens gays apenas como consumidores, e seu conteúdo (não noticioso) não faz muita coisa para desmentir esse fato.

Esse é um problema de qualquer publicação: lidar com seu público E com seus anunciantes. Na sua opinião, o quão grande é a influência dos anunciantes na mídia LGBT? Você acha que a relação entre veículos e anunciantes impede-a de pensar e falar sobre assuntos que realmente importam?
É enorme, e sim, eu acho. Muitas publicações dependem demais dos anunciantes e sofrem por isso. Ouvi rumores de matérias que não saíram por motivos como “já publicamos um artigo lésbico na semana passada”. Essas mídias dificilmente são justas e imparciais. Zack, o outro co-fundador do TNG, trabalhava para o Blade, então ele pode falar mais sobre isso. Mas eu não me identifico com qualquer um desses anúncios voltados para os LGBT (na verdade, especificamente para os homens gays e brancos) e eu mesmo sou um homem gay e branco. Imagine como os membros da comunidade LGBT que não são homens ou brancos não se sentem olhando para esses anúncios?

Sim, e acho que isso também impede que algumas pessoas consumam a “mídia gay”. Aqui no Brasil, na mídia impressa, nós só temos revistas dirigidas ao público masculino. Não consigo ver nenhuma razão para uma lésbica comprar alguma delas. Dessa maneira, muitas pessoas dentro da nossa comunidade estão excluídas da nossa própria mídia! Mas seguindo adiante: Zack disse, no artigo “The Beginning of Gay Culture”, que seria bom para os LGBTs recriarem o mundo heterossexual numa versão menor, só para eles. Acho que ele quis dizer que nós deveríamos criar espaços onde pudéssemos conviver apenas com LGBTs parecidos conosco, enquanto lutamos da nossa maneira contra a homofobia. Mas você não acha que deveríamos estar lá fora lutando para fazer do mundo um lugar melhor para todo mundo? Será que não podemos ficar confortáveis nos lugares que já frequentamos? Nós realmente precisamos criar todo um mundo novo (e GAY)?
Zack está falando sobre criarmos espaços sociais que expressem a diversidade da comunidade LGBT. E eu concordo. Nós precisamos de diversidade em nossos espaços sociais. De outra maneira, qualquer um que não se encaixe no “molde gay” vai se sentir rejeitado e não pertencer a comunidade nenhuma. Ao invés disso, nós precisamos achar uns aos outros no mundo real e nos conectarmos. Esses pequenos grupos e conexões podem se tornar a base para uma unidade maior. Se tudo o que temos é o mainstream e um monte de indivíduos que não se identificam com ele, nós nunca acharemos uma base comum. Nós ainda temos muito trabalho a fazer para nos organizarmos internamente antes de realmente encontrarmos a força para marcar presença fora de nossa comunidade. Isso não significa que nós não possamos começar pressionando a sociedade por aceitação, mas nós só teremos o poder necessário para tal se nos organizarmos internamente primeiro.
Imagine lutar numa guerra onde 20% dos nossos soldados são membros de uma tropa e os outros 80% não têm lealdade ao sargento, agindo por conta própria. Não funcionaria.

Agora entendi o seu ponto, e acho que o exemplo das tropas ilustra muito bem essa ideia. Uma das lutas internas do movimento LGBT que podemos destacar é aquela pela aceitação nas instituições militares, já que alguns dos ativistas mais radicais não vêem sentido em lutar contra o Don’t Ask, Don’t Tell (DADT).
Exato, eles preferem acabar com os militares a lutar contra eles. E, na verdade, gostam de não poderem ser chamados para o serviço. Pessoalmente, eu não concordo com o militarismo de maneira geral e não lutaria pelo fim da DADT, mas apoio essa luta e todos os nossos soldados gays aí fora. Mas um caso que ilustra ainda melhor a necessidade de união nos EUA é a questão do Ato pela Não-Discriminação no Emprego (ENDA, na sigla em inglês), em que a organização Human Rights Campaign recomendou um pacote de leis contra discriminação que exclui os transgêneros. Como uma coisa dessas pode ser possível em 2009?

Então você acha que devemos viver de acordo com nossos valores, gostos e interesses, como propõe Zack, e nos unirmos apenas por nossos direitos e para lutarmos contra a discriminação?
Nós LGBTs não temos uma cultura inerente. Não temos uma força unificadora. Nós não nascemos numa população LGBT – temos que construir nossa própria cultura, e a cultura que atualmente ocupa esse espaço não abrange todos nós. Num post anterior, Finding Unity in Community, eu disse que, como nós não nascemos na nossa comunidade, temos que procurá-la. E nada na nossa cultura encoraja a entender a nossa própria história e a similaridade que temos com outros LGBTs. Espere, por exemplo, que nos reunamos em torno da Madonna. Isso nunca vai acontecer. O que mais temos em comum? O que eu tenho em comum com a Shunda K, do Yo Majesty, além de uma mesma orientação sexual?

Vocês também têm um monte de posts sobre música indie, chega a ser comum que as pessoas pensem que o TNG é um blog hipster. Será que não é perigoso se definir como um “movimento inclusivo” e falar só sobre músicas que vocês gostam ao mesmo tempo? Vocês não temem que leitores LGBT que não sejam hipsters acabem se afastando do site de vocês por causa das discussões sobre música?
Desde o início, convidamos todas as pessoas possíveis para que usassem o Tng como uma plataforma para compartilhar suas ideias e interesses, encorajando diferentes perspectivas sobre cada assunto, e dando destaque a todos os tipos de cultura que existem – filmes, literatura, teatro, etc. Não vamos deixar de escrever sobre o que nós (os fundadores) gostamos porque até agora ninguém mais se habilitou a contribuir com outras perspectivas sobre outros tipos de cultura. Estamos disponibilizando opiniões de LGBTs descrevendo um monte de coisas que não são gays, e esse conjunto de coisas não-gays definitivamente poderia ser maior. Nós adoraríamos que pessoas se juntassem a nós e começassem a escrever sobre música clássica, por exemplo. Mas nós (a equipe atual) não podemos fazer isso, porque não é a nossa praia. Nosso cofundador Ben ama hip hop e até escreveria sobre isso de vez em quando, mas ele não estava interessado em escrever sobre música. Na verdade, estávamos hesitantes quanto a adicionar mais um colunista sobre música, porque ele queria trazer mais indie rock. No fim das contas, ele é uma pessoa LGBT que quer escrever sobre música. É exatamente o que queríamos, ainda que não seja um novo gênero.

Michael, muito obrigado pela entrevista. Continue com o trabalho bom (e original) do TNG. E só uma pergunta final: como podemos lutar contra os preconceitos que nossa “cultura gay mainstream” ainda evoca, e construir nossa própria cultura?
Seja você mesmo, seja um indivíduo, seja visível, se expresse. É tudo que posso dizer. Ah, e não seja um imbecil.


Do geral para o particular: um olhar sobre a mídia gay

15 de setembro de 2009

Um dos interesses mais marcantes do Pedro, colega do Homomento, é a fragmentação da cultura gay. Como ele sustenta nas suas críticas à cultura gay monolítica, a orientação sexual do indivíduo é importantíssima na construção de sua identidade, mas não a ponto de anular seus outros interesses. Quando um rapaz se descobre gay, não cai um CD da Britney dos céus em suas mãos; da mesma forma, eu não me transformei em uma fã de Ana Carolina no momento em que beijei outra menina pela primeira vez.

Ok, entendemos então que a tal “cultura gay” está na verdade vinculada a uma visão “senso comum” do que é homossexualidade. Como os meios de comunicação são um reflexo da cultura dominante, que se dirigem a um público formado por sujeitos totalmente diferentes entre si, é evidente que nossa mídia gay dificilmente conseguirá fugir dessa tal “cultura gay monolítica”. Mas não é por não estar na capa dos portais que esses “gays diferentes” não existam, tampouco que eles não se expressem. Será que não há espaço, na web brasileira, para sites voltados para aqueles que não se sentem contemplados pela cultura gay hegemônica?

Para entrar a fundo nessa discussão, precisamos antes de um…

Breve olhar sobre os portais gays brasileiros

Como já comentei, não podemos esperar da “grande mídia” gay outra coisa que não um diálogo voltado para a maioria do seu público. Assim, é comum encontrarmos, nas capas dos portais brasileiros, generalidades que mostram (e reforçam) estereótipos da cultura gay: na capa, britneys, beyoncés e madonnas serão notícia sem que necessariamente tenham feito qualquer ato diretamente relacionado aos LGBT. Presume-se que (todos os) gays gostam dessas divas, e com isso justifica-se a publicação de tais notinhas. Também é possível o inverso: por saber que o público é heterogêneo, alguns sites abrem espaço para que todas as manifestações culturais possíveis sejam representadas. É o caso do portal Parada Lésbica, onde é possível encontrar tanto um podcast que abre com música de Sandy & Junior quanto um artigo sobre o Rammstein, um grupo de metal industrial alemão. Nos grandes sites, a diversificação do conteúdo atende às características do público, que também é heterogêneo, mas isso faz com que tenhamos que filtrar mais antes de ler.

A meu ver, o maior problema da maioria dos portais brasileiros voltados para o público LGBT está exatamente no contrário: em sites que se pretendem amplos, mas que acabam refletindo na maior parte do tempo os interesses de somente uma parcela do público. Salvo poucas exceções, como o Dolado, o Universo Mix e o ótimo Gay.com.br, esses sites são na realidade voltados para os homens gays, e isso salta aos olhos já na capa, onde imagens de homens nus misturam-se a textos e manchetes.

Amplie a imagem e conte: quantos homens seminus há na capa do site Mix Brasil?

Amplie a imagem e conte: quantos homens seminus há na capa do site Mix Brasil?

O mais impressionante disso é ver que o sexo não é a única parte importante nesses sites. Pelo contrário: muita gente os acessa para acompanhar notícias sobre temas LGBT (ou mesmo sobre as próprias divas!) e vê as avalanches de fotos de nus como um adendo suportável. Eventualmente, alguns desses sites dedicam algum espaço para lésbicas e trans, como é o caso do Mix Brasil, um dos sites LGBT mais antigos do país. Mas esses espaços são seções dentro de um todo gay. Na prática, isso demonstra uma assimilação, por parte dos gays, do que ocorre no restante da sociedade: os fatos universais são masculinos e brancos, o resto são categorias à parte.

Por uma mídia gay de nicho

Até agora, tratamos de como a grande mídia gay brasileira na web mal e mal nos garante o básico. Mas queremos discutir particularidades. Como eu já havia lembrado no início desse post, a questão da fragmentação é crucial para o Pedro. Tiro de um rascunho dele, então, uma definição para o que estamos discutindo aqui:

Com as facilidades da internet, a tendência é que cada vez mais as pessoas busquem por conteúdo do seu gosto particular. Ao invés de ler um jornal inteiro, buscam na web apenas os colunistas que lhe agradam, os blogs que emitem conteúdo alinhado com suas perspectivas, etc. É a chamada Era do Desmanche, que traz consigo as consequências positivas e negativas intrínsecas a toda fragmentação social: se por um lado as pessoas tornam-se especialistas em seus interesses, levando a um passo adiante as idéias e discussões acerca destes, por outro, uma visão panorâmica dos acontecimentos e da realidade, que considera prós e contras de diferentes pontos de vista, pode tornar-se mais dificultosa e longe do alcance comum do que já é.

Quando falamos de sites gays internacionais, podemos desde já vislumbrar a possibilidade de um desmanche. O leitor norte-americano ou europeu tem múltiplas opções de portais, sites e blogs com os mais diversos posicionamentos sobre política, cultura e até religião voltados especificamente para o público LGBT. Dessa forma, ele dispõe de páginas excelentes por contarem com equipes de redação inteiras dedicadas a um propósito específico. E dispõe, também, daquela já mencionada possibilidade de escolher os assuntos dos quais quer se alienar.

Na capa do Uol Gay, uma síntese: em meio a ofertas de sexo, o portal lésbico é apenas mais uma seção

Na capa do Uol Gay, uma síntese: em meio a ofertas de sexo, o portal lésbico é apenas mais uma seção

Embora eu não possa afirmar com muita certeza por que motivos a mesma coisa não ocorre no Brasil, aposto todas as minhas fichas na imaturidade do mercado de comunicação gay brasileiro. A diversificação nesse segmento da mídia é bastante recente. Os portais lésbicos Dykerama e Parada Lésbica, por exemplo, foram criados respectivamente em outubro de 2007 e setembro de 2008. A mídia LGBT brasileira, e isso inclui a impressa (formada só por revistas para homens, já repararam?), ainda tem muito a evoluir, e acredito que tão cedo não teremos grandes sites gays de nicho no Brasil.

Pouco a pouco, contudo, os próprios portais se diversificam e abrem espaço para aqueles assuntos menos óbvios. É o caso, por exemplo, da coluna no site A Capa do teólogo e pastor da igreja inclusiva Betel Márcio Retamero, que comenta as aparições da religião no noticiário LGBT brasileiro. Além disso, friso: tão cedo não teremos grandes sites gays de nicho no Brasil. Os blogs vão dando conta do recado.

Não sei muito sobre o que os meninos blogueiros andam escrevendo, mas como consumidora de cultura lésbica estou bem satisfeita com o que a blogosfera me oferece. Sobre aparições de lésbicas em seriados e filmes, por exemplo, há o Lebiscoito, e quando quero música posso ser uma sapa indie e moderna acompanhando o Blog do Chá, da musa lipster Barbie da Silva. O trabalho de blogueiros também permite que LGBTs negros e evangélicos se mantenham informados, e o site mais completo que encontrei na web em português sobre trans FTMs é o blog de um transhomem.

A oferta de produtos cada vez mais diferenciados na web não pode ser dissociada da possibilidade que cada internauta tem hoje de produzir seu conteúdo e disseminar suas opiniões e ideias. Com a web 2.0, a responsabilidade pela qualidade do conteúdo é compartilhada. Quanto mais produtores, maior a pluralidade de visões que estarão ao nosso alcance.


Machos Gaudérios

15 de setembro de 2009

Na Semana Farroupilha, comemorada anualmente com tanto gosto aqui em Porto Alegre, eu sempre me lembro do Capitão Gay. José Cattaneo é um advogado pelotense que em 20 de Setembro de 2002 adentrou a parada regionalista montado numa égua, vestido em trajes típicos, segurando uma bandeira do arco-íris e bradando que aquela era “a verdadeira bandeira da revolução”. É claro que ele não saiu ileso da (insana, eu diria) atitude: apanhou de relho da gauchada.

Como não poderia deixar de ser, a desembargadora Maria Berenice Dias se pronunciou a respeito: “Por que não pode existir um gaúcho gay de bombachas? Isso não agride ninguém”. Pois agride sim: agride a cabeça fechada, a noção mal-resolvida e mal-pensada de sexualidade. Toca na ferida do gaúcho, que de tanto se pronunciar macho, virou chacota do resto do país como típico homossexual enrustido.

A Intolerante Parada do Orgulho Gaúcho

A Intolerante Parada do Orgulho Gaúcho

Foi a partir dessa percepção, advinda da mesma declaração da desembargadora, que Mário Maestri escreveu em 2006 um artigo chamado “O Gaúcho era Gay?”. Maestri toma o Relatório Kinsey, de 1949, que afirma que de 4 a 15% da população masculina seria homossexual, e aplica essa noção ao período de ouro da história do sul do Brasil: a primeira metade do século XIX. Com alguma base documental, mostra o quão grandes são as possibilidades de alguns dos protagonistas dos Farrapos serem homossexuais, e de mesmo os heterossexuais, ao viverem longos períodos entre homens, aderirem eventualmente às práticas sexuais exclusivamente masculinas. Faz uma comparação com os personagens do filme Brokeback Mountain, hipotetizando que provavelmente os gaúchos gays do século retrasado tivessem de reprimir suas aspirações, forjando um encaixe espontâneo nos moldes de comportamento do macho gaúcho.

A intenção de questionar o caráter histórico da masculinidade sulista é boa, mas Maestri não o faz de maneira apropriada. O anacronismo aqui não está principalmente em aplicar o Relatório Kinsey ao século XIX, mas ao tentar aplicar as noções de sexualidade a esse contexto. É sabido que ambas, tanto a homo quando a heterossexualidade, como conceitos, surgiram apenas para além de 1850: antes disso mesmo que um sujeito, através da experiência própria, estivesse apto a compreender que sente mais prazer com homens do que com mulheres, não se rotularia com uma identidade sexual.

Em suma, o historiador trabalha baseado na idéia de que “existiram gays em todas as épocas e contextos”, mas comete uma indelicadeza do ofício ao não considerar especifidades das mentalidades do passado. Por partir dessa premissa errônea, perde de praxe o único caminho viável de se questionar por quê a heterossexualidade tem que ser intrínseca ao gaúcho tradicional: o fato de que a heterossexualidade ainda não existia na época da Revoução Farroupilha.

Símbolo de heroísmo e coragem = símbolo de heterossexualidade?

Símbolo de heroísmo e coragem = símbolo de heterossexualidade?

Cássio Menezes, do CMI Brasil, aponta muito bem o caráter das comemorações do 20 de Setembro: “sua concepção histórica centra-se no idílico e estrutura-se no campo ideológico. Desta forma o mítico é ressaltado, o incoveniente – mas não de menor significado sócio-histórico – é escamoteado e deforma-se conteúdo do passado concreto sulino”. Dessa maneira, de nada interessa aos homens que nesse momento estão acampados no parque Maurício Sirotsky Sobrinho, em Porto Alegre, saber que macho, historicamente, não necessariamente quer dizer heterossexual, e que seus homenageados certamente encaravam as relações entre homens de uma maneira bem diferente.

Como estudante de História, não posso deixar de ansiar pelo dia em que algum historiador do Rio Grande do Sul aplique essas noções, tão corriqueiras para qualquer estudioso da sexualidade, ao contexto rio-grandense. É uma linha de pesquisa mais do que possível e que, bem realizada, ajudaria a desconstruir um dos tantos aspectos da memória inventada do Rio Grande do Sul.

* Em 2003, o acampamento do Capitão Gay, que insistiu em aparecer na semana dos Farrapos, foi apedrejado. Mesmo assim, o advogado não desistiu e em 2006 vestiu a estátua do Laçador com um poncho com as cores do arco-íris. Há boatos de que ele nem mesmo seja gay e quisesse só chamar atenção da mídia para sua candidatura a deputado; de qualquer forma, suas atitudes já geraram essa interessante discussão.

** Maria Berenice Dias, pra quem não conhece, foi uma das precursoras na luta pelos direitos LGBT no Brasil, levando o estado do Rio Grande do Sul à frente dos demais em muitas das questões jurídicas relativas a esse grupo. Essa sim, dá modelo à toda terra!


O que é, literalmente, ser homossexual?

9 de setembro de 2009

Muito nos é perguntado a respeito de como se sente um homossexual: como e quando “descobrimos” ser, e por que somos? Perguntas essas que têm as mais variadas respostas, satisfatórias ou não, isso quando as temos. Indo um pouco mais além, pergunto agora: O que na verdade somos?

Para obter um esboço da resposta, resolvi recorrer ao dicionário. Explico a escolha de um dicionário, é simples: queria ver qual é o significado comum, qual é o entendimento mais básico que é proposto sobre os gays. A primeira definição que encontrei vem do Caldas Aulete, na sua edição digital:

Homossexual 1 Ref. a homossexualidade (relação homossexual). 2 Que sente atração por e/ou tem relações sexuais com pessoas do mesmo sexo. 3 Pessoa homossexual (2).

A resposta oferecida é pontual, sem se aprofundar nem discorrer sobre o tema, cumprindo perfeitamente o papel de um dicionário. Sem maiores decepções, porém instigado, resolvi averiguar qual foi, se é que existiu, o progresso ao entendimento geral da sociedade em relação aquilo que é considerado “atípico”, nesse caso a homossexualidade.

Para isso, recorri novamente ao dicionário, ou melhor, aos dicionários. Me vali de um acervo considerável, com exemplares de variadas épocas e regiões nos quais fiz um pequeno levantamento dos significados propostos nos seguintes verbetes:

homossexual
homossexualidade
gay/guei
lésbica
lesbianismo

O recorte é simples e até mesmo excludente, no sentido que poderia consultar também palavras como safismo, pederastia ou termos associados à homossexualidade, mas limitei-os na crença de que teríamos, já aí, um resultado interessante. Para o texto não se tornar muito repetitivo, vamos apenas comentar os resultados aqui, mas quem quiser ver todas as definições encontradas pode acessar o PDF dessa pesquisa.

De acordo com o Dicionário Internacional de Psicanálise, o termo “homossexual” foi criado pelo escritor e jornalista austro-húngaro K.M. Benkert, também conhecido pela forma húngara de seu nome, Károly Mária Kertbeny, que foi uma importante voz na defesa dos direitos sexuais na época e até hoje é homenageado em eventos LGBT da Hungria. A palavra “homossexual” aparece publicada pela primeira vez em 1869, em um panfleto em que Kertbeny discute a proibição da sodomia pelo Código Penal prussiano. Em outros textos, o autor defendeu a ideia de que a orientação sexual era inata e que atos sexuais consensuais não deveriam ser matéria penal.

Manuscrito de Kertbeny em que aparece, pela primeira vez, o termo "homossexual"

Manuscrito de Kertbeny em que aparece, pela primeira vez, o termo "homossexual"

As concepções encontradas nos dicionários mais antigos a que tive acesso, no entanto, não apresentam uma visão tão amigável da homossexualidade. No Novo Diccionario Encyclopedico Illustrado da Lingua Portugueza, de 1926, o “homosexualismo” (grafia original) é descrito como um “vício sexual”. Em 1931, o Diccionário Prático Illustrado diz que “homosexuais” são homens, que praticam entre si actos contra a natureza” (grifo meu).

Não que não houvesse um termo para a homossexualidade feminina na época: em 1939, o Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa define “lesbianismo” como sendo “Um dos vícios sensuais contra a natureza; aberração do instinto sexual”. A preocupação em destacar o caráter aberrante dessa manifestação do instinto sexual é tão grande que deixa de lado a definição mais importante para o termo, ignorando completamente o fato de que um ato, para ser lésbico, precisa ocorrer entre duas mulheres.

Esse mesmo dicionário de 1939 traz o termo “homossexual” como um adjetivo, “Referente a atos sensuais entre indivíduos do mesmo sexo; que pratica esses atos”. Essa definição é semelhante à encontrada na maioria dos dicionários consultados, e é interessante notar como ela prioriza o ato, apresentando a identidade em segundo lugar. Vale ressaltar que essa definição já exclui a ideia de “vício”. A palavra “aberração” continua sendo vinculada ao verbete “lesbianismo” por muito mais tempo, aparecendo no Novíssimo Dicionário Ilustrado Urupês, de 1977.

Não é preciso nenhum acordo ortográfico para que um dicionário se torne ultrapassado

Não é preciso nenhum acordo ortográfico para que um dicionário se torne ultrapassado

Nos dicionários consultados, a primeira ocorrência da expressão “homossexualidade”, ocorre em 1953, no Dicionário Brasileiro Contemporâneo, tornando-se frequente a partir daí como sinônimo de “homossexualismo”. Falando em sinônimos, é interessante ressaltar que localizamos algumas ocorrências da concepção de homossexualidade como antônimo de heterossexualidade, o que evidencia a polarização entre sexualidade “normal” e sexualidade “desviante”

O dicionário mais recente consultado foi o Dicionário Didático, publicado em 2007 pela Editora SM. Espero não ser pura coincidência, mas é também o mais “acertado” por assim dizer. Embora a definição não seja completamente satisfatória (não traz distinção entre “homossexualidade”, palavra que preferimos, e “homossexualismo”, que consideramos inadequada, por estar muito ligada à ideia de patologia sexual), merece destaque por ser o único, dentre todos os que pesquisei, a definir a homossexualidade a partir da “atração sexual por indivíduos do mesmo sexo”, não necessariamente por atos homossexuais.

Sei dos muitos poréns podem ser apontados nesse levantamento (não utilizei todos os dicionários publicados, só os que tive acesso, assim como não só os anos são diferentes, como as editoras e autores). Mas acredito que já podemos notar aí um reflexo na mudança de concepções e abordagens à respeito do tema, o que seria por si só um avanço; Só que acho importante salientar a seguinte questão: junto a eles todas as mentalidades vem sofrendo uma alteração ou os verbetes apenas foram gradualmente adaptados ao que se enquadra hoje em politicamente correto?

(Contribuição e edição: Carolina Maia)


Razões para se assumir numa entrevista de emprego

4 de setembro de 2009

Na sua vida privada, é bem possível que você já tenha vencido o medo de sair do armário, e até já tenha se assumido para os seus pais (se você não fez nada disso ainda, vale a pena pensar bem a respeito e seguir algumas dicas quando resolver contar ao mundo que você é gay). E no seu trabalho, as pessoas já sabem da sua homossexualidade?

O Homomento encontrou, no site Lesbilicious, um guia com 9 motivos para se assumir no ambiente de trabalho desde o primeiro contato com a chefia. Alguns fatos citados só se aplicam à realidade britânica, mas de maneira geral as dicas servem para nós também. Confira a tradução do artigo!

9 motivos para se assumir em uma entrevista de emprego

“Desempregada” é uma palavra assustadora, e “desempregada no meio da recessão” é uma frase ainda mais assustadora.

Então quando você finalmente consegue uma entrevista de emprego, todo mundo sabe que você deve se vestir bem, sorrir bastante e não fazer nada que possa lhe prejudicar… como revelar que você é lésbica. Certo? Errado errado errado, escreve Rosie Kirk.

Assumir-se

Imagine essa cena: é o fim da entrevista de emprego. Tudo correu bem, e sua nova chefe está apenas encerrando a entrevista com algumas amenidades. Ela pergunta como você chegou até o escritório. “Vim de carona com meu bebê”, você diz. “Que legal da parte dele”, ela diz.

Só que não foi legal da parte “dele”, foi legal da parte “dela”. O que você faz? Você deveria sair do armário em uma entrevista de emprego? Sim. E aqui há 9 motivos para isso.

1. Mostra que você é corajosa

Assumir-se não é fácil. A homofobia prevalece, e você nunca sabe como as pessoas vão reagir. Assumir-se para um desconhecido que detém poder sobre você é, então, uma decisão corajosa. Um empregador esperto reconhecerá isso, e verá os benefícios de contratar alguém que tem coragem e que vai se impor em nome da companhia.

2. Mostra que você é honesta

A verdade desagradável é que quando você não corrige uma presunção de heterossexualidade você está sendo desonesta. Afinal, você pode sorrir e concordar quando alguém pergunta se você tem um namorado, mas o que acontece quando lhe perguntam o nome dele? Minta uma vez e você se verá criando mais e mais mentiras, até que você terá inventado uma vida inteira.

3. É lisonjeador para a empresa

A maioria das empresas gosta de pensar que eles são lugares receptivos e cabeça aberta, que não discriminariam LGBTs nem em sonho. Assumindo-se na entrevista, você de certa forma os elogia, por mostrar que acredita nessa imagem da empresa. No fim das contas, ela pode até ser verdadeira.

4. Pontos a mais no questionário de seleção

Discriminação positiva: a ruína de todos os homens brancos, leitores do Daily Mail, cheios de privilégios. É verdade que muitas empresas estão tentando recrutar mão-de-obra mais diversificada, mas infelizmente sua sexualidade não vai lhe garantir o emprego. Afinal, se fosse tão fácil, todos se declarariam como pessoas LGBT cadeirantes não caucasianas…, certo?

5. Torna a homossexualidade normal

Para um número cada vez maior de pessoas – e isso inclui potencialmente seu novo chefe – sexualidade simplesmente não é uma grande coisa. Mencione o assunto no meio da conversa e eles não vão nem ficar chocados, e você se perguntará por que tanto barulho por nada.

6. Você não tem nada a perder

Na Inglaterra, na verdade é ilegal que uma empresa se recuse a contratar alguém por causa de sua sexualidade. Se você tem certeza de que ter se assumido fez com que você perdesse a vaga, então você tem motivos para levar o caso para a Justiça. Claro que o grande problema é provar que sua sexualidade é a razão pela qual você não conseguiu o emprego. Mas se você acha que tem um caso concreto, especialmente se você tem qualquer prova, procure orientação jurídica.

7. Corta as piadas com gays

É deprimente e um sinal de fraqueza, mas às vezes gerentes fazem vista grossa para piadas feitas contra gays/imigrantes/insira outras minorias aqui. Afinal, essas piadas são “inofensivas” – ou seja, não há ninguém dessa minoria por perto que possa ficar chateado. Mas, magicamente, ter alguém faz parte de uma minoria na sala imediatamente deixa a piada sem graça nenhuma, e as piadinhas acabam.

8. Economiza tempo

Saia do armário na entrevista e se tudo der certo os rumores vão fazer boa parte do trabalho antes que você comece. As pessoas podem fingir que não sabem que você é lésbica, mas é provável que elas saibam – e isso quer dizer que elas não vão cometer nenhuma gafe que constrangeria tanto eles quanto você em seu primeiro dia de trabalho.

9. Livra você dos homofóbicos

Claro que você quer um emprego, mas você realmente quer estar presa 40 horas por semana em um escritório cheio de homofóbicos daqui a seis meses? Só Deus sabe o quão miserável você estará se sentindo se isso acontecer.

Sair do armário como “estilo de vida”

Assumir-se é um processo que dura a vida toda. Você pode ser 100% assumida, mas a cada vez que você conhece alguém novo, seja um conhecido, vizinho ou colega de trabalho, você terá que se dizer lésbica de novo.

Lembre-se que não se trata de “exibir” sua sexualidade, ou “jogar na cara das pessoas” – é só corrigir aquela presunção, na maioria das vezes concebida por heterossexuais, e assumida por heterossexuais na maior parte do tempo, de que todo mundo é hétero também.

E essa presunção se aplica a você também – enquanto estiver preocupada se deve ou não se assumir, considere isso: como você tem tanta certeza de que seu chefe é heterossexual?


Conquistando neutralidade

3 de setembro de 2009

Diariamente tenho meu contato físico com os jornais impressos gaúchos, e não é uma questão de bairrismo e sim de necessidade. Normalmente o trato da homossexualidade nessas publicações e na maioria dos veículos é feito muito sutilmente, de forma equivocada, através da sátira ou deboche. Até aí sem novidades.

Eis que ontem, ao abrir a Zero Hora levei um tapa na cara.

zhcapa

Como bem se sabe, para qualquer veículo impresso a capa é Môira que desenrola todo blablablá das próximas páginas, e mais:  é o retrato perfeito das concepções burocráticas e intrínsecas que articulam toda teia midiática.

Não costumo ser uma pessoa otimista e sei que meu contentamento pode ser rapidamente dizimado pela realidade. Sim amiguinhos, eu sei que é uma quarta-feira, que a circulação é baixa, que a preocupação maior é com a participação da população no censo…

Mas mesmo assim. É a palavra G-A-Y estampada na capa do jornal de maior circulação do Rio Grande do Sul, acompanhada de uma belíssima matéria assinada pela Letícia Duarte que não faz nenhuma menção a preconceito, e  trata o termo “homossexuais” tão naturalmente que me senti lendo uma reportagem sobre promoções natalinas.

Zero Hora | 02.09.09 | Geral - p.36
Zero Hora | 02.09.09 | Geral – p.36

Infelizmente meus outros colegas comunicadores do Correio do Povo não tiveram a mesma inspiração. A matéria veiculada na editoria de Geral (p.23) de hoje NÃO FAZ REFERÊNCIA NENHUMA a inclusão da união gay nos números do IBGE.

Correio do Povo | 02.02.09 | Geral - p.23
Correio do Povo | 02.02.09 | Geral – p.23 Gays? Ahn?

Ah! Só para fins de clipagem incluí também a nota do O Sul, que discretamente substitiu as palavras gays/homossexuais por um ‘existência de cônjuge ou companheiro do mesmo sexo no domicílio’, afinal, deixemos palavras como essas (“tão polêmicas”) para hard-news estilo: Homossexual mata namorado e come seu rim em Kansas City nos EUA.

O Sul | 02.02.09 | p.12

O Sul | 02.02.09 | p.12

Anteriormente, meus parceiros e amigos de blog Pedro Cassel e Carol Maia apresentaram textos repudiando o posicionamento e a qualidade dos textos publicados pelo colunista  Paulo Sant´anna da Zero Hora, contudo, acho imprescindível evidenciar matérias como essas de Letícia.  O bom gosto e a sensibilidade da jornalista alegraram minha manhã, e me fizeram relembrar e refletir que existem milhares de profissionais como eu, ou como minha colega Carol Maia, que tentarão sempre, independente do veículo conquistar a naturalidade.

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Para quem não leu, ou não compreendeu como funcionará a inclusão da união gay nas estatísticas do IBGE, minha amiga Carol Maia dá uma ajudinha…

entendendosenso

  • O Censo Demográfico visita todas as residências do País de dez em dez anos, contando a população e pesquisando dados referentes às pessoas (sexo, idade, cor ou raça, educação, rendimento) e características de seus domicílios (abastecimento de água, esgotamento sanitário, existência de energia elétrica, destino do lixo)
  • Em 2010, aparecerá a possibilidade de resposta “cônjuge, companheiro de mesmo sexo” para o questionamento sobre a relação da pessoa com o responsável pelo domicílio onde ela vive. A orientação sexual da população brasileira não será pesquisada, mas será possível saber quantas pessoas vivem em união homoafetiva no País. Essa é a primeira vez em que a homossexualidade aparece no questionário do Censo
  • Em 2007, a Contagem da População (uma pesquisa semelhante ao Censo, mas com menos dados) trouxe o primeiro reconhecimento de uniões entre pessoas do mesmo sexo pelo IBGE. 17 mil pessoas (sendo 9 mil homens e 8 mil mulheres) declararam estar em união com cônjuge de mesmo sexo. Somente os estados de Minas Gerais, Bahia e São Paulo registram mais de mil casais em seu território. Esse número é bem baixo considerando-se que 108 milhões de pessoas foram ouvidas na Contagem, que não incluiu municípios com mais de 170 mil habitantes (estima-se que 75 milhões de pessoas vivam nessas grandes cidades que não foram pesquisadas, onde se acredita que viva a maioria dos homossexuais do País)
  • Nas pesquisas, o IBGE trabalha com autodeclaração: vale o que os entrevistados declararem ser verdadeiro. Quem responder ao recenseador que “mora junto” com o responsável pelo domicílio é contado como “convivente”, não como “cônjuge”. Todos os dados levantados pelo IBGE são sigilosos, ou seja, não há por que ficar dentro do armário quando o Censo chegar. Em 2010, é importante que as respostas sejam o mais verdadeiras possível, para que a sociedade saiba quantas são as uniões homoafetivas do Brasil