Mais espaço para o conservadorismo

21 de outubro de 2009

Ontem, o Papa Bento XVI publicou um documento que facilita a conversão de anglicanos para o catolicismo, autorizando esses religiosos a manterem parte das suas tradições e ritos.  Com a decisão –  a maior aproximação já acontecida entre as duas igrejas, separadas desde 1533 -, o Vaticano aceita a conversão ao catolicismo de pastores casados – o matrimônio não é permitido para padres ordenados pela própria Igreja Católica.

Mas não é por isso que abordamos o assunto, e sim pelo que motiva a migração do anglicanismo para a igreja católica: muitos fiéis (notadamente no Reino Unido, em que as comunidades são mais tradicionais) estão descontentes com a liberalização em curso na Igreja Anglicana. A instituição permite a ordenação de mulheres há décadas (mais recentemente, até nos cargos mais altos) e homossexuais, e celebra o casamento entre pessoas do mesmo sexo – chegando mesmo a abençoar o casamento entre dois pastores.

O casamento tradicional dos pastores anglicanos Peter Cowell e David Lord (centro, entre seus padrinhos e madrinhas)

O casamento tradicional dos pastores anglicanos Peter Cowell e David Lord (centro, entre seus padrinhos e madrinhas)

Ou seja: longe de expressar uma abertura na Igreja Católica, o acordo indica a firmeza do catolicismo em se manter conservador. Não surpreende: desde o início de seu papado, Bento XVI expressou preferir uma comunidade mais rígida e mais coesa (ainda que menor) a uma religião liberal demais. Em contrapartida, há quem acredite que isso pode acelerar ainda mais a modernização do anglicanismo, que a muito custo sobreviveu unido às tensões que quase levaram a igreja, criada quando o rei Henrique VIII rompeu com o papa Júlio II, a mais um cisma.

junho dragÉ uma coincidência interessante que isso aconteça logo na semana em que repercute entre nós a divulgação do calendário laico, que defende a transformação de feriados religiosos em eventos sociais. Concebido pelo Coletivo de Gays, Lésbicas, Transexuais e Bissexuais de Madri (Cogam)  como uma provocação ao clero, o calendário reinterpreta a arte sacra com referências a sexo e à estética queer. Se não bastasse isso, a assexuada Virgem Maria do catolicismo foi representada por transexuais (quanto aos homens presentes nas fotos, não achei informação nenhuma – não sei se pela cegueira da mídia aos homens transexuais, ou se os autores do calendário realmente ignoraram essa parcela da população LGBT).

dezembro trans

Quanto ao objetivo principal do calendário, acho que a Igreja exerce influências muito mais graves sobre a sociedade do que a mera formalidade de considerar o feriado “religioso” (posso estar num meio muito não católico, mas não conheço ninguém que realmente aproveite as datas para ir à igreja). Quanto às fotos, eu gostei – o trabalho é ousado, bem feito e, na minha opinião, nada ofensivo.

Não é preciso nem comentar que a iniciativa foi atacada por religiosos. Abordagens sexuais da religião são vistas como um profundo desrespeito, não raro sendo censuradas onde a influência da fé é mais forte. Basta lembrar do caso da obra “Desenhando em Terços”, de Márcia X, cuja censura provocou o cancelamento da mostra que a expunha em 2006. A religião não permite a liberdade de expressão que seus próprios seguidores exigem.

Em entrevista à BBC, O presidente do Cogam, Miguel Ángel González, questionou: “Mas também não é uma provocação a onipresença da igreja e a negação da homossexualidade por parte do clero, fazendo uso dos seus ícones? A arte está aí para isso: para romper os esquemas.” A arte é um bom indicador os valores de um tempo. Se as obras sacras de outrora retratavam o sofrimento e o êxtase, é porque esses eram componentes importantes para a fé da época. Se hoje a arte contesta o cristianismo, é porque os valores que sustentam essa (e outras) religiões estão em cheque.

O desejo de manter intocados os ícones, então, é um reflexo da vontade dos cristãos tradicionais em deixar tudo inalterado, assim como a aproximação entre os católicos e os anglicanos conservadores.

Anúncios

Igreja à beira de um ataque de nervos

12 de agosto de 2009

almodovar

Ao ser entrevistado pelo semanário alemão Die Zeit o cineasta espanhol Pedro Almodóvar, que divulgava o seu novo filme, “Los Abrazos Rotos” fez repercutir mais uma vez a sua opinião, ao declarar que a diversidade na composição familiar é ignorada pela igreja católica.

Não é a primeira crítica de Almodóvar à igreja. O cineasta, que é assumidamente homossexual, solicitou ao papa Bento XVI que saia do Vaticano e repare as inúmeras possibilidades e formações familiares que o cercam. Ainda em alusão ao tema afirma que existem famílias constituidas por transexuais, travestis, pais separados e inclusive freiras com AIDS. Em certa ocasião em uma entrevista ao jornal espanhol El País Almodóvar declarou:

Sou anticlerical, mas como indivíduo não tenho nenhuma necessidade de lutar contra a Igreja, porque para mim não é um fantasma do qual tenha que me defender. Acho que a Igreja espanhola atreve-se a dizer umas coisas na nossa sociedade que devemos rebater porque são muito perigosas, como por exemplo que a emancipação da mulher está relacionada com as mortes e com os maus tratos. É uma das coisas mais fortes que jamais ouvi contra a condição feminina.

giuseppe

O Vaticano respondeu através de Giuseppe Dalla Torre, presidente do Tribunal do Vaticano, que afirmou que o papa não precisa sair do Vaticano para tomar consciência dos fenômenos sociais e que a Igreja Católica está presente em todos os contextos humanos e certamente conhece melhor como funciona o mundo. Justificou os casos como marginais em relação ao total do planeta. A resposta termina com a seguinte colocação: “certa cinematografia quer ser um reflexo da sociedade ou, pelo contrário, quer incidir sobre a realidade social para modificar os seus valores éticos e cultura?”.

As colocações de Dalla Torre, assim como o posicionamento da igreja católica no seu geral, são mais uma vez infelizes e inconsistentes. Acho que o questionamento mais apropriado nesse caso seria: por que essa certa cinematografia não pode questionar os valores éticos e culturais impostos pela igreja católica? A qual, inclusive, contribuiu e muito, se não foi uma das maiores responsáveis, na marginalização dos casos citados por Pedro Almodóvar, fazendo com que quando não sejam taxados e repudiados pela normatividade construída sejam simplesmente ignorados e deixados realmente nas bordas da sociedade, longe do foco e da necessidade de discussão. Dando assim apenas duas opções para todos: que se forcem a negar a sua realidade e permaneçam dentro do templo ou que se afastem de vez da religião que insiste em apontar e dizer: a culpa é de vocês.