Educação sexual: um instituto necessário

11 de novembro de 2009

O estouro da AIDS nas décadas de 1980 e 90 fez com que a sexualidade tivesse de ser abordada com seriedade, e em âmbito nacional, no Brasil. Canais de televisão, campanhas publicitárias e panfletos informativos necessitavam, por uma questão de saúde pública, informar a população a respeito da nova doença. Ao mesmo tempo que se diz sensualizado e vende essa imagem para o exterior, o brasileiro, no entanto, tem sérias dificuldades para lidar com seu sexo, acabando por instaurar uma visão moralista e culpabilizadora do HIV e das relações sexuais de modo geral.

Foi essa perspectiva que adentrou o espaço educacional recente: Uma educação sexual que alertou a respeito dos males do sexo em tom de ameaça, reproduzindo para jovens o discurso que corria solto no país. Progressivamente, com o tempo, o clima se abrandou e os os tons se alteraram, fazendo da palestra escolar com o sexólogo um momento mais científico do que qualquer outra coisa.

Ainda assim, acredito que não só a atual abordagem educacional para a sexualidade é insatisfatória como noto que os ensaios de avanço nesse campo têm sido bombardeados por críticas diversas. Quis, por isso mesmo, dissecar um pouco algumas prerrogativas famosas no que diz respeito à educação sexual. Se você tem interesse pela discussão, convido-o à leitura.

“Educação sexual é falar de sistema reprodutivo, camisinha, anticoncepcional, etc.”

Sim, educação sexual é falar de sistema reprodutivo, camisinha, anticoncepcional, etc. É essencial que se conheça o corpo e suas funções, a origem dos impulsos sexuais e, o mais importante, que se valorize o sexo seguro. Mas não, educação sexual não é isso.

Por sexualidade não se compreende apenas o ato sexual em si, mas uma interação humana cheia de significados culturais. É nessa interação que vão se manifestar e perpetuar, também, convenções sociais como o machismo, a misoginia, a homofobia. O educador que apenas transmite a informação – “esse órgão encaixa naquele”, “use camisinha” – não se preocupa com a maneira como o aluno vai lidar com ela, e em um contexto em que a mídia é altamente sexualizada e que a pressão social para se iniciar a vida sexual cedo é cada vez maior, é necessário o mínimo esclarecimento.

A sexualidade, quando mal desenvolvida, pode se tornar um grande problema na vida de uma pessoa. Noções equivocadas e parciais de gênero e identidade sexual geram preconceitos, seja em relação ao outro ou a si próprio. Querendo ou não, antes de chegar à escola o aluno já tem a sua cultura sexual – que pode ser baseada na combinação das referências (ou omissões) de seus pais ao assunto com as referências que a mídia e os amigos lhe trouxeram. Isso nos remete à visão do professor como mediador entre o conhecimento prévio do aluno e o conhecimento erudito que está no programa. É necessário, dessa forma, problematizar a educação sexual: ir além da reprodução do biodiscurso.

“A educação sexual vai depravar a criança e macular a inocência infantil”

Importante colocar que a questão aqui não é adiantar ou retardar a presença das relações sexuais na vida do aluno, através de estímulos ou represálias. É lidar com a sexualidade, ponte cultural entre o social e o biológico, da maneira mais saudável possível para o crescimento individual.

Independente do contexto de sua criação, todo ser humano agrega, ao longo da infância, valores ligados à sexualidade. No caso da nossa sociedade ocidental, qualquer menina sabe já aos 4 anos de idade, por exemplo, que meninas gostam de cor de rosa, de brincar com bonecas e de determinados desenhos animados. A identidade de gênero, que posteriormente vai dialogar com uma identidade sexual, já está sendo estabelecida até mesmo antes da criança nascer, quando os pais escolhem a cor das roupas de acordo com o sexo do bebê.

Educar sexualmente significa não pré-estabelecer comportamentos adequados para feminino ou masculino; ajudar a criança a crescer de maneira natural e saudável, orientando-a à valorização do que é bom e correto para um ser humano a fazer, e não a associações de conduta por gênero. Vamos trabalhar com exemplos: ao invés de dizer que “meninas devem ser delicadas e estar sempre arrumadas”, estimular a boa educação e a autohigiene; ao invés de dizer que “meninos têm de ser durões e não podem chorar”, deixar claro que é sempre bom respeitar e ser respeitado. Surpreendentemente, isso faz parte do todo de uma educação sexual. E surpreendentemente, um menor estímulo à autoafirmação da identidade de gênero pode sim levar as crianças a serem até menos sexualizadas – justamente por não estarem sendo pressionadas a se preocupar com essas questões.

Em suma, com uma educação preocupada com a questão da sexualidade, a escola pode se tornar inimiga da mídia sexualizada e sexualizadora, como catalisadora de todo o conhecimento equivocado que a criança pode trazer de suas experiências prévias. E cumprir, assim, seu papel essencial: o de educar.

“A educação sexual vai disseminar a homossexualidade”

É sabido que o ambiente escolar ainda é bastante hostil às crianças e adolescentes que apresentam comportamento adverso ao atribuído ao seu gênero – para não falar do já constatado preconceito com os professores gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros. Uma reportagem da Agência Brasil de julho de 2009, realizada no Distrito Federal, conta que não só a discriminação é violenta como afeta o desempenho dos alunos, chegando muitas vezes a afastá-los da sala de aula. Faz-se urgente a necessidade de estimular a aceitação, tanto de dentro do aluno como de fora, vinda dos colegas: falar, nas escolas, que a sexualidade pode ter caráteres diversos e que não há nada de errado nisso.

Quando se fala na abordagem da diversidade de identidades sexuais em ambiente escolar, a questão é: será que uma relação liberal desses assuntos vai estimular as crianças a se identificarem como homossexuais? Sem a convenção da heterossexualidade como o “certo”, as sexualidades infantis vão se confundir e “desviar”? Para responder essa pergunta, precisamos considerar alguns pontos.

A “origem” da homossexualidade é assunto para controvérsia. Ciências naturais como a biologia e a psicanálise têm tentado explicar, através da genética e de traumas infantis, sua recorrência, mas os estudos nessa área mostram-se duvidosos ou pouco verificáveis. Os avanços das ciências humanas no estudo da sexualidade apontam para uma distinção entre sexo, como propriedade e objeto de estudo das exatas, e sexualidade, como área propriamente humana e cultural. Dessa maneira a origem da identidade de gênero e o comportamento sexual, se sujeitada à metodologia das exatas, só poderia gerar resultados insatisfatórios.

Uma das únicas certezas em relação aos homossexuais advém dos estudos de Kinsey (1949), que apontam para a estimativa de que 4 a 14% da população, independente de seu contexto, teria comportamento homossexual. Pesquisas recentes alteram os números para 1 a 20%. Até hoje os números se confirmam: o censo de 2009 dos Estados Unidos aponta para 10% da população como homossexual, enquanto no Brasil uma pesquisa de 2009 do Ministério da Saúde sobre o comportamento sexual do brasileiro revela que 10% dos homens entrevistados já teve relações com membros do mesmo sexo e que 5,2% das mulheres também o teve. Percebe-se que, mesmo comparando os Estados Unidos e o Brasil, países bem díspares no que diz respeito ao reconhecimento institucional da homoafetividade, os números persistem. Outra estimativa interessante realizada por um grupo de apoio para filhos de casais homossexuais diz que apenas 10% das crianças criadas em ambiente familiar gay tende a também sê-lo. Assim, seja em ambiente majoritariamente homo ou heterossexual, a porcentagem de Kinsey se repete.

Abordar a diversidade sexual na escola não significa estimulá-la ou tampouco proferir um discurso demagogo sobre como não devemos ser preconceituosos. Não é querer subverter a normatividade hetero para uma homossexual. É, sim, inserir um questionamento a respeito de gêneros, identidades e papéis no mundo em que vivemos. É preparar o aluno para se deparar com a realidade que está lá fora, que não é a dos 90% heterossexuais nem a dos 10% homossexuais, mas a de todo o conjunto social. Torná-lo não tolerante com as diferenças – pois a tolerância admite, não compreende -, mas percebedor das igualdades.

Uma conclusão: se um só quer, todos não fazem

Acredito que um projeto de educação sexual só vá fazer total sucesso se inserido em um contexto favorável, em que Estado, família e meios de comunicação ajam em conjunto no combate às idéias equivocadas de sexo e sexualidade. É natural que, caso ilhada em ambiente preconceituoso, qualquer iniciativa com uma nova proposta de abordagem dessa temática vá encontrar reprovação e mesmo indignação alheia. Para evitar isso seria necessário que o Estado reconhecesse institucionalmente todas as sexualidades, que se realizassem mais políticas públicas favoráveis à igualdade de gênero e que a mídia abordasse essas questões com mais responsabilidade. Por isso faz-se necessária não apenas essa nova educação sexual, dentro da escola, como também todo um trabalho reivindicatório fora dela, na busca por uma sociedade que lide com sua sexualidade não como normatizadora de regras comportamentais, separada em categorias identitárias, mas como o que ela verdadeiramente representa: um caminho para alcançar tanto a reprodução humana quanto o simples prazer físico.

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Do geral para o particular: um olhar sobre a mídia gay

15 de setembro de 2009

Um dos interesses mais marcantes do Pedro, colega do Homomento, é a fragmentação da cultura gay. Como ele sustenta nas suas críticas à cultura gay monolítica, a orientação sexual do indivíduo é importantíssima na construção de sua identidade, mas não a ponto de anular seus outros interesses. Quando um rapaz se descobre gay, não cai um CD da Britney dos céus em suas mãos; da mesma forma, eu não me transformei em uma fã de Ana Carolina no momento em que beijei outra menina pela primeira vez.

Ok, entendemos então que a tal “cultura gay” está na verdade vinculada a uma visão “senso comum” do que é homossexualidade. Como os meios de comunicação são um reflexo da cultura dominante, que se dirigem a um público formado por sujeitos totalmente diferentes entre si, é evidente que nossa mídia gay dificilmente conseguirá fugir dessa tal “cultura gay monolítica”. Mas não é por não estar na capa dos portais que esses “gays diferentes” não existam, tampouco que eles não se expressem. Será que não há espaço, na web brasileira, para sites voltados para aqueles que não se sentem contemplados pela cultura gay hegemônica?

Para entrar a fundo nessa discussão, precisamos antes de um…

Breve olhar sobre os portais gays brasileiros

Como já comentei, não podemos esperar da “grande mídia” gay outra coisa que não um diálogo voltado para a maioria do seu público. Assim, é comum encontrarmos, nas capas dos portais brasileiros, generalidades que mostram (e reforçam) estereótipos da cultura gay: na capa, britneys, beyoncés e madonnas serão notícia sem que necessariamente tenham feito qualquer ato diretamente relacionado aos LGBT. Presume-se que (todos os) gays gostam dessas divas, e com isso justifica-se a publicação de tais notinhas. Também é possível o inverso: por saber que o público é heterogêneo, alguns sites abrem espaço para que todas as manifestações culturais possíveis sejam representadas. É o caso do portal Parada Lésbica, onde é possível encontrar tanto um podcast que abre com música de Sandy & Junior quanto um artigo sobre o Rammstein, um grupo de metal industrial alemão. Nos grandes sites, a diversificação do conteúdo atende às características do público, que também é heterogêneo, mas isso faz com que tenhamos que filtrar mais antes de ler.

A meu ver, o maior problema da maioria dos portais brasileiros voltados para o público LGBT está exatamente no contrário: em sites que se pretendem amplos, mas que acabam refletindo na maior parte do tempo os interesses de somente uma parcela do público. Salvo poucas exceções, como o Dolado, o Universo Mix e o ótimo Gay.com.br, esses sites são na realidade voltados para os homens gays, e isso salta aos olhos já na capa, onde imagens de homens nus misturam-se a textos e manchetes.

Amplie a imagem e conte: quantos homens seminus há na capa do site Mix Brasil?

Amplie a imagem e conte: quantos homens seminus há na capa do site Mix Brasil?

O mais impressionante disso é ver que o sexo não é a única parte importante nesses sites. Pelo contrário: muita gente os acessa para acompanhar notícias sobre temas LGBT (ou mesmo sobre as próprias divas!) e vê as avalanches de fotos de nus como um adendo suportável. Eventualmente, alguns desses sites dedicam algum espaço para lésbicas e trans, como é o caso do Mix Brasil, um dos sites LGBT mais antigos do país. Mas esses espaços são seções dentro de um todo gay. Na prática, isso demonstra uma assimilação, por parte dos gays, do que ocorre no restante da sociedade: os fatos universais são masculinos e brancos, o resto são categorias à parte.

Por uma mídia gay de nicho

Até agora, tratamos de como a grande mídia gay brasileira na web mal e mal nos garante o básico. Mas queremos discutir particularidades. Como eu já havia lembrado no início desse post, a questão da fragmentação é crucial para o Pedro. Tiro de um rascunho dele, então, uma definição para o que estamos discutindo aqui:

Com as facilidades da internet, a tendência é que cada vez mais as pessoas busquem por conteúdo do seu gosto particular. Ao invés de ler um jornal inteiro, buscam na web apenas os colunistas que lhe agradam, os blogs que emitem conteúdo alinhado com suas perspectivas, etc. É a chamada Era do Desmanche, que traz consigo as consequências positivas e negativas intrínsecas a toda fragmentação social: se por um lado as pessoas tornam-se especialistas em seus interesses, levando a um passo adiante as idéias e discussões acerca destes, por outro, uma visão panorâmica dos acontecimentos e da realidade, que considera prós e contras de diferentes pontos de vista, pode tornar-se mais dificultosa e longe do alcance comum do que já é.

Quando falamos de sites gays internacionais, podemos desde já vislumbrar a possibilidade de um desmanche. O leitor norte-americano ou europeu tem múltiplas opções de portais, sites e blogs com os mais diversos posicionamentos sobre política, cultura e até religião voltados especificamente para o público LGBT. Dessa forma, ele dispõe de páginas excelentes por contarem com equipes de redação inteiras dedicadas a um propósito específico. E dispõe, também, daquela já mencionada possibilidade de escolher os assuntos dos quais quer se alienar.

Na capa do Uol Gay, uma síntese: em meio a ofertas de sexo, o portal lésbico é apenas mais uma seção

Na capa do Uol Gay, uma síntese: em meio a ofertas de sexo, o portal lésbico é apenas mais uma seção

Embora eu não possa afirmar com muita certeza por que motivos a mesma coisa não ocorre no Brasil, aposto todas as minhas fichas na imaturidade do mercado de comunicação gay brasileiro. A diversificação nesse segmento da mídia é bastante recente. Os portais lésbicos Dykerama e Parada Lésbica, por exemplo, foram criados respectivamente em outubro de 2007 e setembro de 2008. A mídia LGBT brasileira, e isso inclui a impressa (formada só por revistas para homens, já repararam?), ainda tem muito a evoluir, e acredito que tão cedo não teremos grandes sites gays de nicho no Brasil.

Pouco a pouco, contudo, os próprios portais se diversificam e abrem espaço para aqueles assuntos menos óbvios. É o caso, por exemplo, da coluna no site A Capa do teólogo e pastor da igreja inclusiva Betel Márcio Retamero, que comenta as aparições da religião no noticiário LGBT brasileiro. Além disso, friso: tão cedo não teremos grandes sites gays de nicho no Brasil. Os blogs vão dando conta do recado.

Não sei muito sobre o que os meninos blogueiros andam escrevendo, mas como consumidora de cultura lésbica estou bem satisfeita com o que a blogosfera me oferece. Sobre aparições de lésbicas em seriados e filmes, por exemplo, há o Lebiscoito, e quando quero música posso ser uma sapa indie e moderna acompanhando o Blog do Chá, da musa lipster Barbie da Silva. O trabalho de blogueiros também permite que LGBTs negros e evangélicos se mantenham informados, e o site mais completo que encontrei na web em português sobre trans FTMs é o blog de um transhomem.

A oferta de produtos cada vez mais diferenciados na web não pode ser dissociada da possibilidade que cada internauta tem hoje de produzir seu conteúdo e disseminar suas opiniões e ideias. Com a web 2.0, a responsabilidade pela qualidade do conteúdo é compartilhada. Quanto mais produtores, maior a pluralidade de visões que estarão ao nosso alcance.


Conquistando neutralidade

3 de setembro de 2009

Diariamente tenho meu contato físico com os jornais impressos gaúchos, e não é uma questão de bairrismo e sim de necessidade. Normalmente o trato da homossexualidade nessas publicações e na maioria dos veículos é feito muito sutilmente, de forma equivocada, através da sátira ou deboche. Até aí sem novidades.

Eis que ontem, ao abrir a Zero Hora levei um tapa na cara.

zhcapa

Como bem se sabe, para qualquer veículo impresso a capa é Môira que desenrola todo blablablá das próximas páginas, e mais:  é o retrato perfeito das concepções burocráticas e intrínsecas que articulam toda teia midiática.

Não costumo ser uma pessoa otimista e sei que meu contentamento pode ser rapidamente dizimado pela realidade. Sim amiguinhos, eu sei que é uma quarta-feira, que a circulação é baixa, que a preocupação maior é com a participação da população no censo…

Mas mesmo assim. É a palavra G-A-Y estampada na capa do jornal de maior circulação do Rio Grande do Sul, acompanhada de uma belíssima matéria assinada pela Letícia Duarte que não faz nenhuma menção a preconceito, e  trata o termo “homossexuais” tão naturalmente que me senti lendo uma reportagem sobre promoções natalinas.

Zero Hora | 02.09.09 | Geral - p.36
Zero Hora | 02.09.09 | Geral – p.36

Infelizmente meus outros colegas comunicadores do Correio do Povo não tiveram a mesma inspiração. A matéria veiculada na editoria de Geral (p.23) de hoje NÃO FAZ REFERÊNCIA NENHUMA a inclusão da união gay nos números do IBGE.

Correio do Povo | 02.02.09 | Geral - p.23
Correio do Povo | 02.02.09 | Geral – p.23 Gays? Ahn?

Ah! Só para fins de clipagem incluí também a nota do O Sul, que discretamente substitiu as palavras gays/homossexuais por um ‘existência de cônjuge ou companheiro do mesmo sexo no domicílio’, afinal, deixemos palavras como essas (“tão polêmicas”) para hard-news estilo: Homossexual mata namorado e come seu rim em Kansas City nos EUA.

O Sul | 02.02.09 | p.12

O Sul | 02.02.09 | p.12

Anteriormente, meus parceiros e amigos de blog Pedro Cassel e Carol Maia apresentaram textos repudiando o posicionamento e a qualidade dos textos publicados pelo colunista  Paulo Sant´anna da Zero Hora, contudo, acho imprescindível evidenciar matérias como essas de Letícia.  O bom gosto e a sensibilidade da jornalista alegraram minha manhã, e me fizeram relembrar e refletir que existem milhares de profissionais como eu, ou como minha colega Carol Maia, que tentarão sempre, independente do veículo conquistar a naturalidade.

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Para quem não leu, ou não compreendeu como funcionará a inclusão da união gay nas estatísticas do IBGE, minha amiga Carol Maia dá uma ajudinha…

entendendosenso

  • O Censo Demográfico visita todas as residências do País de dez em dez anos, contando a população e pesquisando dados referentes às pessoas (sexo, idade, cor ou raça, educação, rendimento) e características de seus domicílios (abastecimento de água, esgotamento sanitário, existência de energia elétrica, destino do lixo)
  • Em 2010, aparecerá a possibilidade de resposta “cônjuge, companheiro de mesmo sexo” para o questionamento sobre a relação da pessoa com o responsável pelo domicílio onde ela vive. A orientação sexual da população brasileira não será pesquisada, mas será possível saber quantas pessoas vivem em união homoafetiva no País. Essa é a primeira vez em que a homossexualidade aparece no questionário do Censo
  • Em 2007, a Contagem da População (uma pesquisa semelhante ao Censo, mas com menos dados) trouxe o primeiro reconhecimento de uniões entre pessoas do mesmo sexo pelo IBGE. 17 mil pessoas (sendo 9 mil homens e 8 mil mulheres) declararam estar em união com cônjuge de mesmo sexo. Somente os estados de Minas Gerais, Bahia e São Paulo registram mais de mil casais em seu território. Esse número é bem baixo considerando-se que 108 milhões de pessoas foram ouvidas na Contagem, que não incluiu municípios com mais de 170 mil habitantes (estima-se que 75 milhões de pessoas vivam nessas grandes cidades que não foram pesquisadas, onde se acredita que viva a maioria dos homossexuais do País)
  • Nas pesquisas, o IBGE trabalha com autodeclaração: vale o que os entrevistados declararem ser verdadeiro. Quem responder ao recenseador que “mora junto” com o responsável pelo domicílio é contado como “convivente”, não como “cônjuge”. Todos os dados levantados pelo IBGE são sigilosos, ou seja, não há por que ficar dentro do armário quando o Censo chegar. Em 2010, é importante que as respostas sejam o mais verdadeiras possível, para que a sociedade saiba quantas são as uniões homoafetivas do Brasil

Sorvete na luta dos outros é refresco

1 de setembro de 2009

Li hoje de manhã, no Parou Tudo, essa notícia:

Enquanto muitas empresas apenas querem o dinheiro do público homossexual, mas não direcionam a ele nenhuma ação de marketing específico com “medo de comprometer a imagem”, a empresa de sorvetes Ben & Jerry’s, dos EUA, foi além.

Para comemorar o início do casamento homo no estado de Vermont nesta terça-feira 1° de setembro, a marca mudou o nome de um de seus sorvetes de Chubby Hubby (marido gorducho) para Hubby Hubby (marido-marido). O presidente da empresa disse que a permissão deve ser comemorada com amor, paz, e, claro, muito sorvete. A edição comemorativa será vendida por 30 dias. Veja aqui uma iniciativa no Brasil que tem semelhança com essa, o Guara Gay.

Hubby Hubby

Não pensei muito no assunto, encarando como mais uma entre as notícias bobas do dia. Quando cheguei à noite em casa, vi no Bilerico Project um post intitulado “I’m not about to get some Hubby Hubby”. Lembrei que era o nome do sorvete e fiquei curioso para saber os motivos da implicância do colaborador Alex Blaze. Ele conta que o produto existe desde a década de 80, mas que foi comprado pela Unilever na década de 2000. Foca então nas críticas à própria Unilever, mencionando casos como o do produto da multinacional que prometia branqueamento a mulheres africanas e asiáticas. E vai além:

Eu não gosto de ver eles se posicionando como se sempre tivessem apoiado a luta ativista pelo casamento igualitário em Vermont, como fossem uma empresa local [e não multinacional] ou como se estivessem preocupados com movimentos de justiça social enquanto vendem cremes branqueadores na Índia. Obrigado, Unilever, por tomar parte num movimento pelo qual sequer se importaria a 50 anos atrás e fazer dele um produto nos dias de hoje.

Agora que é chique, agora que nós lutamos o suficiente para abrir caminho para a Levis utilizar nós brancos nos seus manequins, a American Apparel vender camisetas que dizem “Legalize Gay” e todas as celebridades ganharem status dizendo o quanto nos apoiam, a Unilever acha que pode utilizar o nosso movimento, a nossa luta, pra vender um sorvete ruim.

Eu sei que nós deveríamos estar felizes que boas empresas queiram celebrar o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a luta por direitos LGBT, mas esse não é o caso aqui.

Talvez, de fato, Blaze esteja sendo rabujento e associando demais a Unilever a um produto que já tem uma história anterior e pode até ter tido associação com movimentos sociais, vai saber. Mas isso não importa: a desconfiança dele é válida e deveria ser tomada como exemplo.

Já é constatado que a tendência é que, cada vez mais, empresas se declarem gay-friendly. Isso é uma coisa boa? Pode ser que sim. Só, antes de entupirmos nossas geladeiras com Guara Gays da vida, tenhamos o bom senso de observar as circunstâncias de seus lançamentos.

(Para terminar mais otimista, minha parabenização ao pessoal de Vermont e a veiculação da notícia no Dolado e no Mix Brasil, a quem interessar.)