GaGa e os gays

13 de outubro de 2009

Porque as assim chamadas “divas do pop” fazem tanto sucesso com o público gay eu não sei exatamente. Acredito que isso seja tema para uma reflexão mais apurada, mas por enquanto arrisco minhas fichas no impacto que a imagem de uma mulher forte tem para um indivíduo que é reprimido por um ambiente machista.

É sabido que Britney, Christina, Beyoncé e muitas outras têm legiões de fãs gays que compram seus discos e lotam seus shows. E embora todas elas tenham a Madonna como referencial óbvio, poucas se posicionam com ênfase em relação a homossexuais como ela (durante o ano passado, por exemplo, a Material Girl fez protestos contra a Proposition 8 em vários de seus shows). Se alguns podem dizer que ativismo é desnecessário e que é implícito que cantoras pop tenham fãs gays, fica pelo menos a incômoda sensação de que ser público alvo não equivale a ser público querido.

Stefani Joanne Angelina Germanotta, também conhecida como Lady GaGa, a cantora que vem desde 2008 marcando presença em todas as charts e capas de revista, tem nadado contra a corrente do silêncio do pop em relação ao seu público gay. Na edição de agosto da revista Out ela declarou que tudo nela – ela própria, seu show, suas músicas – é gay, e que ela está orgulhosíssima de ter conquistado esse público específico; na recente edição do VMA, dedicou seu prêmio a todos os gays.

Até aí tudo bem, ficar só no oba-oba e na bajulação é fácil. Mas nesse último fim de semana, GaGa se posicionou definitivamente como ativista. No sábado, cantou no evento anual do Human Rights Campaign, o mesmo em que Obama discursou (o presidente até fez brincou: “é uma honra para mim abrir o show da Lady GaGa”), e no domingo, fez um discurso na National Equality March em Washington DC.

GaGa na National Equality March

GaGa na National Equality March

Durante o discurso, a cantora fez menção a Judy Garland, Stonewall e Obama e disse que na luta por igualdade cada um tem que fazer sua parte, “no seu quintal”. Se comprometeu a, como artista, denunciar e protestar contra todas as ocorrências de homofobia no meio da música.

Em entrevista ao site Towerload durante a Marcha, GaGa diz que estava nervosíssima e que esse foi o momento mais importante de toda sua carreira. Mais à vontade que durante o discurso, conta que sua presença no evento tem muito mais a ver com a sua relação pessoal com homossexuais, tendo presenciado discriminação com seus amigos homos durante toda a vida, do que como artista que tem fãs gays.

Mas o que mais me chamou atenção foi um comentário que ela fez uma semana antes da marcha: “eu realmente acredito nessa causa, e como mulher da música pop, penso que esse fim de semana vai ser muito importante”.

A cultura pop se utiliza com muita frequência da cultura gay (vide os passos de Vogue, que Madonna resgatou de boates gays), e tem sim um forte compromisso com a comunidade LGBT, especialmente com os homens homossexuais. Ser uma cantora pop e silenciar em relação a isso tem um leve quê de hipocrisia, na minha opinião. Como artista do gênero, GaGa sabe muito bem o que faz e com quem está lidando. Ao tomar parte na luta LGBT, ganha a simpatia de ativistas e mais ainda dos fãs; atitude aparentemente simples, mas que demanda esforço (lembremos que a sociedade norte-americana tem fortes reservas em relação a homossexuais).

Trocadilhos à parte, Lady GaGa tem voz. E utiliza-a muito bem.

Anúncios

Destaque da Semana: (muita) visibilidade

11 de outubro de 2009

Essa segunda semana de outubro marcou uma grande quantidade de manifestações com a intenção de reivindicar direitos para LGBTs e alcançar alta visibilidade social.

Saindo do armário

O National Coming Out Day, iniciativa que há 21 anos incentiva as pessoas a saírem do armário no dia 11 de Outubro, não só está ocorrendo hoje nos Estados Unidos como foi incorporado pelos ativistas brasileiros como iniciativa. O grupo Estruturação, de Brasília, traduziu-o como Dia de Sair do Armário, e junto ao site Parou Tudo veio, durante essa última semana, divulgando o evento com esmero. Entre as ações dessa versão brazuca estão:

– Concurso nacional de fotografias relativas ao tema sair do armário com distribuição de prêmios;
– Orientações sobre como sair do armário, enfim, assumir-se como LGBT;
– Explicação sobre o termo a origem do termo sair do armário;
– Divulgação de como pessoas LGBT influentes e conhecidas enfrentaram o desafio de não mentir ou omitir a própria orientação sexual e/ou identidade de gênero.

Logo do National Coming Out Day, por Keith Haring

Logo do National Coming Out Day, por Keith Haring

Assumir-se (seja para si ou para os outros) é, ainda, uma tarefa delicada que envolve sempre outros assuntos como a relação familiar, com os amigos, etc. É importante que haja diálogo e esclarecimento, para que os recém-assumidos não sintam vergonha de ser homossexuais. Nesse sentido, é ótimo que ambas as campanhas (a norte-americana e a brasileira) contem com essa parte da orientação. Esse guia em inglês tem toda uma explicação didática sobre o processo de auto-aceitação, de conversas com os amigos, com os pais, sobre a maneira de abordar o assunto; conta ainda com um apêndice que desmistifica aqueles velhos preceitos em relação a homossexuais (do tipo “é antinatural?”, “é errado?”, “LGBTs são pessoas perturbadas?” e etc).

Paradas e manifestações

Ontem, em Roma, uma manifestação pela igualdade de direitos uniu 50 mil LGBTs e simpatizantes, de acordo com os organizadores do evento. As declarações não fugiram do convencional: os ativistas reclamaram da violência, da falta de direitos, respeito e dignidade. E esse domingo não é apenas dia de se assumir, mas também de se fazer ouvir publicamente: São Leopoldo, Rondônia, Maceió e Vitória estão tendo suas paradas hoje, como nos conta o Dolado.

NEMNos Estados Unidos, a National Equality March (Marcha Nacional pela Igualdade) é marcada como o grande evento ativista do ano de 2009 e está ocorrendo nesse fim de semana em Washington DC. LGBTs de todo o país estão na capital norte-americana se manifestando a favor da igualdade de direitos para todos, independente de gênero ou orientação sexual.

Discurso de Obama

Ontem, em um evento do Human Rights Campaign, a maior organização LGBT norte-americana, o recém Nobel da Paz presidente Barack Obama discursou a favor dos LGBTs.

Obama discursando a favor dos LGBTs

Obama discursando a favor dos LGBTs

Obama, em época de campanha, chegou a discursar algumas vezes a favor dos homossexuais, mas vem decepcionando os ativistas de todo o país pela falta de atitudes efetivas em relação a eles. Essa fala de ontem visou fazer as pazes com o movimento, mas não ofereceu soluções ou comprometimentos efetivos. O presidente se pronunciou a respeito da política do Don’t Ask, Don’t Tell – que proíbe homossexuais de servirem no exército -, dizendo que lutaria para que ninguém fosse demitido por conta de sua orientação sexual. A respeito do casamento entre pessoas do mesmo sexo, disse: “nós veremos uma América onde se reconheça relacionamentos entre dois homens e duas mulheres tanto quanto admiramos relações entre um homem e uma mulher”. Não chegou a falar quando ou como; apenas que aconteceria.

Direitos concedidos ou não, é inegável que Obama é o presidente mais simpático aos LGBTs que os EUA já tiveram, e que é importantíssimo que um dos mais influentes políticos do mundo se posicione a seu favor. O discurso de ontem, definitivamente, já entrou para a história, mesmo que alguns estejam insatisfeitos com as muitas promessas e poucas atitudes.

Se você entende alguma coisa de inglês, confira o discurso na íntegra, dividido em três partes no YouTube: 1, 2 e 3.