História das marchas em Washington pelos direitos dos LGBT

16 de outubro de 2009

No último domingo, destacamos aqui o discurso pró-LGBT que Obama proferiu em um jantar na véspera da Marcha Nacional pela Igualdade. Na terça, também lembramos que a cantora Lady Gaga marcou presença na manifestação, reafirmando seu apoio pela causa dos homo/bi/transexuais. Mas vale a pena destacar que essa marcha não só lembra os 40 anos do levante de Stonewall, como também resgata um histórico de protestos que remonta ao final dos anos 70, em que pela primeira vez um grande grupo de ativistas LGBT reuniu-se para protestar na capital dos Estados Unidos.

O texto que traduzimos hoje conta a história das marchas em Washington pelos direitos LGBT, fazendo também uma crítica à corporativização, partidarização e perda da força do movimento nas duas últimas décadas. O artigo original é um verbete da Enciclopédia GLBTQ, fonte de consulta que recomendamos a todos aqueles que leem em inglês e se interessam pela história, cultura e personalidades LGBT. É um texto bem longo, mas vale muito a pena a leitura, até por alertar para alguns riscos a que o movimento LGBT brasileiro também está exposto.

Marchas em Washington

O movimento pelos direitos de lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros nos Estados Unidos cresceu enormemente durante os últimos 25 anos do século XX, um fenômeno talvez melhor demonstrado pelo sucesso das três primeiras marchas nacionais, realizadas em Washington, DC.

Cada marcha era muito maior e mais diversificada do que a anterior, conforme um número cada vez maior de pessoas se tornaram mais abertas em relação a suas identidades sexuais e de gênero, criando uma ampla gama de subcomunidades GLBTQ.

Uma tendência menos agradável apareceu na quarta marcha: a crescente corporativização do movimento, com ativistas tendo um papel menos marcante na definição dos seus objetivos e prioridades.

[No entanto, a marcha mais recente pode ter revertido essa tendência. Organizada principalmente por jovens ativistas energizados pela aprovação da Proposição 8, que anulou a igualdade no casamento na Califórnia, a Marcha Nacional para a Igualdade de outubro de 2009 voltou-se novamente para o ativismo de base.]

A Marcha de 1979

Marcando o décimo aniversário da Rebelião de Stonewall e vindo logo após a pena tolerante conferida a Dan White pelo assassinato do supervisor de São Francisco e ativista gay assumido Harvey Milk, a Primeira Marcha em Washington pelos Direitos de Lésbicas e Gays aconteceu em 14 de outubro 1979, e foi um evento histórico que reuniu mais de 100.000 pessoas vindas de todas as partes dos Estados Unidos e de outros dez países.

Grupos nacionais de lésbicas e gays inicialmente relutaram em apoiar a Marcha de 1979, temendo que essa manifestação pública não iria atrair muitas pessoas, ou, caso conseguisse tal feito, que poderia gerar uma reação da direita conservadora semelhante à campanha “Save Our Children” de Anita Bryant em 1977. Mas essas preocupações se mostraram exageradas, à medida que a marcha ajudou a solidificar um movimento nacional pelos direitos dos homossexuais.

A marcha também contou com a I Conferência Nacional pelos Direitos de Gays e Lésbicas do Terceiro Mundo, que foi convocada pela Coalizão Nacional de Lésbicas e Gays Negros, uma organização que tinha sido criada no ano anterior por Delores Berry e Billy Jones, e atraiu centenas de afro-americanos e latinos.

A marcha de 1987

Em 11 de outubro de 1987, mais de meio milhão de pessoas (entre 500.000 e 650.000, segundo os organizadores) dirigiu-se à capital para participar da Segunda Marcha Nacional em Washington pelos Direitos dos Homossexuais. Muitos dos manifestantes estavam irritados com a resposta lenta e inadequada do governo para a crise da AIDS, bem como com a decisão da Suprema Corte em 1986 que manteve as leis da sodomia no caso Bowers v. Hardwick.

Com a primeira apresentação do Projeto NAMES – AIDS Memorial Quilt (uma colcha de retalhos em que cada pedaço de tecido traz o nome de uma pessoa morta pela doença), a marcha de 1987 conseguiu chamar a atenção do país para o impacto da AIDS na comunidade gay. Na sombra do Capitólio, um patchwork formado por quase dois mil painéis de tecido ofereceu uma poderosa homenagem para a vida de alguns daqueles que foram perdidos no pandemia.

A marcha também chamou a atenção para a discriminação anti-gay, já que cerca de 800 pessoas foram presas em frente à Supremo Corte dois dias depois, na maior ação de desobediência civil já realizada em prol dos direitos de lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros.

A Marcha de 1987 em Washington também estimulou a criação do que ficou conhecido como BiNet E.U.A., e da Organização Nacional de de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros Latinos (Organização LLEGÓ, na sigla original), os primeiros grupos nacionais para bissexuais e latinas e latinos GLBTQ, respectivamente.

Antes da marcha, os ativistas bissexuais distribuíram um panfleto intitulado “Você está preparado para uma Rede Nacional de Bissexuais?” que incentivou os membros da comunidade para fazer parte do primeiro contingente bissexual em uma manifestação nacional. Cerca de 75 bissexuais de todo os E.U. participaram e começaram a lançar as bases para uma organização que pudesse falar sobre as necessidades de pessoas identificadas como bi, e combater a animosidade contra bissexuais que era comum tanto nas comunidades gays e lésbicas como na sociedade dominante.

Em 1987, ativistas GLBTQ Latinos de Los Angeles, Houston, Austin e outros lugares já vinham se reunindo há pelo menos dois anos, discutindo formas de trabalhar juntos para promover os direitos fundamentais e a visibilidade de latinos e latinas GLBTQ. Mas com a AIDS exercendo um impacto desproporcional sobre comunidades latinas de GLBTQ em todos os Estados Unidos, os ativistas reconheceram a necessidade de uma organização nacional e se reuniram na Marcha em Washington para formar o grupo que foi primeiramente chamado Lésbicas e Gays Latinos Ativistas Nacionais (NLLGA, na sigla em inglês). Renomeado como LLEGÓ no ano seguinte, o grupo expandiu-se a partir daí para atender também demandas relativas aos direitos de lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros latinos de outros países.

Além da formação de novos grupos nacionais, os efeitos mais duradouros dos eventos desse fim de semana também foram sentidos em nível local. Energizados e inspirados pela marcha, muitos ativistas voltaram para casa e estabeleceram grupos sociais e políticos em suas próprias comunidades, proporcionando maior visibilidade e força para a luta de lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros.

A data da marcha, 11 de outubro, tem sido comemorada internacionalmente desde então como o Dia Nacional para Sair do Armário, para inspirar os membros da comunidade GLBTQ a continuar mostrando, como um dos slogans da Marcha proclamou, que “estamos em todos os lugares.”

A Marcha de 1993

A força crescente do movimento ficou evidente seis anos depois, em 25 de abril de 1993, quando quase um milhão de pessoas participou da Marcha em Washington pela Igualdade de Direitos e Libertação de Lésbicas, Gays e Bi. Essa foi a maior manifestação na história dos Estados Unidos naquela época.

Com a derrota da candidatura de George Bush para a reeleição no outono anterior, que deu fim à era Reagan-Bush, o humor da marcha era muito mais festivo e esperançoso do que em 1987.

A marcha de 1993 recebeu uma cobertura da mídia sem precedentes para um evento GLBTQ, incluindo uma reportagem de capa na revista Newsweek e reportagens na primeira página de muitos jornais em todo o país.

A marcha também foi inovadora por receber a aprovação unânime do conselho da Associação Nacional para o Avanço das Pessoas de Cor – a primeira vez que laços institucionais diretos foram estabelecidos entre o movimento dos direitos GLBTQ e o movimento dos direitos civis – e por explicitamente incluir bissexuais em seu nome (embora o Comitê de Direcção da Marcha tenha votado para acrescentar apenas “bi”, temendo que a palavra “bissexual” poderia sexualizar excessivamente a imagem do evento). Embora as tentativas de acrescentar a palavra “transgênero” ao nome da Marcha tenham falhado, os direitos dos trans foram incluídos na lista de demandas da Marcha.

O fracasso do governo em responder adequadamente à crise da Aids continuou a ser uma preocupação importante, mas outras questões GLBTQ também foram destacadas durante a marcha. O direito de lésbicas, gays e bissexuais de servir nas forças armadas foi um tema especialmente proeminente, já que o presidente Clinton não obteve êxito em cumprir sua promessa de campanha de revogar a proibição.

Além da marcha, os participantes puderam participar em mais de 250 eventos relacionados, incluindo conferências, seminários, protestos, lobby no Congresso, danças, leituras e cerimônias religiosas.

A Marcha de 2000

Enquanto as três primeiras marchas em Washington foram esforços majoritariamente de base, com uma ampla parte da comunidade GLBTQ representada nas comissões organizadoras, a Marcha do Milênio em Washington pela Igualdade, em 2000, foi convocada e dirigida pela Human Rights Campaign e pela Fraternidade Universal das Igrejas de Comunidades Metropolitanas, com uma reduzida consulta inicial dos grupos locais, estaduais e nacionais.

Para tentar apaziguar as críticas de que o evento estava sendo planejado por uma parcela branca, rica, e relativamente integrada à sociedade do movimento GLBTQ, os organizadores da marcha promoveram uma representação da diversidade da comunidade no conselho de diretores. No entanto, permaneceram as críticas acerca do caráter fechado do processo de planejamento, e da falta de uma agenda política e de propósitos coerente em relação aos desfiles anteriores.

O foco parecia estar, principalmente, no entretenimento e nos patrocínios fornecidos por empresas. Devido a estas preocupações, muitos proeminentes líderes GLBTQ se uniram em um movimento de boicote, e algumas organizações GLBTQ se opuseram à Marcha ou posteriormente retiraram o seu apoio a ela, incluindo a Força-Tarefa Nacional de Gays e Lésbicas e o Fórum de Lideranças Negras Gays e Lésbicas.

As disputas resultaram numa Marcha do Milênio menor e menos diversa do que as de 1987 e 1993. Cerca de 200.000 pessoas participaram do comício. Outros eventos principais incluíram um show, uma cerimônia de casamento envolvendo cerca de 1.000 casais de pessoas do mesmo sexo nos degraus do Lincoln Memorial, e um festival de lojas e entretenimento gay-friendly.

A festa pretendia arrecadar fundos para grupos locais GLBTQ, mas perdeu dinheiro, levando a acusações de gastos inadequados e a uma investigação do FBI sobre o roubo de centenas de milhares de dólares. A Marcha do Milênio, assim, terminou da mesma forma que começou: em controvérsia.

Apesar do relativo fracasso da Marcha do Milênio, as marchas em Washington a favor dos direitos das pessoas GLBTQ são uma parte importante do movimento moderno pela igualdade.

Marcha Nacional pela Igualdade em 2009

[A Marcha Nacional pela Igualdade em 11 de outubro de 2009 nasceu da frustração: a frustração com a perda do direito ao casamento gay e outros em consultas populares; frustração com a alegada cooptação do movimento pelos direitos dos homossexuais pelo Partido Democrata, e frustração com o fracasso do presidente Obama em cumprir as promessas que fez em sua campanha de 2008 para a presidência.

A marcha, que foi organizada às pressas em apenas seis semanas, inicialmente sem o apoio das principais organizações de direitos dos homossexuais, foi convocada pelos ativistas veteranos Cleve Jones e David Mixner, mas aqueles que responderam à chamada e fizeram da Marcha um sucesso eram principalmente jovens ativistas que haviam sido impelidos à ação pela aprovação da Proposição 8 na Califórnia, que eles atribuíram a uma falha de visão e estratégia por parte das organizações políticas gays já estabelecidas.

A decepção desses jovens ativistas com a derrota naquela eleição foi agravada pela sua desilusão com o governo de Obama, que parecia distanciar-se das promessas que foram feitas na eleição presidencial de 2008, especialmente o fracasso em por um fim à política Don’t Ask, Don’t Tell, que se proíbe o alistamento de gays e lésbicas no serviço militar.

O contraste entre as atitudes da elite do movimento político gay e dos ativistas de base ganhou destaque pelo fato de que na véspera da Marcha, quando o presidente Obama dirigiu-se ao jantar nacional da Human Rights Campaign, ele foi recebido por piqueteiros que chamaram a atenção para o seu fracasso no avanço dos direitos gays nos primeiros nove meses de sua presidência.

Na chamada da Marcha, Jones e Mixner enfatizaram a necessidade de uma mudança nos rumos do movimento. Jones definiu a prática atual de luta por direitos em nível local como uma estratégia fracassada. “A busca infinita por frações de igualdade, estado por estado, município por município, localidade por localidade não é suficiente”, disse ele ao New York Times.”Até que nossas ações cheguem ao nível federal, cada uma dessas vitórias locais – não importa quão importantes elas sejam – cada uma é incompleta e impermanente.”

Apesar dos detratores, como o congressista Barney Frank, que disse que a marcha foi um exercício de futilidade que só faria pressão nas bases, a Marcha da Igualdade atraiu mais de 250.000 participantes altamente diversificados, mas predominantemente jovens. E já que a marcha foi promovida principalmente por blogueiros através da Internet, o seu sucesso em si era um tributo ao poder da World Wide Web.

O clima em 2009 foi bem menos festivo que o da Marcha de 1993. O foco estava na necessidade de um ativismo de base, o que sugere uma falta de fé nas grandes organizações políticas de gays e lésbicas, vistos por muitos como tendo sido cooptadas pelo Partido Democrata, que em si foi visto como tendo mais interesse em arrecadar fundos junto aos GLBTQ do que na promulgação de leis que promovam a igualdade de direitos.

Julian Bond, presidente da Associação Nacional para o Avanço das Pessoas de Cor, proferiu o discurso principal. Ele não aliou-se pessoalmente à agenda dos direitos dos homossexuais, como também apontou as continuidades entre o movimento dos direitos civis e do movimento gay e lésbico.

Outros oradores foram Cleve Jones, o cineasta vencedor do Oscar Dustin Lance Black, a atriz Cynthia Nixon, a cantora Lady Gaga, o Tenente e ativista para a revogação da “Don’t Ask, Don’t Tell” Dan Choi, ativista pela legislação dos crimes de ódio Judy Shepard (a mãe do estudante universitário assassinado Matthew Shepard), e David Mixner.

Mixner captou o espírito da Marcha perfeitamente com as seguintes palavras: “Quando as pessoas me dizem para ser paciente, quando as pessoas dizem, ó Senhor, não agora. Tudo o que consigo pensar é em quantas lágrimas mais devem ser derramadas para que alguns políticos ao nosso redor possam descobrir quando será o momento conveniente para se juntar a nós e à nossa luta pela liberdade.”


A Conferência Anti-Heterossexista de 2009

21 de agosto de 2009

Mais um capítulo da novela da terapia para homossexuais nos EUA.

Desgostosa com a decisão da APA, a NARTH (National Association for Research & Therapy of Homossexuality / Associação Nacional pela Pesquisa & Terapia da Homossexualidade) se prontificou a organizar uma convenção nacional para discutir seus métodos e treinar novos profissionais. Ela ocorrerá dias 20, 21 e 22 de novembro desse ano, na Florida, com a (assustadora) temática “prevenindo e tratando a confusão de identidade sexual na vida de crianças, jovens e adultos”.

NARTH: articulados contra a diversidade

NARTH: articulados contra a diversidade e o respeito

A Soul Force, organização que tem como objetivo específico lutar contra a repressão religiosa a LGBTs, foi rápida em dar uma resposta. A Conferência Anti-Heterossexista de 2009, concebida e divulgada por eles, ocorrerá propositalmente nos mesmos dias: 20, 21 e 22 de novembro. Em seu site de divulgação, explicam um pouco desse conceito de “anti-heterossexismo”.

Heterossexismo é a premissa de que todos são heterossexuais e que a atração pelo sexo oposto é preferível e superior à pelo mesmo sexo. O heterossexismo está presente em quase todas as instituições sociais, religiosas, culturais e econômicas da nossa sociedade e leva à discriminação e às danosas tentativas de alguns profissionais da saúde e grupos religiosos a reprimir a orientação sexual dos que estão sob seus cuidados.

Anti-heterossexismo envolve o reconhecimento e questionamento do poder e dos privilégios que a sociedade dá aos heterossexuais por conta de sua orientação sexual. Envolve respeitar e estimular a inclusão e diversidade de pessoas de todas as orientações sexuais e identidades de gênero.

Acredito, pessoalmente, que heteronormatividade seja um termo bem mais conciso e adequado que heterossexismo. Muito provavelmente os religiosos utilizarão esse discurso da Soul Force de maneira falaciosa, como se a convenção tivesse como meta eliminar a heterossexualidade do mundo. Mas convenhamos que falaciosidade, absolutamente, não é uma novidade na luta de homofóbicos contra militantes LGBTs.


Dia do Orgulho Lésbico: entrevista com Míriam Martinho

19 de agosto de 2009

Em 1983, no dia 19 de agosto, as lésbicas que frequentavam o Ferro’s Bar, em São Paulo, revoltaram-se contra a discriminação que as ativistas do Grupo de Ação Lésbico-Feminista (GALF) sofriam no local. A ocupação do bar é considerada o “Stonewall brasileiro“. Por isso, a data de 19 de agosto é celebrada como o Dia do Orgulho Lésbico desde 1996 (embora uma parte do movimento lésbico tenha decidido comemorar o dia 29 de agosto como Dia da Visibilidade Lésbica, o que gera polêmica até hoje).

A comemoração desse dia se torna ainda mais importante em 2009 porque o movimento lésbico brasileiro completou 30 anos no último mês de maio. Para marcar esse dia, conversamos com Míriam Martinho, ativista do GALF que participou da ocupação do Ferro’s Bar. Atualmente, ela escreve nos blogs Contra o Coro dos Contentes e Memória/História MHB-MLGBT, e edita o site lésbico Um Outro Olhar.

Como surge o Grupo Lésbico-Feminista? Quantas mulheres faziam parte do coletivo, na época? Quais foram suas primeiras ações?
MM: O Grupo Lésbico-Feminista surgiu em maio de 1979 quando as mulheres do Grupo Somos de Afirmação Homossexual, de São Paulo (primeiro grupo homossexual do Brasil), foram convidadas a redigir uma matéria sobre lésbicas para o jornal Lampião da Esquina, publicação de temática homossexual do Rio de Janeiro que circulou de 1978 a meados de 1981. Após a publicação dessa matéria, decidiram continuar juntas e formaram o primeiro grupo lésbico brasileiro, chamado Grupo Lésbico-Feminista (LF), cujo coletivo se desfez em meados de 1981. Duas remanescentes deste coletivo, resolveram dar continuidade a organização especificamente lésbica e fundaram o Grupo Ação Lésbica Feminista (outubro/1981).

O LF surgiu dentro do Somos, dentro de um jornal gay. Até hoje as lésbicas reclamam de pouco espaço e visibilidade no movimento homossexual. Foi difícil abrir espaço para as demandas lésbicas no movimento?
MM: Sim, foi difícil. Nem tanto na primeira geração do movimento homossexual (a da década de 80), pois o feminismo estava no auge e influenciava todo mundo, inclusive os homens homossexuais que já pensavam na especificidade lésbica e faziam paralelos entre a questão da homofobia e a situação da mulher. Mais na segunda geração, a da década de 90, quando o movimento homossexual renasce das cinzas. Foi preciso uma batalha campal para simplesmente inserir a palavra lésbica no nome do encontro nacional em 1993. Hoje não sei dizer o quanto as reclamações das ativistas lésbicas sobre mais espaço e visibilidade no movimento homossexual também não são consequência da relativa ausência das mesmas no MLGBT. A maioria vem se reunindo fundamentalmente em separado e em ligação com o movimento feminista, então fica difícil saber o quanto essas queixas procedem. Os gays tendem a ser gaycêntricos mesmo, mas se as lésbicas também não estão presentes para questionar essa situação com pertinência, a tendência é que ela se mantenha.

Pelo que li no seu livreto sobre os 30 anos do movimento lésbico, vocês já enfrentavam algumas dificuldades para vender o ChanaComChana no Ferro’s Bar há algum tempo… qual foi a “gota d’água” para o levante em 19/08/1983?
MM: A gota d’água foi no dia 23 de julho de 1983, quando o dono do bar, o segurança e o porteiro tentaram nos pôr para fora do Ferro’s, puxando a gente pelo braço, dando empurrões. Nós resistimos, e as mulheres que estavam no bar nos apoiaram. Eles chamaram a polícia que extraordinariamente permitiu que a gente ficasse por lá naquele dia, mas naquela base do só hoje e nunca mais. E fomos proibidas de voltar a vender o boletim lá, embora se vendesse de tudo no bar, inclusive substâncias ilícitas. Só não podia vender publicação de lésbica num bar sustentado por lésbicas. Daí organizamos o levante para acabar com a proibição.

Depois desse incidente, as lésbicas continuaram frequentando o bar? Como foi a repercussão da invasão na mídia?
MM: Não só continuaram como houve um acréscimo de tribos lésbicas ao público do bar, pois as feministas homossexuais passaram a frequentar o “pedaço” – como se dizia – também com mais frequência. Em relação à imprensa, houve uma grande repercussão na mídia porque foi a Folha de São Paulo que cobriu a invasão e com um enfoque positivo, coisa inédita no período. Outros jornais e a revista Visão (da época) reproduziram a matéria e reverberaram o assunto.

A invasão do Ferro’s Bar é bastante semelhante ao levante de Stonewall dez anos antes, considerado um marco para o movimento homossexual. Mas o 19 de agosto não costuma ser lembrado com tanto destaque pela imprensa gay brasileira quanto o 18 de junho, e mesmo as lésbicas têm mais uma data oficial para celebrar (29 de agosto, Dia da Visibilidade Lésbica). Você não sente que o caso do Ferro’s Bar é pouco valorizado?
MM: O dia 19 de agosto foi lançado oficialmente em 2003 e novamente divulgado pela Folha de São Paulo, com as matérias sendo replicadas por outros jornais, dando grande repercussão ao assunto. Mas o pessoal do dia da visibilidade, que havia sido proposto em 1996, mas não comemorado efetivamente, ficou temeroso que o 19 de agosto sobrepujasse seu dia e iniciou uma grande propaganda contra a data do orgulho, encontrando respaldo e repercussão na conjuntura política que se iniciou em 2003 e está aí até hoje. O dia da visibilidade se tornou então a data oficial das ativistas lésbicas dessa conjuntura que são majoritárias. Então foi essa propaganda contrária que determinou e ainda determina a valorização inadequada do dia do orgulho. Agora, as pessoas que combatem a visibilidade do dia do orgulho são como aquelas que caíram numa areia movediça: quanto mais lutam contra mais rápido a credibilidade delas afunda, pois o levante do Ferro’s é um fato histórico indiscutível. De qualquer forma, já se percebe que algumas pessoas vêm contestando esse silêncio imposto – que de fato é constrangedor para tod@s – e passando a dar o valor que o dia merece.

Para encerrar: As lésbicas ocupam cada vez mais espaço na mídia (em novelas, com seriados como The L Word, com portais como o Dykerama e o Parada Lésbica, além de uma editora própria, a Malagueta). Bem ou mal, a “visibilidade” lésbica avança. Em termos de “orgulho lésbico”, o que temos que conquistar ainda?
MM: Bem, como costumo dizer, sem orgulho não há visibilidade. Essas manifestações de visibilidade que cita são fruto do orgulho de lésbicas que têm a coragem de ser explicitamente lésbicas numa sociedade que insiste em dizer que deveríamos nos envergonhar de amar outras mulheres. Lésbicas sem orgulho não têm visibilidade. Contiuam cultuando o enrustimento, a vida dupla, a falta de integridade e pagando um preço muito alto em termos de qualidade de vida por isso, além de colaborar com o preconceito. Pior: ainda são a maioria infelizmente. Então continua havendo muito que conquistar em termos de orgulho e consequentemente de visibilidade. Feliz dia do orgulho lésbico!


Alguns links pós-Orgulho

1 de julho de 2009

Como grande parte da mídia, deixamos o 28 de Junho em branco aqui no Homomento. Contudo, dois novos sites brasileiros com a temática LGBT foram postos no ar e tudo indica que serão bastante úteis na luta pelos direitos da comunidade e pela sua aceitação no campo social. Ambos merecem – muita – divulgação: por isso a postagem aqui e o pedido para que quem leia repasse os links.

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30 Ideias – Comentei aqui anteriormente que aguardava ansioso pela cartilha virtual que vinha sendo feita por alguns blogueiros. O 3o Ideias (Para ajudar a causa LGBT do seu jeito) pode soar um pouco óbvio em alguns de seus pontos, mas é uma iniciativa fantástica na medida em que, de maneira simples e direta, apresenta bons argumentos para certas atitudes simples, porém significativas, serem tomadas. Disponibiliza também uma porrada de links úteis relacionados a cada tópico levantado no site.

Gay.com.br – Em sua nova versão ainda em experimento, o site pretende integrar-se à web 2.0: opera repassando notícias de diferentes sites separados por categoria, tendo aberto ainda uma rede social própria para discussão e  colaboração. Como dito no post de inauguração, faltam alguns ajustes e a navegação ainda está um pouco confusa, porém nota-se o potencial para tornar-se uma referência.

(obs.: para uma reflexão sobre o 28 de Junho, vale a pena também dar uma olhada nesses dois textos: Porque comemorar o orgulho gay? e As conquistas do movimento gay 40 anos após Stonewall.)