Insistindo no erro

20 de agosto de 2009

A decisão da American Pshychological Association de banir tratamentos de cura para LGBTs já está sendo contestada, como era de se esperar. Uma pesquisa desenvolvida durante seis anos tendo como objeto de estudo 61 homens e mulheres homossexuais em tratamento “comprova” que a terapia direcionada à reorientação sexual é eficiente. Confira os resultados no infográfico abaixo, gerado pelo Homomento com as frases originais do trabalho, traduzidas para o português.

Tabela

A alegação é que a primeira e a segunda categoria da tabela, aliadas, formam a parcela de gays totalmente curados. Assim, a grande descoberta divulgada foi que 53% dos homossexuais que tentam se curar obtém sucesso. Waymon Hudson, do Bilerico Project, não precisa pensar muito para detectar uma falha: então castrar homens gays e fazer deles celibatários é curá-los? Essa é a definição para “perder a homossexualidade”? – Não manter relações sexuais com ninguém e ter atrações por homens “reduzidas”?. Notem, também, que os que se mantiveram gays apenas não teriam realizado o tratamento até o fim, sugerindo falha por parte dos pacientes e não do procedimento.

A matéria de Hudson sobre o caso é bem completa, mostrando-nos ainda críticas realizadas pela própria Pshychological Association e até mesmo por um grande portal de notícias cristãs. Pudera; há erros gritantes como a omissão, na porcentagem final, de 37 pessoas que desistiram “por razões diversas” ao longo dos seis anos. Assim, se 61 homossexuais formam a pizza visualizada acima, deveriam ser 96. Quase 40% dos objetos foram totalmente abstraídos da conclusão.

A pesquisa é, na realidade, uma versão atualizada do livro Ex-Gays?, dos mesmos autores, publicada em 2007

A pesquisa é, na realidade, uma versão atualizada do livro Ex-Gays?, dos mesmos autores, publicada em 2007

O resumo do trabalho, que foi apresentado numa convenção em Toronto no último 9 de Agosto, tem de fato conteúdo bastante duvidoso. Os pesquisadores Stanton Jones (Wheaton College) e Mark Yarhouse (Regent University) discorrem sobre como os estudos na área do tratamento de homossexuais foram postas de lado por conta de um preconceito que os associa a experimentos passados. Contam que a terapia observada era realizada por membros da Exodus International, grande instituição católica unida pela conversão de gays (sobre a qual já falamos anteriormente, no relato de um homossexual que se submeteu aos procedimentos deles). Finalizam, é claro, colocando que mesmo que sua hipótese inicial fosse que a orientação sexual não pode ser alterada e que seu tratamento traz malefícios, só puderam chegar a conclusões totalmente contrárias.

Depois da fantástica reflexão da Carol sobre a idéia de que se pode reorientar a sexualidade, tudo o que me resta a comentar é a disposição e o tempo que essa gente tem para elaborar maneiras de provar que a existência de homossexuais é inaceitável. Se religiosos e homofóbicos de plantão revertessem tempo que gastam lutando contra LGBTs em jogos de peteca, por exemplo, com certeza seriam sujeitos mais alegres e bem menos desgostosos com a vida alheia. Fica a singela sugestão.

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A sedução científica

28 de julho de 2009

Há algumas semanas li um texto do colunista da BBC Brasil Ivan Lessa intitulado “A confusão científica”. Nada sei sobre sua repercussão por não haver espaço para comentários no site, mas admito ter concordado com as idéias ali defendidas. Apesar de ter a nítida sensação de tratar-se de uma opinião leiga, é inevitável constatar que nossas opiniões e hábitos estão nas mãos de cientistas que volta e meia retificam noções tidas anteriormente como infalíveis.

Outra constante na vida profissional desses donos da verdade são as pesquisas inúteis para revelar obviedades. Opinião minha, claro. Vi outro dia um teste em que um rato pequeno com fios ligados ao cérebro era de tempos em tempos trancado com um exemplar maior e mais agressivo de sua espécie, que o feria e o deixava em pânico. O nobre objetivo do maltrato ao animal era comprovar que um ser vivo, quando intimidado com frequência, torna-se amedrontado e retraído. A matéria, ao final, fazia um paralelo com o homem e concluía brilhantemente que o bullying é prejudicial ao desempenho escolar e afeta a personalidade das vítimas.

Por conta dos meus interesses pessoais e até para montar textos interessantes para o Homomento, sou leitor de muitos sites e portais de notícias voltados para o público LGBT. Percebo que a denúncia a manifestações homofóbicas e o acompanhamento da evolução dos nossos direitos são os tópicos principais, mas não posso deixar de observar a repercussão que os números têm nesses veículos. Uma boa pesquisa seduz os ativistas, que logo divulgam as porcentagens de homossexuais no Brasil e no mundo, de grupos odiados na sociedade brasileira, de gays que já foram discriminados de alguma maneira, de chilenos a favor da união homoafetiva, de britânicos simpáticos a homossexuais e até de gays ativos e passivos em capitais norte-americanas (!), para dar uns poucos exemplos.

Os motivos para isso me parecem claros. Informações quantitativas são bons argumentos: se um colega da faculdade lhe diz que a homofobia no Brasil não chega a ser violenta, prontamente você pode responder que, segundo a pesquisa de Luiz Mott, um homossexual é morto a cada três dias no nosso país. Se o namorado de uma amiga diz que você é legal, mas não é natural ser gay, você comenta que são mais que comuns as ocorrências de homossexualidade na natureza, e que um estudo recente mostra que a homossexualidade ajuda a moldar a evolução. Conhecimento, nesse caso, é poder: para se defender e tentar convencer as pessoas do nosso convívio diário que a existência de LGBTs é natural. Além do mais, quando a sentença é científica, a credibilidade é tanta que bons frutos podem ser colhidos dessas especulações, tais como iniciativas do governo e mobilizações públicas.

Contudo, não se pode esquecer dos riscos de se apoiar sob os alicerces da ciência. Pesquisas sempre têm uma margem de erro, e um pertinente texto publicado no Dolado nos atenta para o fato de que, no que concerne às pesquisas relacionadas à homossexualidade, essa margem tem uma característica essencial que é o medo do preconceito.

(…) não existem estatísticas exatas e não há um Censo que calcule corretamente a quantidade de homossexuais no Brasil. Algumas estatísticas apontam cerca de 10% dos brasileiros sendo homossexuais, mas não há uma apuração utilizando métodos científicos e critérios precisos de pesquisa. Uma pesquisa séria e abrangente poderia solucionar a questão, mas é barrada por outro problema: o preconceito. Muitos homossexuais ficariam com medo de assumir a sua homosexualidade em uma pesquisa, afetando negativamente a mensuração de dados reais. (…)

Confesso ter me alegrado com a “comprovação” de que crianças criadas por casais homossexuais crescem normalmente, mas nunca tive dúvidas disso. A análise que aponta 87% da comunidade escolar como homofóbica talvez estimule mais iniciativas inclusivas do MEC, porém todo mundo sempre soube que no colégio a bichinha e a sapata são alvo de chacota, violência física e psicológica. Por outro lado, é indignante perceber que para termos direitos e respeito, precisemos provar que os merecemos. Até quando a humanidade vai precisar trancar ratos em gaiolas e ver crianças sofrendo por não serem masculinas/femininas o suficiente para chegar a conclusões óbvias e assim tomar atitudes em relação a elas?

Em meados do século XIX e início do XX, a psiquiatria buscou categorizar tipos e comportamentos humanos em nome da ciência, se aliando à religião como nova justificativa do ódio dos homens brancos e heterossexuais contra homens e mulheres de cor e/ou homossexuais. Os paradigmas que embasaram esses prognósticos assustadores já foram derrubados, mas seu legado no âmbito sócio-cultural foram a ignorância e o preconceito. Não vamos, como esses homens, nos deixar viciar por informações exatas e comprovadas: humanizemos nosso discurso.


É bom ser conhecido como gay

7 de maio de 2009

Uma pesquisa da CNN aponta que nos EUA a aprovação da união homossexual é maior entre os jovens. Na faixa que vai dos 15 aos 34 anos, 58% afirmaram que o casamento gay deveria ser legal. Essa porcentagem cai para 42% entre aqueles com 35 a 50 anos, e fica em 41% para quem tem entre 51 e 64. A diferença aumenta ao se ouvir os mais velhos: somente 24% daqueles com 65 anos ou mais aprovam a medida.

A meu ver, o dado mais interessante levantado pela pesquisa é a constatação de que quem conhece e convive com homossexuais tende a ser mais favorável à união entre pessoas do mesmo sexo.

“Pessoas que afirmam ter um amigo ou parente gay apoiam o casamento entre pessoas do mesmo sexo”, diz Keating Holland, diretor de pesquisas da CNN, que complementa: “A maioria daqueles que dizem não conhecer nenhum homosssexual se opõe ao casamento gay”.

Esses resultados só ressaltam a importância de se assumir. Somos 10% da população, então é impossível que alguém não conheça nenhum homossexual – a não ser que se viva numa redoma. Na melhor das hipóteses, pode-se falar que essas pessoas não conhecem nenhum homossexual assumido. E é muito mais fácil chamar de anormal o que não se conhece a fundo, pois o conhecimento raso lida praticamente só com estereótipos.

Quer um exemplo melhor de que os gays não são um grupo de pessoas igualmente “sem-vergonha” do que descobrir que o irmão, uma colega de trabalho, o melhor amigo é homossexual? A família, os amigos e outros conhecidos nos conhecem como indivíduos, antes de tentarem nos encaixar em qualquer padrão de comportamento. E a descoberta da homo/bi/transexualidade de alguém possibilita que no mínimo se questionem as manifestações homofóbicas que condicionam o julgamento que as pessoas fazem sobre o assunto.

Ao dizer sim, sou gay, mandamos também outra mensagem, não tão evidente: nós não somos os monstros que vocês pintam, e nós não queremos ser tratados dessa forma. Individualmente, isso parece pouco. Nem tão pouco, se pensarmos no número de pessoas com quem convivemos, para quem a homossexualidade se torna menos estranha.

Como diriam as feministas, o privado é público. Um homossexual assumido é uma pessoa que não precisa mais mentir. Milhares, somos mesmo uma revolução silenciosa.