Retrospectiva de setembro

1 de outubro de 2009

No Brasil

O reconhecimento das uniões entre pessoas do mesmo sexo pelo Estado brasileiro continuou sua consolidação em setembro. As ações que estão no STF tratando das uniões homoafetivas podem ganhar um empurrãozinho significativo: no dia 17, o presidente Lula indicou um advogado simpatizante para ocupar a cadeira vaga do STF. O nome de José Antonio Dias Toffoli foi confirmado no cargo ontem numa sabatina do Senado, em decisão que segue para aprovação de Lula. Ontem, ele reafirmou seu apoio à nossa causa, dizendo que “a homoafetividade é um fato da cultura humana”.

O IBGE anunciou que irá contar os casais gays no Censo Demográfico de 2010, e servidores LGBT do poder público estadual de Pernambuco poderão incluir seus parceiros como beneficiários na Previdência. Outras iniciativas regionais merecem destaque: o governo de São Paulo está capacitando agentes da Secretaria de Emprego e Relações do Trabalho (SERT) para inserção de LGBT no mercado, e em Floripa foi aprovada uma lei que proíbe a discriminação em virtude da orientação sexual.

O estado de São Paulo tem uma lei semelhante desde 2001, mas aparentemente ela não é bem divulgada. Em setembro, uma imobiliária da capital desse estado anunciou um apartamento vetando seu aluguel por homossexuais, numa medida desastrada que ainda pode render processo judicial. Em Belém do Pará, um juiz da Vara de Infância e Juventude também não quer homossexuais por perto – no caso, por perto de crianças. A Justiça recomendou a fiscalização da Parada GLBT dessa cidade para evitar a presença de menores, por considerar que o evento tem cenas “atentatórias à moral e aos bons costumes”.

Falando em bons costumes, descobriu-se que isso é coisa que o governador do Mato Grosso do Sul não tem: por conta de desavenças políticas, André Puccinelli chamou o ministro do Meio Ambiente Carlos Minc de “viado”, “maconheiro” e disse que o “estupraria em praça pública” – e ainda tentou aplicar a desculpa de que isso teria sido uma brincadeira. Esse machismo homofóbico também exala da declaração do técnico do Goiás, Hélio dos Anjos, que disse “não trabalhar com homossexuais”.

A discriminação contra os LGBT foi alvo de ação judicial, também – mas não da maneira que esperávamos. O Conselho Interdenominacional de Ministros Evangélicos do Brasil (Cimeb) entrou na Justiça, em ação posteriormente arquivada pelo STF, contra a Lei 10.948/2001 de São Paulo – a lei citada acima, que proíbe o tratamento desigual motivado pela orientação sexual – por considerar que ela fere a liberdade de expressão. Esse argumento mentiroso é o principal dentre aqueles que sustentam a oposição dos religiosos ao PLC 122/2006.

No mundo

No panorama internacional, foi também a homofobia o grande choque do mês. Em uma província da Indonésia, entrou em vigor uma lei que pune a homossexualidade com 100 chibatadas em público e até 8 anos de prisão.  No Iraque, onde a homossexualidade é punida com a morte, a surpresa triste de setembro foi a descoberta de armadilhas dos fundamentalistas: eles entram em chats gays e marcam encontros com os rapazes, para então aprisioná-los e torturá-los até a morte. E a Anistia Internacional viu-se obrigada a condenar uma lei homofóbica aprovada na Lituânia em julho.

É evidente que setembro não foi um mês só de más notícias. O governo da Grã-Bretanha, por exemplo, desculpou-se publicamente pelo tratamento cruel que dedicou ao matemático Alan Turing, processado por ser homossexual e “tratado” desse “mal” com castração química. Esse pronunciamento só ocorreu porque o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, atendeu a uma petição online no site do governo, provando que o ativismo gay 2.0 rende frutos. Na África do Sul, foi vista como avanço na questão LGBT a condenação de dois homens que estupraram e mataram a jogadora de futebol Eudy Simelane em função de sua homossexualidade. Embora esses dois casos sejam específicos e não corrijam o mal sofrido, é notável o fato de que a discriminação contra LGBTs está sendo oficialmente condenada pelo poder público desses países.

Os direitos dos LGBT, contudo, não se limitam a não sofrer agressão: em um mundo ideal, os direitos dessa parcela da população serão os mesmos que os das demais pessoas. E algo me diz que estamos caminhando rumo a essa realidade: na Escócia, os homossexuais agora têm direito à adoção assim como os casais héteros. Nos Estados Unidos, constatou-se que casais entre pessoas do mesmo sexo são estáveis sim, e que procuram oficializar sua situação: o birô do Censo confirmou que 27% dos casais homossexuais são legalmente casados de alguma forma.

A melhor notícia de setembro veio da ciência: pela primeira vez, uma vacina demonstrou ter efeitos consideráveis na prevenção do contágio por HIV. A taxa de 31% de sucesso surpreende, mas ainda é cedo para relaxar na prevenção. A AIDS continua não tendo cura.

No Homomento

Setembro foi um mês de definições: pesquisamos como a homossexualidade aparece nos dicionários, revisamos a história do termo “homofobia” e destrinchamos os principais preconceitos sofridos pelos bissexuais (comentaremos as identidades TTT ao longo de outubro, prometemos). Também falamos pela primeira vez sobre homoparentalidade ao traduzir o texto de uma menina de 10 anos, que conta sua experiência como filha adotiva de duas mães.

Desde sua criação, o Homomento é bastante crítico em relação à mídia gay que temos no Brasil – de certa forma, nosso trabalho surge como uma resposta às falhas que encontramos nessa mídia. Mas foi só em setembro que elaboramos um artigo mais consistente sobre as críticas que fazemos aos sites LGBT brasileiros. E ficamos bastante satisfeitos com o debate que aconteceu nos comentários de nossas análises sobre como a publicidade se dirige aos LGBTs, seja de forma a se mostrar gay-friendly (uma estratégia que pode ser considerada oportunista), seja usando duas mulheres para gerar um apelo sexual (o que também é questionável: para a homossexualidade se tornar visível, basta aparecer?).

As discussões sobre cultura também renderam bastante. Setembro é um mês interessante para nós, pois somos gaúchos e o dia 20 é a data mais importante para o nosso tradicionalismo sexista, que exclui os homossexuais. Ao longo do mês, encontramos subsídios para que pensássemos nossa própria militância, e tivemos também a chance de conversar sobre cultura LGBT com Michael Eichler, do site The New Gay. Foi desse site que tiramos a definição de ativismo 2.0 que abordamos por aqui: acreditamos que a web é um espaço para que todos possamos veicular nossas ideias e compartilhar nossas opiniões. Assim, acreditamos que nosso trabalho pode estimular a discussão rumo a uma aceitação cada vez maior das diferentes sexualidades.

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23 de setembro: dia internacional da bissexualidade

23 de setembro de 2009

Fiquei sabendo da comemoração de hoje pela revista espanhola LGBT AG Magazine. O site da revista conta que a data foi escolhida por marcar a morte de Freud, o primeiro teórico a conceber a possibilidade de existência da bissexualidade.

Foi a 23 de setembro de 1999 que se celebrou pela primeira vez essa data, durante a XXII Conferência Mundial da ILGA (International Lesbian and Gay Association) em Jogannesburgo, África do Sul, e hoje em dia se realizam atividades comemorativas em todos os continentes: dos EUA ao Japão, da Austrália à Europa.

Na sexta-feira da semana passada, o Homomento publicou seu primeiro post sobre bissexualidade, o texto Bi-bi-bi-bi, traduzido da revista mexicana Pride is Dead, que aborda o preconceito sofrido pelos bissexuais tanto na mão dos héteros quanto dos também oprimidos homos. Aproveitamos o dia de hoje para aprofundar essa discussão, abordando alguns dos principais problemas enfrentados (há muito tempo, como podemos ver nessa matéria publicada na revista Istoé em 1995) pelos bissexuais e tentando desconstruir alguns dos principais argumentos contrários à aceitação da bissexualidade.

O problema do sistema binário

É sempre importante lembrar que a construção de uma identidade sexual não depende somente da orientação do desejo. Ainda que não exista uma “escolha” da orientação sexual, a construção da identidade envolve uma influência do meio. O desejo é biológico, mas a identidade é socialmente construída. Por exemplo: os termos “heterossexual” e “homossexual” foram criados no século XIX, mas isso não quer dizer que antes disso não existissem pessoas que se relacionassem majoritariamente com um ou outro sexo. O que não havia era a denominação para um ou outro comportamento frente à orientação sexual.

O desenvolvimento de uma ciência sexual no Ocidente nos últimos séculos tratou inicialmente da sexualidade humana como uma realidade binária: existem homens e existem mulheres, existem heterossexuais e homossexuais. Branco versus preto. Os tons de cinza começam a aparecer com mais clareza quando o sexólogo Arthur Kinsey divulga sua famosa escala, que prevê uma certa gradação no desejo e no comportamento sexual. Com a publicação desse trabalho, em 1948, reconhece-se que não existem apenas dois padrões de comportamento sexual, e a sociedade descobre que a porcentagem de indivíduos que se envolve em relacionamentos sexuais com pessoas de diferentes sexos é bem maior do que se imaginava.

A escala Kinsey, com os graus de orientação sexual e a porcentagem deles na sociedade americana

A escala Kinsey, com os graus de orientação sexual e a porcentagem deles na sociedade americana

Fritz Klein, autor do livro The Bisexual Option, defende que a bissexualidade é um problema para héteros e homos à medida que ameaça a distinção clara entre uma e outra identidade sexual.

As preferências e aversões eróticas dos heterossexuais normalmente não permitem uma compreensão da homossexualidade. Homossexuais também se sentem desconcertados frente à atração por pessoas do sexo oposto. Isso cria dois campos distintos a partir dos quais bandeiras podem ser erguidas. E ainda que possam ser ameaças ideológicas uns para os outros, esses dois campos são claramente distintos. (…) [Um homem] confrontado com um homem bissexual precisa, ainda que inconscientemente, lidar com a possibilidade de que sua própria sexualidade seja ambígua. A razão pela qual ele fica aliviado ao ouvir que bissexuais não existem é que, assim, ele evita seu próprio conflito interior.

O padrão binário, contudo, deixa marcas. Até hoje, há quem não acredite na existência da bissexualidade. Frequentemente, bissexuais são estimulados (tanto por gays quanto por héteros) a “se decidirem”, como se somente as sexualidades homo e hétero fossem possíveis. Essa pressão por uma definição às vezes faz com que algumas pessoas acabem adotando identidades mais fluidas, determinando-se ora héteros, ora homos, afirmando por vias tortas que a bissexualidade não é uma fase.

Bissexualidade e descrédito

Um dos argumentos mais frequentes entre aqueles que dizem não acreditar na bissexualidade, especialmente masculina, é aquele que diz que as pessoas que se autodenominam bissexuais são na realidade homossexuais enrustidos. Recentemente, um estudo (criticado por ativistas LGBTs devido à metodologia questionável e a um posicionamento pouco isento do pesquisador) defendeu esse ponto de vista, negando a possibilidade da existência de homens bissexuais. Esse pensamento é frequente entre gays e lésbicas, que normalmente definem-se como bis na “fase da descoberta” e passam a adotar uma identidade homossexual na idade adulta.

Esse posicionamento baseado na própria experiência ignora, em primeiro lugar, que as sexualidades são diversas (o que me surpreende bastante, quando vindo de homossexuais), e que o fato de alguns homossexuais passarem por uma “fase” bissexual não quer dizer que todas as bissexualidades sejam transitórias. Além disso, é importante ressaltar que a adolescência é uma fase de definição (não só sexual, mas em todos os aspectos) para todos, e a experimentação faz parte desse processo. Por isso, é importante separar a identidade adulta, mais ponderada, das “fases” que caracterizam a adolescência. Usando um exemplo não sexual: eu me identificava politicamente como “comunista” quando tinha lá meus 14 anos. Hoje, com um pouco mais de maturidade e conhecimento, sei que nunca fui verdadeiramente comunista, o que não me impede de reconhecer a existência do comunismo real.

Afirma-se com frequência que a crescente presença de homos e bissexuais na mídia pode “influenciar” adolescentes, especialmente meninas, a experimentarem. Com isso, considera-se a bissexualidade – ou, antes, o comportamento bissexual – como uma “moda”. Essa pecha de “modinha” prejudica tanto bis como homos, mas como falei antes, a experimentação faz parte da adolescência e o melhor a fazer é aprender a lidar com isso. Se a cultura atual cria um clima favorável à experimentação, melhor – acredito que os adolescentes que experimentam hoje são os adultos bem-resolvidos do futuro.

Preconceito duplo

Por parte dos heterossexuais, os bissexuais sofrem os mesmos preconceitos que os LGT. Assim como ocorre com estes, a bissexualidade desafia a heteronormatividade, por conceber atração sexual e afetiva fora da relação com pessoa do sexo oposto. No caso das mulheres, frequentemente a sexualidade bi é aceita e a afetividade não: ao mesmo tempo que existe um fetiche masculino que fantasia com duas mulheres na cama e estimula a mulher a experimentar, uma bissexual que assumir um relacionamento afetivo com outra mulher passa pelo mesmo preconceito enfrentado pelas lésbicas. Essa questão do fetiche masculino evidencia a influência da pornografia na aceitação ou não das bissexualidades. Clarissa Carvalho, bissexual assumida, escreve:

Pode-se transar com uma amiga para excitar o namorado, mas não se pode apaixonar-se por ela. E aí, eu pergunto onde está a tal da “aceitação”? O mais interessante é que a noção de gênero está muito presente nessa forjada e hipócrita “aceitação”. Pois nas fantasias heterossexuais raramente há aceitação de homens bissexuais. (…) Muito difícil é ver relações sexuais entre homens em filmes direcionados a pessoas heterossexuais. Se homem transou com homem, acabou: é gay. Se mulher transou com mulher: obviamente ela só está excitando o expectador/a.

Ou seja: a existência desse fetiche estimula a experimentação por parte da mulher, o que leva a uma aceitação maior de sua bissexualidade, ao menos no que se refere ao sexo (conduzindo, contudo, a outra encruzilhada: quem disse que, por gostar também de mulheres, uma bissexual deve necessariamente querer participar de um ménage à trois?). Quanto aos homens, a mentalidade binária ainda se faz muito presente, e o sexismo determina que existe o macho, e o que foge disso é automaticamente classificado como gay. Isso explica por que o rótulo de “homo enrustido” é aplicado com mais frequência aos homens bissexuais.

Da parte dos homossexuais, os bis são discriminados através do descrédito, como já exposto, e pela ideia de que ao assumirem uma relação heterossexual, socialmente aceita, estariam procurando um meio de fugir da discriminação. Ainda do texto de Clarissa Carvalho:

Quem diz que ser bi é mais aceito é porque não entende o que é ser bi. A questão aqui não é se eu não sou discriminada quando estou com um homem, a questão é entender como que o meu desejo funciona. E te digo, meu desejo não é heterossexual de dia no restaurante com a família e homossexual à noite na boate “GLS”.

Associação entre bissexualidade e promiscuidade

Partindo de uma “normalidade” heterossexual, só é possível compreender as outras sexualidades através do que as diferencia, ou seja, do comportamento sexual. Assim, a explicação da identidade sexual através do desejo leva a uma associação entre sexualidade e sexo, criando uma visão dos não heterossexuais como indivíduos hipersexualizados. Quando a atração ocorre pelos dois sexos, o estigma da promiscuidade se torna maior, e esse é provavelmente um dos principais traços da bifobia.

Assim, é necessário questionar a máxima de que “para bissexuais, todo mundo é um amante em potencial”. Seria a mesma coisa que dizer “para uma mulher hétero, todo homem é um amante em potencial”. Amantes em potencial são definidos pelos gostos e histórias próprias de cada pessoa, e não pela identidade sexual a que ela se atribuiu.

Essa associação da bissexualidade ao comportamento promíscuo leva também a outro equívoco, aquele que diz que “bissexuais nunca estão satisfeitos com o parceiro”, que “sempre lhes falta alguma coisa” e que, em virtude disso, eles traem ou abandonam o parceiro com mais facilidade. Em qualquer relacionamento, seja hétero ou homo, existem pessoas diferentes do parceiro, e invariavelmente haverá alguma atração por outras pessoas, quer se admita ou não. Uma tara por loiros não vai fazer ninguém trair o namorado negro, certo? No caso dos bissexuais, o desconforto em lidar com um parceiro que se admita atraído por pessoas de ambos os sexos, motivado em parte por insegurança e em parte por preconceito, pode acabar sepultando relacionamentos que tinham tudo para dar certo.

O futuro é bissexual

Antes da invenção do termo “bissexualidade”, o que se via nesses indivíduos eram “heterossexuais predominantes com tendências homossexuais”. Hoje, falamos em L, G, B e T, mas as identidades sexuais passam por uma pulverização cada vez maior, incluindo até a possibilidade de não ostentar nenhum rótulo. Isso se torna cada vez mais frequente (e, dizem alguns, essa é a tendência para o futuro) entre pessoas que, ainda que se relacionem mais frequentemente com um ou outro sexo, eventualmente sentem desejo por indivíduos do outro e não veem problema nisso, sem necessariamente assumir uma identidade bissexual.

Existem sim o bissexual da modinha, o bissexual que na verdade é homo enrustido, o bissexual do fetiche. Mas existe também o bissexual adulto, esclarecido, sem preconceitos na hora de se apaixonar e de se relacionar sexualmente. A luta dos LGBTs é, antes de tudo, uma luta contra a heteronormatividade, e não pode se restringir à defesa de uma ou outra identidade. Antes disso, nosso objetivo deve ser a defesa de toda sexualidade sadia, que se manifeste consensualmente entre adultos, sem julgar motivos ou tentar decidir se o desejo do outro é verdadeiro ou não.

(Post escrito com apoio e pesquisa – tão grandes quanto o texto – do Pedro.)


Destaque da Semana: Hélio dos Anjos

20 de setembro de 2009

Repercutiu essa semana na mídia LGBT: o técnico do Goiás, Hélio dos Santos, ao tentar esclarecer uma situação interna do time, acabou destilando preconceito.

Ficam pedindo um jogador expoente. Aí quando vem, começam a criticar. O Fernando sei lá o quê, que o grupo está com ciúme. Homem que tem ciúme do outro é viadagem. Não trabalho com homossexual, não tenho viado no meu elenco. Eu trabalho com homem. (…) O que entendo de inveja de homem para homem é frescuragem, viadagem. Você, como homem, ter picuinha com um colega? Isso é frescuragem.

E a história não termina aqui. Do Mix Brasil:

Talvez tomando consciência do absurdo que havia dito, nesta quinta, 17, Hélio tentou jogar panos quentes na polêmica. Em entrevista à ESPN, o técnico disse que “se existe ciúme no grupo, existe a frescuragem, mas isso não quer dizer que o cara seja homossexual.” O comandante tentou sair pela tangente e disse que escalaria um jogador gay para seu time: “Não tem problema nenhum, tem que ser profissional”.

O problema de Hélio dos Anjos, segundo ele mesmo, não é com homossexual, mas sim com homem fresco. Mas é óbvio que a associação de um com outro, feita espontaneamente no primeiro comentário, é totalmente compreensível, não? Afinal, o futebol não conta com uma infinidade de fãs homossexuais, homens ou mulheres, e não tem um monte de jogadores no armário. Afinal, homossexual não é gente comum que está por aí. Não. E afinal, o futebol é um esporte viril e varonil, não homossexual.

(Ponto pro comentarista de futebol Neto, que também criticou o técnico. É muito importante que as os fãs e comentaristas de futebol com um pouco de bom senso tentem lutar contra o preconceito dentro da cultura futebolística.)


Bi-bi-bi-bi

18 de setembro de 2009

A tradução dessa semana é de um artigo da revista mexicana The Beef, que propõe um novo modelo de revista para homens gays. Esteticamente, a revista é bem interessante, com fotos conceituais mostrando corpos comuns de homem, não o padrão musculoso da maioria dos nus. A publicação é vinculada ao projeto Pride is Dead, que defende

Um novo ativismo, mas em que o significado do prefixo é o mesmo que teria o anti-herói da ficção contemporânea: chegar aos mesmos fins de maneiras pouco ou nada ortodoxas. Não queremos paradas. Nos recusamos a ser rotulados. Não queremos estar na mídia para induzir os outros ao erro de seguir o lado corporativo da mídia, e agir como se essa fosse a única verdade.

A revista com o artigo original pode ser visualizada online ou salva em formato PDF, e a tradução foi feita pela Mota. A dica original do Pride is Dead foi postada no HJE.

A visualização online permite ver a diagramação original do artigo na revista

A visualização online permite ver como o artigo fica na revista

Bi-bi-bi-bi
por Michael Me

Meu amigo David quer fazer camisetas que digam: “Discriminação – Como o sexo, os bissexuais a recebem de todos os lados”. E assim é. Muitos gays acreditam que bissexuais são pesssoas que não tem coragem de se identificar como homossexuais, já os heterossexuais acham que somos mais depravados que os gays por fazermos sexo com homens e mulheres. E para mim, viver com estas tensões nunca tornou minha sexualidade simples, básica ou de fácil determinação. Porém, é algo que expresso em meu trabalho como artista plástico há muito tempo, mesmo que às vezes eu não perceba.

Desde pequeno me senti atraído por mulheres, não só fisicamente, mas também por seus modos de ser e pensar. Sempre preferi brincar com elas, falar com elas, e tê-las como amigas. Estava na segunda série quando pela primeira vez me senti atraído por uma mulher, em parte por que sou um homem muito sensível e tinha uma ligação sentimental com ela, mas agora vejo, que o fato de ser bissexual também me conecta ao lado feminino.

Nunca entendi porque a sociedade olha para a sexualidade não-heterossexual como algo de ruim. Somos todos humanos, diferentes, é claro, mas iguais em nossa humanidade. Durante esse tempo não me senti atraído por homens, e não me identificava como gay/bissexual, mas me deixava muito triste ir à missa todo domingo e escutar a vida homossexual sendo retratada como doentia.

Fiquei cansado/doente da hipocrisia dessas mesmas vozes que cantava “Glória a Deus”, que falavam do amor ao próximo e depois diziam que Deus criou todos nós, mas que alguns de nós são lixo. Me dói da mesma maneira quando vejo filmes antigos da escravidão nos Estados Unidos. Não sou afro-descendente, mas me entristece conceber que meus país tenha permitido algo assim.

Não pensava muito em minha sexualidade e nem a entendia, até que na universidade me apaixonei por uma mulher bissexual. Ficamos juntos por muitos anos e agora ela é minha melhor amiga. Ela colaborou muito com meu autoconhecimento e desenvolvimento como artista, como por exemplo, quando anos mais tarde me relacionei com meu primeiro homem.

Me conheci muito – e, como sempre nos conhecemos melhor por olhos externos (mais pelos relacionamentos amorosos) – pela dualidade de minha sexualidade tive a oportunidade de conhecer duas pessoas tão diferentes. Algo que eu não entendia e temia tanto, ser bissexual, abriu mais possibilidades em minha vida. E sou grato por esta experiência.

Aprecio tudo que passei, tive tempos de incertezas e dificuldades, mas realmente conheci os dois lados: e com sinceridade. Dividir a cama com alguém, gargalhar acompanhado ou chorar na rua após ter um coração partido. Todos os momentos são reais e significativos, independentemente se passados com um homem ou uma mulher.

Mesmo que às vezes minhas ações traiam meu pensamento, acredito de coração que sou um ativista. Mesmo que eu lute sutilmente para opinar por meio de minha arte, se existe alguma injustiça social, me sinto triste e um pouco culpado pelos atos de meus próprios irmãos. Como artista mesmo que não pinte autorretratos, tudo que faço se torna um autorretrato. Detalhes de nossas vidas são refletidos em tudo que criamos. Desta maneira, embora eu não fale diretamente sobre minha sexualidade, ela está por todos os lados.


Criminalização da homofobia e a “mordaça”: o que o PLC 122/2006 realmente prevê

17 de setembro de 2009

Confesso que minha intenção principal, quando comecei a escrever esse artigo há muito tempo, era abordar com mais profundidade o argumento falacioso de que o PLC 122/2006, que criminaliza a homofobia, seria uma ameaça à liberdade de expressão caso aprovado. Meses se passaram e o tema continua atual: recentemente, um conselho evangélico presidido pelo Pastor Silas Malafaia entrou com ação contra uma lei paulista que proibia a discriminação homofóbica, felizmente arquivada pelo STF, utilizando a justificativa de que essa era uma “lei da mordaça”.

No entanto, a pesquisa que realizei para recolher alguns argumentos contrários ao projeto encontrou argumentos tão controversos que resolvi ampliar a proposta, e criar um FAQ dessa lei para os religiosos, contemplando contra-argumentos que ficaram de fora do FAQ realizado pelo Não Homofobia.

O que o PLC 122/2006 prevê, afinal?

Caso o projeto seja aprovado, ficam proibidos:

Incitação ao preconceito

Impedimento de ingresso em estabelecimentos

Limitação a processo seletivo

Impedimento a manifestações de afetividade

Restrições em relações de trabalho

Demissão motivada por homofobia

Para aprofundamento do significado dessas proibições, recomendo a leitura dessa notícia na Agência Senado. Esse texto é interessante também para entender por que a relatora do projeto, senadora Fátima Cleide (PT-RO), está elaborando um substitutivo ao projeto original, de autoria da senadora Iara Bernardi.

Os argumentos para repelir a aprovação da matéria são diversos. Os mais apelativos podem evocar tanto a legalização da pedofilia quanto a absurda possibilidade de uso do projeto para salvar o mandato de José Sarney (PMDB-AP) como presidente do Senado. Em meio a esses disparates, encontrei manifestações de pessoas comuns, a maioria religiosas. Algumas dessas opiniões são bastante agressivas, outras apenas demonstram uma preocupação, ainda que exagerada, com o impacto que a lei poderá causar em suas vidas. Em resposta a essas opiniões, exponho o que o PLC 122/2006 não prevê.

Ameaça à liberdade de expressão

O argumento de que a criminalização da homofobia seria um ataque à liberdade religiosa e de expressão é um dos mais utilizados pela bancada evangélica no Congresso para impedir a aprovação do PLC 122/2006. Colo aqui um trecho de um comentário do Reverendo Márcio Retamero, que, a meu ver, sintetiza bem o quão imprecisa é essa noção.

Liberdade de expressão, numa democracia, não é sair por aí dizendo o que tem na cabeça a respeito de tudo e todos; ao contrário, numa democracia de fato, a liberdade de expressão é seguida da responsabilidade social. Aliás, é limitada por ela! (…) Liberdade de expressão não permite que um cidadão humilhe outro, o constranja, o intimide, fira a consciência alheia, o exponha ao vexame ou incite, pelo discurso, preconceito, ódio, exclusão, discriminação ou qualquer coisa que se parece com isso.

A liberdade de expressão religiosa também não é ameaçada. É importante ressaltar a diferença entre direitos laicos, definidos pelo Estado, e religiosos. Por exemplo: a Constituição brasileira determina que “todos são iguais perante a lei”, e que “homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações”. No entanto, as igrejas conrtinuam livres para não ordenar mulheres como sacerdotes. Com a aprovação do PLC 122/2006, nada determina que relações entre pessoas do mesmo sexo deixem de ser consideradas “pecado” por uma ou outra religião. A lei terrena não tem poderes espirituais, certo? (E completo: a recíproca deveria ser verdadeira com mais frequência, também.) O que não será admitido é que qualquer pessoa ou instituição, incluindo aí os religiosos, cometa qualquer um dos atos discriminatórios listados acima em virtude da orientação sexual ou identidade de gênero de alguém.

Homossexuais tornam-se pessoas superprotegidas pela lei

Encontrei muitas ocorrências dessa ideia, que sustenta que a criação de uma legislação específica para defender os não heterossexuais levaria à criação de uma “superclasse” de cidadãos, com privilégios a que a maioria da população não teria acesso. Esse argumento, contudo, é inconsistente, já que o PLC 122/2006 não protege exclusivamente os LGBTs (na realidade, o projeto prevê a inclusão da homofobia e outras formas de discriminação – incluindo a religiosa! – na lei 7.716/1989, que define os crimes de racismo). Sustentar que os homossexuais pretendem tornar-se uma “minoria privilegiada” é uma manobra mal-intencionada, que tenta ocultar o fato de que esse segmento da população, na realidade, tem menos direitos legalmente estabelecidos que a maioria dos cidadãos.

Funcionários gays não poderão ser demitidos

A lógica por trás dessa afirmação é a mesma que sustenta o argumento anterior. Há quem defenda que a aprovação do PLC 122/2006 tornaria impossível a demissão de homossexuais, pois um funcionário demitido “poderia alegar” razões homofóbicas e processar a empresa por isso. Ora, se o chefe tinha motivos razoáveis para essa decisão, certamente ele terá provas e testemunhas que comprovem sua versão. Além disso, como em qualquer outro processo trabalhista, não basta “alegar” homofobia para condenar um réu. É preciso ter um mínimo de fundamentação para dar seguimento à causa, e a lei fornece apoio legal somente a quem realmente sofrer preconceito (e, ao contrário do que muita gente pensa, demissões motivadas pela orientação sexual acontecem sim). Ou seja: a não ser que a empresa tenha de fato atitudes discriminatórias em relação aos seus funcionários LGBTs, não existe a tal impossibilidade de se demitir um profissional somente porque ele é gay. Vale o ditado: quem não deve, não teme.

Dissolução da família e legalização da pedofilia

Só é possível culpar os LGBTs por uma suposta “dissolução da família” se ignorarmos todas as mudanças que a família tem sofrido nos últimos tempos. Os casais têm menos filhos; a sociedade passou de um modelo em que a família incluía toda a parentada para uma concepção mais intimista, a “família nuclear”; há uma divisão maior de responsabilidades pela educação dos rebentos; e estão sendo reconhecidas famílias “diferentes”, com as crianças sob a tutela de tios ou avós ou mesmo com mães solteiras. Um outro fato, a meu ver central nessa questão, é que o reconhecimento de uma união entre duas pessoas do mesmo sexo não ameaça as outras, constituídas entre pessoas de sexos diferentes. Leis defendendo os LGBT interferem somente na vida dessa população, que passará a se sentir mais segura, não gerando nenhum efeito negativo na vida dos heterossexuais.

O PLC 122/2006 não menciona pedofilia em nenhum momento. Religiosos associam pedofilia e homossexualidade por considerar ambas manifestações “desviantes de uma sexualidade natural”, embora uma coisa não tenha nada a ver com a outra (o que é sustentado inclusive por campanhas contra a erotização das crianças). Assim como ocorre com os héteros, relacionamentos entre LGBTs envolvem consenso na maioria dos casos (se não, é caso de violência e a lei de crimes sexuais vale para todos). Sexo é tabu, e a pedofilia é provavelmente a prática sexual mais condenada de todas, servindo muito bem para desviar o foco de qualquer debate . Não é à toa que ela é invocada até para restringir a liberdade na Internet.

Nada vai impedir que um professor homossexual ensine meus filhos

Recentemente, uma discussão virtual entre a escritora lésbica Lúcia Facco e um blogueiro evangélico trouxe novamente à tona a questão da homossexualidade na educação. Se o PLC 122/2006 for aprovado, realmente, nada vai impedir que LGBTs deem aula em qualquer colégio. Afinal, ser professor é um trabalho como qualquer outro e os empregadores não poderão deixar de contratar quem quer que seja em razão de sua orientação sexual ou identidade de gênero.

O que não vai acontecer é os professores ensinarem os alunos a “se tornarem homossexuais” (até porque isso não existe). A mera convivência com um LGBT não “influencia” a orientação sexual de ninguém (ou a homossexualidade seria impossível, já que somos na maioria filhos de heterossexuais e vivemos em uma sociedade 90% hétero). O que pode acontecer – e esperamos que aconteça – é que esses e outros professores ofereçam uma educação mais inclusiva, preparando as crianças para lidar com as diferenças. Isso se revela ainda mais importante ao lembrarmos que o preconceito é um dos grandes responsáveis pela evasão escolar. No estado do Rio de Janeiro, por exemplo, a homofobia  faz com que 20% dos jovens LGBT abandonem a escola.

Comportamentos impróprios em público não poderão ser coibidos

O que é considerado “impróprio”? Se for beijar um trans ou uma pessoa do mesmo sexo, bem, realmente isso não poderá ser impedido, o que é ótimo. Todos devem ter direito a manifestações de afeto. Nas grandes cidades, isso não será novidade: muitas capitais já preveem multas para estabelecimentos que discriminarem seus frequentadores em razão de sua orientação sexual, identidade de gênero, raça, religião…

Um dos argumentos que encontrei nessa linha contra o projeto é o de que um casal heterossexual pode ser repreendido se estiver, digamos assim, se excedendo nas manifestações de carinho em público, e que o PLC 122 tornaria impossível fazer o mesmo com um casal gay. Repito o que já disse no tópico “superproteção”: o projeto proíbe discriminações que hoje são comuns, não cria direitos novos. Atos que seriam considerados explícitos demais se cometidos por um casal hétero sofrerão as mesmas penas se seus praticantes forem do mesmo sexo. Ao definir ultraje ao pudor, o Código Penal não discrimina sexo nem orientação sexual: “Art. 233 – Praticar ato obsceno em lugar público, ou aberto ou exposto ao público: Pena – detenção, de três meses a um ano, ou multa.”

Glorificação da homossexualidade

Esse é só mais um equívoco. Publicada a lei, não serão emitidos anúncios governamentais dizendo que é ótimo ser gay (embora isso pudesse trazer benefícios àqueles que sofrem de homofobia internalizada). Não queremos que as sexualidades LGBT sejam idealizadas ou estimuladas. Só buscamos respeito. Longe de pretender que as sexualidades “diferentes” levem os LGBT a ocupar um espaço privilegiado na sociedade, o PLC 122/2006 busca apenas garantir que essas diferenças não sejam fonte de discriminação negativa.


Entrevista: Michael Eichler, do The New Gay

16 de setembro de 2009

Não é a primeira nem será a última vez que The New Gay vai aparecer aqui no Homomento, pelo simples motivo de que muitas das idéias dos dois blogs são bastante alinhadas. Eu e a Carol tivemos a oportunidade de entrevistar um dos co-fundadores do site, Michael Eichler, que simpática e articuladamente respondeu nossas perguntas. Vale a pena ler a tradução da entrevista (uma versão em inglês foi publicada no The New Gay), que segue na íntegra:

Michael, antes de qualquer coisa, por favor apresente-se brevemente.
Bom, eu sou Michael Eichler (a pronúncia é “ike-ler”), tenho 36 anos e trabalho numa planejadora de transportações. Eu também sou co-fundador do The New Gay, que é uma fonte online para idéias, culturas e eventos relacionados à comunidade LGBT.

Os sites LGBT normalmente são cheios de fotos de homens nus ou notícias de fofoca. Nós temos, porém, ótimos exemplos de bom trabalho como o Box Turtle Bulletin. No cenário dessa mídia específica, como você descreveria o The New Gay?
Nós somos um blog/publicação online abrangente, feito por pessoas comuns, que quer ver mais assuntos na mídia LGBT. Se você mostrar fotos de torsos nus, ignora metade dos homossexuais (se pensarmos que a divisão de gênero é 50% masculina e 50% feminina). Nós tentamos achar um tema em comum para todos os LGBT que vai além da conexão básica de todos nós: o sexo. Exploramos maneiras singulares e diversificadas de ser homossexual, dando oportunidades para as pessoas explorarem seus interesses genuínos ao invés de gostarem das mesmas coisas que todo mundo só para serem aceitas.

Outro co-fundador do TNG, o Ben, define o site como “um movimento inclusivo de indivíduos atraídos pelo mesmo sexo que se recusam a ser definidos pelo passado e lutam para expandir as barreiras do futuro”. De fato, como você disse, muitos dos artigos do site falam sobre como é importante que essas pessoas parem de se estereotipar, e o quão diferentes os LGBT podem ser entre si. Em dois anos de trabalho e reflexões sobre essa temática, o que você aprendeu? O que mudou e o que permaneceu, entre as suas opiniões?
Durante esses últimos dois anos, uma coisa que eu aprendi foi a necessidade de incluirmos todas as minorias sexuais. A parte mais complicada é o fato de que os transexuais normalmente não se expõem e é muito difícil sempre fazer e falar as coisas certas para ser inclusivo com os trans. Como gays e lésbicas, como pessoas que “amam pessoas do mesmo sexo”, nós não conhecemos bem as dificuldades enfrentadas pelos trans e isso não faz parte da nossa forma de pensar, normalmente voltada para autopreservação. Nós, todos os queers, precisamos aprender mais uns sobre os outros e descobrir similaridades. Acho que o trabalho do TNG começou com a exploração das diferenças maravilhosas entre os LGBT, mas agora é o momento para nos unirmos e caminharmos como “um só povo” apesar de todas essas diferenças.

Já que você falou em trans: recentemente vocês participaram de um protesto relacionado à morte de uma transexual em Washington DC. Além desse tipo de manifestação, como nós podemos lutar contra a homofobia no “mundo real”? Nós lemos recentemente um artigo da Jean no TNG sobre o “ativismo gay 2.0” que nos lembra sobre os riscos de nos limitarmos à web.
Eu não participei pessoalmente daquela vigília, mas ajudei a divulgá-la e nós mandamos o nosso fotógrafo. De qualquer forma, eu acho que a melhor maneira de lutarmos contra a homofobia no mundo real é alcançando a visibilidade. Há grandes chances de que cada homofóbico tenha no mínimo um parente ou amigo que seja gay. Se essas pessoas puderem se pronunciar, se assumir e se fazer visíveis, causando uma impressão positiva junto aos que são potenciais perpetuadores da violência contra os LGBT, veremos esse potencial reduzido.
Nós precisamos ser vistos como pessoas, crianças, pais, colegas, amigos, vizinhos, membros da comunidade. Acredito que até nós verem como tal, e não como “o outro”, teremos a violência e a homofobia sempre muito próximas de nós.

Você disse que “se você mostrar fotos de torsos nus, ignora metade dos homossexuais”. Aqui no Brasil, muitos dos sites auto-intitulados “LGBT” são dirigidos aos homens gays, com fotos homens seminus e etc. Há também alguns dirigidos a lésbicas, mas nada que possamos chamar de “neutros” em relação ao gênero para LGBTs.
Exatamente. Esse é um grande problema.

A mídia LGBT norte-americana é muito mais sofisticada que a nossa nesse aspecto. Quanto tempo você acha que ela demorou para se desenvolver dessa maneira? Ou: o que nós, brasileiros, poderíamos fazer para obter algo semelhante?
Ah, espera aí. Nós somos um dos poucos sites que eu conheço que têm a intenção de abranger todos os gêneros e sexualidades. Outros blogs temáticos como Towerload.com ou Queerty.com, ou ainda os “after” (AfterEllen, AfterElton), são voltados para apenas um gênero. Não há unidade. Os jornais LGBT como o Washington Blade estão muito comprometidos com seus anunciantes, que vêem os homens gays apenas como consumidores, e seu conteúdo (não noticioso) não faz muita coisa para desmentir esse fato.

Esse é um problema de qualquer publicação: lidar com seu público E com seus anunciantes. Na sua opinião, o quão grande é a influência dos anunciantes na mídia LGBT? Você acha que a relação entre veículos e anunciantes impede-a de pensar e falar sobre assuntos que realmente importam?
É enorme, e sim, eu acho. Muitas publicações dependem demais dos anunciantes e sofrem por isso. Ouvi rumores de matérias que não saíram por motivos como “já publicamos um artigo lésbico na semana passada”. Essas mídias dificilmente são justas e imparciais. Zack, o outro co-fundador do TNG, trabalhava para o Blade, então ele pode falar mais sobre isso. Mas eu não me identifico com qualquer um desses anúncios voltados para os LGBT (na verdade, especificamente para os homens gays e brancos) e eu mesmo sou um homem gay e branco. Imagine como os membros da comunidade LGBT que não são homens ou brancos não se sentem olhando para esses anúncios?

Sim, e acho que isso também impede que algumas pessoas consumam a “mídia gay”. Aqui no Brasil, na mídia impressa, nós só temos revistas dirigidas ao público masculino. Não consigo ver nenhuma razão para uma lésbica comprar alguma delas. Dessa maneira, muitas pessoas dentro da nossa comunidade estão excluídas da nossa própria mídia! Mas seguindo adiante: Zack disse, no artigo “The Beginning of Gay Culture”, que seria bom para os LGBTs recriarem o mundo heterossexual numa versão menor, só para eles. Acho que ele quis dizer que nós deveríamos criar espaços onde pudéssemos conviver apenas com LGBTs parecidos conosco, enquanto lutamos da nossa maneira contra a homofobia. Mas você não acha que deveríamos estar lá fora lutando para fazer do mundo um lugar melhor para todo mundo? Será que não podemos ficar confortáveis nos lugares que já frequentamos? Nós realmente precisamos criar todo um mundo novo (e GAY)?
Zack está falando sobre criarmos espaços sociais que expressem a diversidade da comunidade LGBT. E eu concordo. Nós precisamos de diversidade em nossos espaços sociais. De outra maneira, qualquer um que não se encaixe no “molde gay” vai se sentir rejeitado e não pertencer a comunidade nenhuma. Ao invés disso, nós precisamos achar uns aos outros no mundo real e nos conectarmos. Esses pequenos grupos e conexões podem se tornar a base para uma unidade maior. Se tudo o que temos é o mainstream e um monte de indivíduos que não se identificam com ele, nós nunca acharemos uma base comum. Nós ainda temos muito trabalho a fazer para nos organizarmos internamente antes de realmente encontrarmos a força para marcar presença fora de nossa comunidade. Isso não significa que nós não possamos começar pressionando a sociedade por aceitação, mas nós só teremos o poder necessário para tal se nos organizarmos internamente primeiro.
Imagine lutar numa guerra onde 20% dos nossos soldados são membros de uma tropa e os outros 80% não têm lealdade ao sargento, agindo por conta própria. Não funcionaria.

Agora entendi o seu ponto, e acho que o exemplo das tropas ilustra muito bem essa ideia. Uma das lutas internas do movimento LGBT que podemos destacar é aquela pela aceitação nas instituições militares, já que alguns dos ativistas mais radicais não vêem sentido em lutar contra o Don’t Ask, Don’t Tell (DADT).
Exato, eles preferem acabar com os militares a lutar contra eles. E, na verdade, gostam de não poderem ser chamados para o serviço. Pessoalmente, eu não concordo com o militarismo de maneira geral e não lutaria pelo fim da DADT, mas apoio essa luta e todos os nossos soldados gays aí fora. Mas um caso que ilustra ainda melhor a necessidade de união nos EUA é a questão do Ato pela Não-Discriminação no Emprego (ENDA, na sigla em inglês), em que a organização Human Rights Campaign recomendou um pacote de leis contra discriminação que exclui os transgêneros. Como uma coisa dessas pode ser possível em 2009?

Então você acha que devemos viver de acordo com nossos valores, gostos e interesses, como propõe Zack, e nos unirmos apenas por nossos direitos e para lutarmos contra a discriminação?
Nós LGBTs não temos uma cultura inerente. Não temos uma força unificadora. Nós não nascemos numa população LGBT – temos que construir nossa própria cultura, e a cultura que atualmente ocupa esse espaço não abrange todos nós. Num post anterior, Finding Unity in Community, eu disse que, como nós não nascemos na nossa comunidade, temos que procurá-la. E nada na nossa cultura encoraja a entender a nossa própria história e a similaridade que temos com outros LGBTs. Espere, por exemplo, que nos reunamos em torno da Madonna. Isso nunca vai acontecer. O que mais temos em comum? O que eu tenho em comum com a Shunda K, do Yo Majesty, além de uma mesma orientação sexual?

Vocês também têm um monte de posts sobre música indie, chega a ser comum que as pessoas pensem que o TNG é um blog hipster. Será que não é perigoso se definir como um “movimento inclusivo” e falar só sobre músicas que vocês gostam ao mesmo tempo? Vocês não temem que leitores LGBT que não sejam hipsters acabem se afastando do site de vocês por causa das discussões sobre música?
Desde o início, convidamos todas as pessoas possíveis para que usassem o Tng como uma plataforma para compartilhar suas ideias e interesses, encorajando diferentes perspectivas sobre cada assunto, e dando destaque a todos os tipos de cultura que existem – filmes, literatura, teatro, etc. Não vamos deixar de escrever sobre o que nós (os fundadores) gostamos porque até agora ninguém mais se habilitou a contribuir com outras perspectivas sobre outros tipos de cultura. Estamos disponibilizando opiniões de LGBTs descrevendo um monte de coisas que não são gays, e esse conjunto de coisas não-gays definitivamente poderia ser maior. Nós adoraríamos que pessoas se juntassem a nós e começassem a escrever sobre música clássica, por exemplo. Mas nós (a equipe atual) não podemos fazer isso, porque não é a nossa praia. Nosso cofundador Ben ama hip hop e até escreveria sobre isso de vez em quando, mas ele não estava interessado em escrever sobre música. Na verdade, estávamos hesitantes quanto a adicionar mais um colunista sobre música, porque ele queria trazer mais indie rock. No fim das contas, ele é uma pessoa LGBT que quer escrever sobre música. É exatamente o que queríamos, ainda que não seja um novo gênero.

Michael, muito obrigado pela entrevista. Continue com o trabalho bom (e original) do TNG. E só uma pergunta final: como podemos lutar contra os preconceitos que nossa “cultura gay mainstream” ainda evoca, e construir nossa própria cultura?
Seja você mesmo, seja um indivíduo, seja visível, se expresse. É tudo que posso dizer. Ah, e não seja um imbecil.


Machos Gaudérios

15 de setembro de 2009

Na Semana Farroupilha, comemorada anualmente com tanto gosto aqui em Porto Alegre, eu sempre me lembro do Capitão Gay. José Cattaneo é um advogado pelotense que em 20 de Setembro de 2002 adentrou a parada regionalista montado numa égua, vestido em trajes típicos, segurando uma bandeira do arco-íris e bradando que aquela era “a verdadeira bandeira da revolução”. É claro que ele não saiu ileso da (insana, eu diria) atitude: apanhou de relho da gauchada.

Como não poderia deixar de ser, a desembargadora Maria Berenice Dias se pronunciou a respeito: “Por que não pode existir um gaúcho gay de bombachas? Isso não agride ninguém”. Pois agride sim: agride a cabeça fechada, a noção mal-resolvida e mal-pensada de sexualidade. Toca na ferida do gaúcho, que de tanto se pronunciar macho, virou chacota do resto do país como típico homossexual enrustido.

A Intolerante Parada do Orgulho Gaúcho

A Intolerante Parada do Orgulho Gaúcho

Foi a partir dessa percepção, advinda da mesma declaração da desembargadora, que Mário Maestri escreveu em 2006 um artigo chamado “O Gaúcho era Gay?”. Maestri toma o Relatório Kinsey, de 1949, que afirma que de 4 a 15% da população masculina seria homossexual, e aplica essa noção ao período de ouro da história do sul do Brasil: a primeira metade do século XIX. Com alguma base documental, mostra o quão grandes são as possibilidades de alguns dos protagonistas dos Farrapos serem homossexuais, e de mesmo os heterossexuais, ao viverem longos períodos entre homens, aderirem eventualmente às práticas sexuais exclusivamente masculinas. Faz uma comparação com os personagens do filme Brokeback Mountain, hipotetizando que provavelmente os gaúchos gays do século retrasado tivessem de reprimir suas aspirações, forjando um encaixe espontâneo nos moldes de comportamento do macho gaúcho.

A intenção de questionar o caráter histórico da masculinidade sulista é boa, mas Maestri não o faz de maneira apropriada. O anacronismo aqui não está principalmente em aplicar o Relatório Kinsey ao século XIX, mas ao tentar aplicar as noções de sexualidade a esse contexto. É sabido que ambas, tanto a homo quando a heterossexualidade, como conceitos, surgiram apenas para além de 1850: antes disso mesmo que um sujeito, através da experiência própria, estivesse apto a compreender que sente mais prazer com homens do que com mulheres, não se rotularia com uma identidade sexual.

Em suma, o historiador trabalha baseado na idéia de que “existiram gays em todas as épocas e contextos”, mas comete uma indelicadeza do ofício ao não considerar especifidades das mentalidades do passado. Por partir dessa premissa errônea, perde de praxe o único caminho viável de se questionar por quê a heterossexualidade tem que ser intrínseca ao gaúcho tradicional: o fato de que a heterossexualidade ainda não existia na época da Revoução Farroupilha.

Símbolo de heroísmo e coragem = símbolo de heterossexualidade?

Símbolo de heroísmo e coragem = símbolo de heterossexualidade?

Cássio Menezes, do CMI Brasil, aponta muito bem o caráter das comemorações do 20 de Setembro: “sua concepção histórica centra-se no idílico e estrutura-se no campo ideológico. Desta forma o mítico é ressaltado, o incoveniente – mas não de menor significado sócio-histórico – é escamoteado e deforma-se conteúdo do passado concreto sulino”. Dessa maneira, de nada interessa aos homens que nesse momento estão acampados no parque Maurício Sirotsky Sobrinho, em Porto Alegre, saber que macho, historicamente, não necessariamente quer dizer heterossexual, e que seus homenageados certamente encaravam as relações entre homens de uma maneira bem diferente.

Como estudante de História, não posso deixar de ansiar pelo dia em que algum historiador do Rio Grande do Sul aplique essas noções, tão corriqueiras para qualquer estudioso da sexualidade, ao contexto rio-grandense. É uma linha de pesquisa mais do que possível e que, bem realizada, ajudaria a desconstruir um dos tantos aspectos da memória inventada do Rio Grande do Sul.

* Em 2003, o acampamento do Capitão Gay, que insistiu em aparecer na semana dos Farrapos, foi apedrejado. Mesmo assim, o advogado não desistiu e em 2006 vestiu a estátua do Laçador com um poncho com as cores do arco-íris. Há boatos de que ele nem mesmo seja gay e quisesse só chamar atenção da mídia para sua candidatura a deputado; de qualquer forma, suas atitudes já geraram essa interessante discussão.

** Maria Berenice Dias, pra quem não conhece, foi uma das precursoras na luta pelos direitos LGBT no Brasil, levando o estado do Rio Grande do Sul à frente dos demais em muitas das questões jurídicas relativas a esse grupo. Essa sim, dá modelo à toda terra!