Dourado: o inimigo público dos gays?

30 de março de 2010

Esse ano resolvi quebrar uma tradição particular de oito anos e assistir ao Big Brother Brasil 10 (já tinha assistido ao primeiro). Alguns podem pensar que o fiz pela forte presença dos gays, mas confesso ter me posto frente à TV querendo me divertir, me propondo a não ficar analisando mídia ou sociedade.

Oito anos de abstinência me fizeram esquecer, no entanto, o quanto assistir ao Big Brother é por natureza uma experiência coletiva, que desperta involuntariamente o olhar crítico. Não só por conta da voz ativa do público na hora das eliminações, mas também pelos comentários das pessoas na rua, no supermercado, no trabalho, na faculdade. Percebendo que minha proposta inicial de só me divertir falharia, poderia ter parado de assistir ao programa, mas persisti. ‘Que mal tem?’, pensei. Estava, enfim, imerso na vivência do Big Brother e totalmente vulnerável à opinião alheia.

Meu primeiro stress veio quando um pesado julgamento moral caiu sobre a participante Tessália. Mesmo sabendo que sua impopularidade era anterior ao suposto boquete, fiquei chateado de ver como as pessoas no Brasil ainda têm dificuldade para lidar com assuntos sexuais. E de ver como a mulher só poder ser objeto sexual, nunca sujeito.

O segundo e definitivo stress veio com a discussão em torno do ex-atual BBB Marcelo Dourado. Suas pérolas de sabedoria – como “sou discriminado por ser heterossexual” e “homem hetero não pega AIDS” – indignaram Dicésar e o público gay, que evocavam com orgulho um termo: homofóbico. Torcedores dourados, no entanto, acusavam os homossexuais de paranóicos e exagerados.

Depois da acusação de Dicésar, o debate parece ter-se centrado na adjetivação do gaúcho: “afinal, ele É OU NÃO homofóbico?”. E foi senso comum pra todo lado, definindo que, “homofóbico é aquele indivíduo que tem nojo de gays, não pode nem chegar perto”, logo Dourado não o era por conviver com Dicésar e Serginho, logo realmente há uma paranóia gay em questão.

Ora, assim como ser homossexual, ser homofóbico não é uma sina para a qual o sujeito está predestinado. Dourado não É homofóbico de maneira definitiva, mas necessariamente FOI em alguns momentos. O que me irritou nessa história toda foi o fato de todos simplesmente ignorarem as atitudes do rapaz e se prenderem a uma discussão superficial de categorização. Enquanto fulaninha ou cicraninho eram rechaçados por fazer fofoca ou barraco, os gestos de Dourado eram totalmente ignorados – o que evidenciou uma total incapacidade, por parte do grande público, de perceber uma atitude preconceituosa.

Vejo hoje uma comunidade gay indignada com a perspectiva de vitória de Marcelo Dourado. Uma recente lista dos 10 maiores inimigos públicos dos homossexuais no Brasil menciona-o, junto a grande nomes homofóbicos tupiniquins como Magno Malta e Silas Malafaia. Veja bem: um BBB, junto a um senador e um líder religioso. Como se ele fosse um avatar da homofobia, que se espalhará pelo país caso o rapaz ganhe um milhão e meio de reais. Penso que mesmo se ele não ganhasse, essa luta já estaria perdida. O Brasil já provou sua indiferença para com o preconceito e não é a vitória de um ou outro integrante do Big Brother que vai reverter isso.

Depois de toda essa saga particular com o BBB, percebo que o inimigo não é um joão ninguém de comportamento tosco e previsível, que soma agora seus 30 minutos de fama e mais de um milhão de reais. É, sim, um senso comum que está cego para a homofobia, preso ao politicamente correto e incapaz de pensar no significado do preconceito para um indivíduo. Vamos voltar nossas forças contra ele, e não contra um participante de reality show.


Conquistar a naturalidade

2 de setembro de 2009

Na terça-feira passada o tema do Profissão Repórter foi “Tudo por um filho”: foram exibidas histórias de pais passando por momentos difíceis para garantir o bem estar seus filhos e a constituição de suas famílias. Uma delas era a de Munira e Adriana, casal de lésbicas que gerou gêmeos no útero de uma com os óvulos da outra inseminados artificialmente; o obstáculo surgiu na hora de registrar as crianças, que tiveram de ficar com o nome de apenas uma delas.

O clima de bastidores da reportagem do programa comandado por Caco Barcellos gerou uma cena que chamou minha atenção. A repórter, educada, indaga a maneira correta de se referir ao casal: “como vocês preferem que a gente fale? É ‘homossexual’ que se diz?”. A resposta é um sorriso da grávida Adriana e a frase “pra mim tanto faz, é tudo a mesma coisa”. Munira, a segunda mãe, complementa: “não sei, a gente nunca parou pra pensar muito”.

Essa simplicidade no modo de encarar as coisas me causou imediatamente certo desconforto. Munira e Adriana demonstram ser um casal muito feliz, de bem com a vida, estável a ponto de querer ter filhos. E, mesmo morando num país que a trancos e barrancos lida com as questões LGBT e estarem inseridas numa sociedade bastante homofóbica, não fazem a menor idéia de como se referir a homossexuais. Elas vivem a vida delas, enfrentando corajosamente as dificuldades que aparecem, mesmo sem dedicar muito tempo a esses assuntos.

A repórter perguntando: é homossexual que se diz? E a reação confusa do casal à pergunta

A repórter perguntando: é homossexual que se diz? E a reação confusa do casal à pergunta

Lembrei de todos os sites ativistas que acompanho, dos livros e artigos que leio sobre homossexualidade, do esforço que realizo para tocar o Homomento. Por mais que esteja, inegavelmente, adquirindo conhecimento, estou participando de uma luta contra o preconceito e não me dedicando a outros interesses particulares. E desde terça-feira fiquei com essa pulga atrás da orelha. Enquanto lia uma notícia de um portal ativista, sabia que aquelas duas estavam dando de mamar para os gêmeos, passeando com eles, trocando fraldas ou simplesmente fazendo o que gostam.

Como sábado foi Dia da Visibilidade Lésbica, no domingo pipocaram eventos relacionados Brasil afora. Fui dar uma olhada na Marcha Lésbica aqui de Porto Alegre e depois parei para lanchar com uns amigos. Uma amiga lésbica, que considero bastante preocupada com questões homossexuais, comentou que não dava nenhuma importância para manifestações como a Marcha. Um amigo, também homossexual, não conhecia o dia da Visibilidade e achou uma besteira segregativa: “porque não juntamos tudo no mesmo dia?”. Passamos a discutir as confusões das siglas GLS e LGBT e contradições dos movimentos gays no geral. Meu clima anti-ativista não poderia ter sido melhor alimentado.

Ativismo LGBT: perda de tempo?

Ativismo LGBT: perda de tempo?

Depois do passeio, fui com parte desse pessoal ao supermercado fazer compras para o jantar. Enquanto esperávamos os produtos serem registrados pela atendente do caixa, apoiei a cabeça no ombro do meu namorado. Um rapaz que estava passando por perto parou e começou a debochar em voz alta, olhando diretamente para nós. Não hesitei, respondendo no mesmo tom: que que é, nunca viu?

Aí pensei na Munira e na Adriana de novo, e entendi melhor meu desconforto em relação a elas. Não era uma vontade de ser mais simples ou uma nostalgia dos tempos pré-militância. Era a percepção de que eu, até poder lidar com a minha homossexualidade da mesma forma espontânea que elas a ponto de desafiar um imbecil desses no supermercado, precisei ler e me informar um monte. Todo esse conhecimento não me deixou baixar a cabeça e me sentir humilhado por demonstrar afeto pela pessoa que eu amo.

Assim, o ciclo de pensamentos desencadeado pela naturalidade do casal de mulheres se encerrou nesse domingo. Hoje entendo que a minha militância tem valor fundamental não só para o reconhecimento particular do MEU lugar na sociedade, mas também para que no futuro as pessoas sejam mais como a Munira e a Adriana e menos como eu, que precisei quebrar a cuca pra chegar à conclusão de que sou igual a todo mundo e que não devo levar desaforo pra casa.