Milk: 30 anos depois

28 de outubro de 2009

Eis um nome que fora do eixo norte-americano certamente não significava muito, ou mesmo nada, até o começo de 2009: Harvey Milk. A produção e posterior premiação do filme de Gus Van Sant foram responsáveis pela propagação da imagem e até iconização do ativista, ao menos no cenário LGBT.

Sean Penn no papel de Harvey Milk (2008)

Sean Penn no papel de Harvey Milk (2008)

Não foram só a interpretação de Sean Penn e a qualidade do roteiro, posteriormente premiados com Oscars, ou mesmo a temática da história, pouco contemplada em geral pelo cinema do mainstream, que impulsionaram a bilheteria do filme. Percebe-se a presença de um tino comercial para o lançamento de uma película como essa, no contexto em que foi lançada. Além de resgatar com esmero a figura política de Milk, ela também reproduz o cenário conservador em que Harvey viveu e militou – e que, notadamente, não se transfigurou tanto assim até hoje.

30 anos depois: a semelhança dos cenários

A 27 de novembro de 1978, Harvey Bernard Milk foi assassinado em San Francisco. 30 anos depois, a data escolhida para a estréia de sua biografia cinematográfica, a população dos Estados Unidos enfrentava uma situação política de avanços e retrocessos. Foi em novembro de 2008 que ocorreu a aprovação da Proposition 8 na Califórnia, tendo o apoio de 52,24% dos cidadãos votantes e representando um largo passo para trás na luta pelos direitos igualitários não só no estado como no país: cententas de casamentos entre pessoas do mesmo sexo foram anuladas, e um direito que recém havia sido concedido lhes foi novamente negado. Em novembro, também, os norte-americanos foram às urnas para eleger seu novo presidente, Barack Obama.

Se em 1978 conferimos a primeira vitória política de um homossexual assumido, em 2008 foi eleito o primeiro presidente negro dos Estados Unidos. Ainda que sejam cargos e minorias diferentes entre si, é inevitável fazer essa associação; além do mais, tanto um quanto outro discursaram com a intenção de combater desigualdades e preconceitos na sociedade norte-americana, cada um dentro de seus alcances.

Na ordem social e midiática, também conferimos algumas semelhanças. No ínicio de 2009, com a Prop 8 recém aprovada – e muito contestada pelos homossexuais da California -, aconteceu o tradicional concurso Miss USA. A candidata predileta era justamente a californiana Carrie Prejan, que, indagada a respeito do matrimônio homossexual, se posicionou negativamente. Ao fim do concurso ela ficou na 2º posição, havendo especulação a respeito de um desfavorecimento por conta do comentário preconceituoso. Em contrapartida, Carrie recebeu o título informal de símbolo da luta contra o casamento gay. Até mesmo porque reafirmou sua opinião em entrevistas e aparições posteriores, dando voz ao discurso cristão.

Anita Bryant (1964) e Carrie Prejan (2008)

Anita Bryant (1964) e Carrie Prejan (2008)

Semelhante é o caso de Anita Bryant, ícone de beleza e famosa cantora/garota propaganda dos anos 60-70. Anita, que é retratada no filme, liderou a partir de 1977 uma espécie de cruzada pelos Estados Unidos contra a aprovação de leis favoráveis aos direitos homossexuais. Apelando para a fantasiosa “ameaça” que os gays representavam aos bons costumes e principalmente as crianças “indefesas e puras”, Bryant encabeçou a criação e foi a principal porta-voz do movimento “Save Our Children”.

"SIM, ANITA! Eu quero ajudar você a trazer de volta aos Estados Unidos a moralidade e Deus." Cartão-reposta distribuído pelo território americano para angariar fundos e recrutar apoio

Cartão-reposta distribuído pelo território americano para angariar fundos e recrutar apoio, com os dizeres: SIM, ANITA! Eu quero ajudar você a trazer de volta aos Estados Unidos a moralidade e Deus.

Sejam por essas, ou outras eventuais semelhanças mais sutis aqui não citadas, que uma maior identificação com a obra foram possíveis, acabando por sublinhar a trajetória de Milk no cinema e refletir diretamente na imagem do mesmo fora das telas.

A consagração do ícone

Fato é, que no dia 12 de agosto de 2009, o mesmo presidente Barack Obama distribuiu uma Medalha Presidencial de Honra à cidadãos que auxiliaram a melhoria nas mais diversas categorias do país. Harvey Milk foi agraciado com a medalha póstuma, num gesto que simboliza a forte revitalização de sua imagem, posterior ao filme, como símbolo da luta pelos direitos LGBT.

Outra medida considerável foi a recente assinatura de uma lei, pelo governador da Califórnia (também conhecido ator) Arnold Schwarzenegger, em que oficializa o dia 22 de maio como Harvey Milk day, em celebração a data de nascimento do político.

Acredito que, longe de minimizar a importância de Milk ou desmerecer a honraria, a lei evidencia bem a crescente relevância do nome no cenário atual, seja ligado a luta pelos direitos, como também, agora a reafirmação do mesmo como ícone da cultura gay.

milk 1

O caso de Milk é importante, pois acaba tornando mais nítida a inserção de uma figura primeiramente política em posterior referencial cultural. Principalmente em meios, como o LGBT, em que militância e cultura tem seus limites definidos por uma linha tênue que poucas vezes pode ser identificada.

Falar mais da biografia dele seria apenas tentar reproduzir uma imagem grosseira do que Gus Van Sant conseguiu captar com delicadeza e apuro. Resta inspirar-se, fazer repercutir o legado e levar adiante a luta de Harvey Milk.

* Embora o filme de 2008 tenha alcançado um número ímpar de espectadores, dando uma projeção internacional ao nome, não foi a primeira produção que se propôs a contar a vida de Harvey Milk. Em 1984 um documentário chamado “The Times of Harvey Milk” foi realizado e premiado com o Oscar de melhor documentário do ano.

(Edição final: Pedro)

Anúncios

Outubro: Mês da História LGBT

27 de outubro de 2009

O senso comum pouco conhece o ativismo gay. Acredito que mesmo Stonewall, marco das lutas LGBTs, ganha pouca atenção da grande mídia – visto que está completando 40 anos em 2009 e pouco foi mencionada por aí.

É sabido que o preço da fama de alguns movimentos sociais foi alto para seus manifestantes. Queimação de sutiã e instauração do matriarcado são clichês contra os quais as feministas têm de lutar constantemente, explicando à exaustão que ser feminista não significa abdicar da feminilidade, ser lésbica ou querer que todos os homens morram. Mas se a alta exposição é prejudicial, não podemos deixar de esquecer que a invisibilidade também tem seus malefícios: se uma menina inconformada com a submissão que lhe é sugerida sabe, mesmo através da visão esterotipada, que existem mulheres que combatem tal situação, não necessariamente uma menino afeminado tem conhecimento da existência de toda uma estrutura ativista, com uma história própria, que visa a defesa da diversidade sexual.

Essa ausência de referenciais históricos relativos ao ativismo gay vem sendo notada e, progressivamente, diferentes iniciativas vêm tentando suprí-la. É nessa onda que foi instituído o GLBT History Month.

O GLBT History Month

Em 1994 o professor Rodney Wilson inaugurou a iniciativa, nos Estados Unidos, escolhendo Outubro por ser o mês de outra data ativista – o National Coming Out Day (o recém trazido para o Brasil “Dia de Sair do Armário”). A idéia foi apoiada por instituições gays como o GLAAD e o HRC e reforçada com a ajuda da National Education Association. Desde 2006, o Equality Forum se responsabilizou pela manutenção do interessantíssimo site da iniciativa.

LGBTHM

Inspirado nos Black and Women’s History Months, o GLBT History Month destaca anualmente as realizações de, de 31 ícones gays, lésbicos, bissexuais ou transgêneros. (…) Começando no dia 1 de outubro de 2009, um novo ícone GLBT é apresentado a cada dia. Você terá acesso a um vídeo, uma biografia e outros recursos, juntamente com informações sobre todos os ícones anteriores. Basta clicar sobre o nome do ícone, correspondente ao dia do mês.

Os vídeos e minibiografias já abordaram desde figuras conhecidas pelo grande público como Leonardo da Vinci, Michelangelo, Alan Turing, Cole Porter, Basquiat e Andy Warhol, a personalidades que apenas o público ativista mais experiente conheceria, como Alfred Kinsey, Rachel Maddow, Cleve Jones e Tammy Baldwin, passando ainda por celebridades como Ellen DeGeneres, Ian McKellen e Melissa Etheridge.

A versão britânica do Mês da História LGBT ocorre em fevereiro, devido a conquistas próprias de direitos dos gays britânicos, e começou em 1997. O site inglês explica a necessidade do evento e deixa claro que não quer reafirmar noções modernas de sexualidade, encaixando as personalidades históricas nas letras L, G, B ou T, mas apenas reparar o dano realizado pela heteronormatividade, levando assim ao ambiente educacional a noção de que a realidade da sexualidade humana é muito mais abrangente do que pensamos.

Além da consistência do projeto, a versão britânica conta com uma seção de sugestões de atividades para o dito mês, para cada interessado poder organizar e agir diretamente na sua comunidade. Desde seminários e conferências até exposições de arte com temática LGBT estão nessa pauta.

Acredito que a explicação do site para a iniciativa seja bem escrita a ponto de merecer ser reproduzida na íntegra:

Ao longo da história, podemos encontrar muitos exemplos de pessoas que, por uma razão ou outra, se recusaram a obedecer às premissas em relação ao sexo da sociedade em que nasceram. Também encontramos muitas histórias de pessoas que amavam outras de seu próprio sexo. Algumas dessas pessoas eram famosas, alguns deles obscuras. Algumas deles sofreram perseguições graves, outros tiveram mais sorte. Algumas são lembradas pelas contribuições que fizeram para a nossa cultura e sociedade. Suas vidas pessoais são geralmente reprimidas ou censuradas, exceto em publicações especializadas.

Para entender o nosso presente e imaginar o nosso futuro, precisamos primeiro obter clareza sobre nosso passado. Isto é válido para nós como indivíduos, mas também é aplicável para as sociedades. O LGBT History Month é um momento em que podemos explorar e partilhar alguns aspectos ocultos do passado do nosso país, tanto recente quanto remoto. Esta história escondida pertence a todos nós, é parte de nossa herança.

A configuração de personagens históricos: ônus e bônus

A execução dessa iniciativa pode render ótimos frutos. Por um lado, é importante que o grande público desenquadre suas noções e seu conhecimento do que é ser gay ou lésbica, saiba que estes têm uma trajetória particular em busca da garantia de seu – ainda não obtido – lugar ao sol. Isso pode estimular até mesmo o avanço dos direitos e do respeito aos LGBTs.

Por outro lado, é muito importante para os próprios gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros mais jovens tenham fácil acesso a essa história, sintam-se parte de um todo e não condenados a sufocar e morrer fora do aquário dos ditos heterossexuais.

Mas acredito que deva se ter aguns tópicos em mente, pois tarefa de educar em relação a essas figuras é delicada sob vários aspectos. Primeiro, como já mencionado pelos ingleses, é bom que não se categorize as pessoas. É importante que saibam que Leonardo da Vinci se relacionava com outros homens, mas ele não era gay, porque o gay é uma categoria recente. Deixar claro que a sexualidade humana tem várias facetas e, ao mesmo tempo, que ela não precisa se encaixar dentro de alguma delas é uma tarefa difícil.

Em segundo lugar, existe o fator da criação herói. A imagem mistificada e a supervalorização das atitudes podem ser consequências de uma mensagem mal transmitida. O importante é ter em mente que, seja comportando-se sob os moldes do ativismo clássico ou apenas tendo uma sexualidade aberta com naturalidade, todas essas figuras deixaram como lição uma vivência espontânea da sexualidade humana e a mensagem de que é preciso contestar, sempre, toda forma de discriminação ou privação dessa vivência.

Que o Mês da História LGBT sirva não como momento saudosista das antigas formas de ativismo, pois estamos em tempos diferentes e ainda há muito pelo que lutar, mas como injeção de inspiração e ânimo para as reivindicações de hoje e amanhã. E que seja, em algum momento, importada para solo tupiniquim, em cuja história não faltam personalidades admiráveis para se explorar nessa área.


Breves apontamentos para a história da homossexualidade

26 de outubro de 2009

O autor da mais completa obra sobre história da homossexualidade no Brasil, João Silvério Trevisan, costuma dizer que a história dos homossexuais foi sempre escondida, tornada invisível. A reticência em relação à presença de amantes do mesmo sexo em todas as épocas pode ser interpretada diversamente: seja como intencional, advindo da tentativa de normativizar a heterossexualidade, ou como acidental, descaso mesmo, se considerarmos que a história reflete muito o contexto em que é produzida – no ocidente, um contexto em que o sexo entre membros de gêneros diferenciados, e apenas ele, é visto como correto, comum e natural.

Falar de história da homossexualidade consiste em falar de apenas uma faceta da história da sexualidade humana, que é absurdamente rica e plural. Consiste em compreender que as relações sexuais foram encaradas de formas distintas de acordo com cada tempo e sociedade, sem a presença da dicotomia hetero x homo, fruto da mentalidade moderna. Afastemo-nos, por isso, da perspectiva errônea que tenta anacronizar as categorias identitárias, partindo da premissa que “houve gays e lésbicas em todas as épocas”.

Afastemo-nos, também, do ativismo barato, da história com fins. Se vivemos em uma sociedade homofóbica, não é o trabalho acadêmico que vai transformar a situação. Não adianta muito desconstruir as idéias erradas a respeito da trajetória histórica da sexualidade sem propor uma nova leitura para elas. O objetivo aqui não pode ser simplesmente esfregar na cara da academia a existência comprovada do homoerotismo em todos os tempos. Esse trabalho, além de não levar a nada, já foi realizado por outros.

Se queremos inverter a situação descrita por Trevisan, façamos de maneira digna, correta e compenetrada. A formação de uma memória histórica com a qual o ativismo LGBT possa contar e utilizar em suas lutas políticas é um assunto que pode ser próximo, mas deve ser visto como nitidamente distinto. Encaremos a história da homossexualidade não como ferramenta para visibilidade gay, mas para a construção de um conhecimento mais aprofundado da humanidade e de sua trajetória.

Semana da História LGBT no Homomento

Outubro é, oficialmente, o Mês da História LGBT. Se já constam aqui no Homomento duas traduções voltadas para esse propósito, essa semana resolvemos nós mesmos refletir a respeito do tema. Ao longo dessa última semana do mês serão publicadas algumas postagens dentro dessa temática, na tentativa de enriquecer a discussão.