Como um menino aprender a ser um homem

25 de janeiro de 2011

Esses dias eu relia uns posts do É bom pra quem gosta e encontrei uma indicação a esse texto aqui, que me agradou a ponto de me por a fazer uma tradução instantaneamente. A leitura é válida porque traz de modo informal a reflexão sobre esse tema tão complexo que é a performatividade do gênero.

Como um menino aprende a ser homem
Michael Kimmel*

Como ativista e pesquisador do tema da masculinidade, frequentemente me perguntam: onde é que ela começa? Como é que um menino aprende sobre a masculinidade? Embora as imagens da masculinidade nos cerquem, nos bombardeiem diariamente, foi apenas observando as experiências do meu filho Zachary que eu vi com tanta clareza como alguém chega a entender que a masculinidade é uma performance, uma pose, uma postura, como ela é extraída de nós e o preço psíquico e físico que isso exige.

Abaixo estão vinhetas de três momentos diferentes do processo.

1. 3 ANOS DE IDADE
Zachary gostava de jogar um jogo que chamamos de “opostos”. Você sabe como é: eu digo uma palavra, e ele me diz o contrário. É simples e divertido, e já jogamos bastante. Uma noite, minha mãe estava nos visitando e nós três estávamos caminhando no parque da vizinhança jogando Opostos. Áspero/suave, alto/baixo, rápido/lento – enfim, já deu pra entender. Então minha mãe perguntou: “Zachary, qual é o oposto do menino?”.

Meu corpo inteiro ficou tenso. “Lá vem”, eu pensei: Marte e Vênus, o sexo “oposto”, o gênero binário.

Zachary olhou para sua avó e disse: “Homem”.

2. 8 ANOS DE IDADE
Quando o oitavo aniversário de Zachary se aproximava, eu e sua mãe perguntamos qual tema ele queria para a festa. Nos dois últimos anos havíamos comemorado na pista de gelo local – a mesma onde ele joga hockey com seu time aos sábados pela manhã. Ele rejeitou a ideia. “Já fizemos isso antes, pai. Além disso, eu patino lá o tempo todo”.

Outros temas que outros meninos da turma tiveram recentemente – uma festa com atividades e brincadeiras, um jogo de futebol ou uma caça ao tesouro – foram sumariamente rejeitaidos. O que ele poderia querer?

“Uma festa de dança”, ele disse finalmente. “Com um globo espelhado”.

Eu e sua mãe nos entreolhamos. Perguntamos: “Dança? Mas Zachary, você só tem oito anos”. “Não, não estou falando de dança“, disse ele, fazendo aspas com as mãos. “Estou falando de coisas como Cotton Eyed Joe, Virginia Reel, Cha Cha Slide e outros jogos de dançar”.**

Assim fizemos então: uma festa dançante – para seus 24 amigos mais próximos (a escola incentiva que convidemos toda a turma). Com uma parcela igual de meninos e meninas.

Todas as doze meninas dançaram entusiasmadamente. “Essa é a melhor festa do mundo!”, disse Grace. As outras exclamavam em concordância.

Quatro dos garotos, incluindo Zachary, dançaram junto. Eles também estavam se divertindo bastante.

Quatro outros garotos chegaram, observaram a cena e imediatamente se dirigiram a uma parede, onde cruzaram os braços sobre o peito e se recostaram. “Eu não sei dançar”, disse um deles. “Eca”, disse o outro. Eles assistiram e eventualmente tentaram interromper a dança, parecendo zombar dos dançarinos enquanto se enchiam de petiscos e não aparentavam estar aproveitando a festa.

Outros quatro garotos começaram a tarde dançando alegremente, sem nenhuma pitada de vergonha. Mas aí eles viram os garotos encostados na parede. E um a um, pararam, se dirigiram à parede e observaram o restante.

Só que não dava pra manter a pose por muito tempo. Depois de ver as crianças fazendo passos de dança hilários eles voltavam atrás, dançando como demônios, apenas para depois parar, observar os meninos da parede e voltar para a mesma.

Da pista à parede eles foram a tarde toda, alternando entre o entusiasmo e o receio, entre dançar alegremente e observar com desgosto. Meu coração doía por eles enquanto eu observava seu impasse entre serem crianças ou rapazes.

Ou entre serem pessoas ou rapazes. Serem pessoas capazes de uma ampla gama de prazeres – de acabar com os rivais no placar do hockey e fazer aquela exclamação vitoriosa em que se fecha os punhos e se puxa o cotovelo pra trás a dançar a quadrilha com seus parceiros no Cotton Eyed Joe. Ou serem rapazes, para quem o prazer se define agora por tirar sarro da alegria dos outros.

Oscilando entre a masculindade infantil e a adulta, eles estavam fazendo escolhas, e dava pra perceber o quão agonizante era fazê-las. Eles odiavam ficar na parede, e lá permaneciam até não conseguir aguentar. Mas uma vez que voltavam à pista, estavam agudamente conscientes que eram agora objetos do ridículo.

Lembrei disso esses dias quando outro jornalista fez uma pergunta que provavelmente me fazem uma vez por semana, cada vez que um jornal ou revista “descobre” que os homens estão confusos sobre o que significa ser homem atualmente.

Esse é o preço que pagamos para ser homens: a supressão da alegria, da sensualidade e da exuberância. E a compensação é se sentir superior aos outros estúpidos que tem a audácia de se divertir.

Eu torço para que meu filho resista à parede e siga dançando como criança.

3. 10 ANOS DE IDADE
Enquanto Zachary e eu íamos à escola, fiz-lhe a mesma pergunta que costumo fazer aos jovens na universidade e nas escolas de ensino médio. “O que você acha que significa ser um homem?”.

Zachary pensou por um momento. “Engraçado, pai”, falou. “Nós estavamos falando sobre isso no time de futebol. Um dos meus colegas disse ‘quem se importa se você está machucado? Você tem de ser homem, ser forte o suficiente pra jogar mesmo com dor’. Então eu acho que significa ser forte”.

Alguns passos depois, ele parou de caminhar. Em um daqueles momentos bem familiares para qualquer pai ou mãe, ficou ali parado, tão perplexo que dava pra imaginar as engrenagens trabalhando dentro da sua cabeça. “Na verdade, pai”, ele disse, “eu acho que não significa ser forte. Eu acho que significa fingir ser mais forte do que você é”.

* Kimmel é sociólogo, professor na State University of New York e tem várias publicações na área das masculinidades. Além disso, é respresentante de uma organização norteamericana de homens contra o sexismo, o NOMAS.
** Nota de tradução: pesquisei no YouTube e são danças num estilo quadrilha ou Macarena que costumam fazer bastante nos colégios norteamericanos. Se bateu a curiosidade basta clicar nos links que coloquei ali e tentar fazer também.


Eles contra elas

4 de janeiro de 2011

Há mais de mês aconteceu o Dia Internacional da Não Violência Contra a Mulher. Aí a Lola do Escreva Lola Escreva, um dos meus blogs favoritos, fez um post especial para os homens. Com o título “Homem, faça a sua parte”, ela sugere algumas coisas que os homens poderiam fazer para participar da luta contra o machismo.

A blogueira explica que logicamente não são todos os homens que estupram e agridem mulheres, mas que essas agressões são feitas por homens. E que esse assunto, o da violência contra a mulher, deveria dizer respeito a todos, independente do sexo. Não precisa ser agressor nem agredido pra se envolver nessa luta e querer que a situação acabe, logo, homens que não agrediram e mulheres que não foram agredidas podem e devem participar.

Aí vêm algumas dicas de coisas que podem ser feitas por homens que querem participar desse conjunto de práticas que engloba a luta feminista.

Permita-me algumas sugestões: se você tiver um blog, escreva sobre isso. Escreva sobre quando você começou a autoanalisar o seu sentimento de posse. Escreva sobre o que viu de desigual no relacionamento entre os seus pais. Escreva sobre o ciúme doentio que você sentiu aquela vez da sua namorada. Escreva quando descobriu que as mulheres merecem respeito.

Copiado esse trecho, preciso fazer alguns comentários.

Pra começar, quero questionar essa ideia de que os homens “também” podem se interessar pelo feminismo. Tenho certeza que a Lola sabe que ser mulher não significa ter interesse automático por aquele conjunto de coisas que se entende como “emancipação feminina”, mas a premissa do texto não deixa isso claro. A leitura me fez remexer na cadeira porque parecia que bom, nem precisamos falar sobre como o feminismo é caro às mulheres, agora vamos aos homens.

O machismo é um sistema simbólico que não foi deliberadamente criado. Não houve um momento em que homens se opuseram a mulheres e submeteram elas, contra a sua vontade, e desde então elas vêm umas sendo submissas e outras reparando o quanto essa situação é horrorosa. Não é dualista, mas totalmente complexo e enraizado culturalmente. O feminismo, no entanto, se organizou em torno de mulheres, e vem sendo caracterizado como “luta feminina”. Se cria aí essa visão polarizada que é extremamente problemática.

Quando um marido oprime a esposa de alguma forma não estamos falando de uma situação em que um homem dominador e possessivo violentou uma esposa submissa que, se pudesse, estaria numa relação diferenciada. A relação já se estruturou assim desde o começo porque os dois quiseram. Tanto o homem escolheu uma parceira-objeto quanto a mulher procurou um parceiro que a objetificasse, e essas escolhas foram condicionadas e impostas a eles desde que nasceram.

A sugestão de Lola é que homens esclarecidos falem sobre o momento da quebra, em que repararam que não é legal ter o sentimento de posse, desrespeitar as mulheres, sentir ciúme doentio e outras coisas mais. Que eles colaborem com relatos que possam ser lidos por machos chauvinistas, que quem sabe possam se sensibilizar.

Mas acontece que esses homens sensíveis de Lola vivem em um mundo em que a grande maioria das mulheres busca por objetificação, luta por submissão e reafirma diferenças categóricas entre os sexos que acabam sempre diminuindo a mulher. Pra dar um exemplo: há alguns meses falei sobre um livro chamado “Cuidado! Seu príncipe pode ser uma Cinderela” que é um manual para a mulher identificar se o seu marido é um gay enrustido que quer manter as aparências. Os parâmetros? Se ele for muito carinhoso, se vestir bem, tiver uma boa relação com a própria mãe, ele é gay e você está sendo enganada. O livro diz à mulher o que NÃO se esperar de uma relação heterossexual, ou seja, carinho, companheirismo, etc. E, que surpresa: foi escrito por duas MULHERES, visando “ajudar” MULHERES.

Esses dias li um tweet dizendo que acusar as mulheres de serem perpetuadoras da pior espécie de machismo seria a configuração de um neomachismo, um machismo dois ponto zero. Realmente é de uma pobreza enorme desculpabilizar homens, mais ou menos como aquela premissa escrota de que “são os negros que são racistas consigo e se excluem”. Mas não é dentro desse esquema argumentativo que quero me inserir.

Quero dizer mais ou menos o que falei no meu post anterior, só que trazendo isso pro feminismo, porque é importante. Não se trata de vítima contra opressor, mocinho contra bandido. Não são mulheres (e homens esclarecidos) lutando contra homens machistas. São pessoas que pensam uma coisa se opondo a pessoas que pensam outra coisa. É muito ingênuo endereçar “também” aos homens os objetivos feministas, como se qualquer mulher entendesse o que são estes e se interessasse por eles. Qualquer mulher está apta a perceber que existe essa violência específica, mas não a perceber que as origens dessa violência são simbólicas e perpetuadas em todos os cantos diariamente. E é essa percepção, na minha opinião, que difere uma mulher feminista de uma mulher que se diz feminista.

Uma coisa que me chateou bastante em outro texto da Lola, e eu até reclamei pra ela no twitter sem obter resposta, foi ela dizer que tanto mulheres quanto homens podem sofrer violência sexual, mas apenas homens a cometem. Isso não é verdade: mulheres podem abusar de mulheres, e de homens também. E é um absurdo, uma falta de sensibilidade dizer o contrário. Eu não sei em que momento essa obviedade escapou da Lola, mas acho que foi quando ela começou a colocar as mulheres no pedestal de vítimas.

Esses dias vinha relendo os textos da época em que o Homomento não era um blog semimorto e bissexto e percebi que a grande maioria das nossas críticas foi tecida em relação à militância/mídia/comunidade gay. Nunca nos interessou pressupor um todo LGBT organizado para, em cima disso, partir para as críticas do “mundo hetero”. Reparamos que muitas vezes práticas que se pretendem inclusivas entre os LGBTs são normativas, machistas, racistas e escondem uma profunda decepção interna por não serem heterossexuais. Não estou falando da “homofobia internalizada”, esse que se tornou um recurso ativista gay para falar de qualquer homossexual que não se comporte como a militância pede, mas de práticas celebrativas e enquadradoras como o já analisado Mister Gay Brasil.

Adoraria pensar que lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros partilham todos do mesmo desejo emancipatório, e que se assumir significa ser fazer algo de diferente e efetivo para os gays, independente do contexto e da forma como vai ser administrada essa homossexualidade escancarada. Adoraria escrever longas cartas para meus amigos heteros “esclarecidos”, incitando-os a participarem da luta pelos gays. Mas não divido o mundo em preto e branco e sei que o buraco é sempre, sempre mais embaixo.