Retrospectiva de setembro

1 de outubro de 2009

No Brasil

O reconhecimento das uniões entre pessoas do mesmo sexo pelo Estado brasileiro continuou sua consolidação em setembro. As ações que estão no STF tratando das uniões homoafetivas podem ganhar um empurrãozinho significativo: no dia 17, o presidente Lula indicou um advogado simpatizante para ocupar a cadeira vaga do STF. O nome de José Antonio Dias Toffoli foi confirmado no cargo ontem numa sabatina do Senado, em decisão que segue para aprovação de Lula. Ontem, ele reafirmou seu apoio à nossa causa, dizendo que “a homoafetividade é um fato da cultura humana”.

O IBGE anunciou que irá contar os casais gays no Censo Demográfico de 2010, e servidores LGBT do poder público estadual de Pernambuco poderão incluir seus parceiros como beneficiários na Previdência. Outras iniciativas regionais merecem destaque: o governo de São Paulo está capacitando agentes da Secretaria de Emprego e Relações do Trabalho (SERT) para inserção de LGBT no mercado, e em Floripa foi aprovada uma lei que proíbe a discriminação em virtude da orientação sexual.

O estado de São Paulo tem uma lei semelhante desde 2001, mas aparentemente ela não é bem divulgada. Em setembro, uma imobiliária da capital desse estado anunciou um apartamento vetando seu aluguel por homossexuais, numa medida desastrada que ainda pode render processo judicial. Em Belém do Pará, um juiz da Vara de Infância e Juventude também não quer homossexuais por perto – no caso, por perto de crianças. A Justiça recomendou a fiscalização da Parada GLBT dessa cidade para evitar a presença de menores, por considerar que o evento tem cenas “atentatórias à moral e aos bons costumes”.

Falando em bons costumes, descobriu-se que isso é coisa que o governador do Mato Grosso do Sul não tem: por conta de desavenças políticas, André Puccinelli chamou o ministro do Meio Ambiente Carlos Minc de “viado”, “maconheiro” e disse que o “estupraria em praça pública” – e ainda tentou aplicar a desculpa de que isso teria sido uma brincadeira. Esse machismo homofóbico também exala da declaração do técnico do Goiás, Hélio dos Anjos, que disse “não trabalhar com homossexuais”.

A discriminação contra os LGBT foi alvo de ação judicial, também – mas não da maneira que esperávamos. O Conselho Interdenominacional de Ministros Evangélicos do Brasil (Cimeb) entrou na Justiça, em ação posteriormente arquivada pelo STF, contra a Lei 10.948/2001 de São Paulo – a lei citada acima, que proíbe o tratamento desigual motivado pela orientação sexual – por considerar que ela fere a liberdade de expressão. Esse argumento mentiroso é o principal dentre aqueles que sustentam a oposição dos religiosos ao PLC 122/2006.

No mundo

No panorama internacional, foi também a homofobia o grande choque do mês. Em uma província da Indonésia, entrou em vigor uma lei que pune a homossexualidade com 100 chibatadas em público e até 8 anos de prisão.  No Iraque, onde a homossexualidade é punida com a morte, a surpresa triste de setembro foi a descoberta de armadilhas dos fundamentalistas: eles entram em chats gays e marcam encontros com os rapazes, para então aprisioná-los e torturá-los até a morte. E a Anistia Internacional viu-se obrigada a condenar uma lei homofóbica aprovada na Lituânia em julho.

É evidente que setembro não foi um mês só de más notícias. O governo da Grã-Bretanha, por exemplo, desculpou-se publicamente pelo tratamento cruel que dedicou ao matemático Alan Turing, processado por ser homossexual e “tratado” desse “mal” com castração química. Esse pronunciamento só ocorreu porque o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, atendeu a uma petição online no site do governo, provando que o ativismo gay 2.0 rende frutos. Na África do Sul, foi vista como avanço na questão LGBT a condenação de dois homens que estupraram e mataram a jogadora de futebol Eudy Simelane em função de sua homossexualidade. Embora esses dois casos sejam específicos e não corrijam o mal sofrido, é notável o fato de que a discriminação contra LGBTs está sendo oficialmente condenada pelo poder público desses países.

Os direitos dos LGBT, contudo, não se limitam a não sofrer agressão: em um mundo ideal, os direitos dessa parcela da população serão os mesmos que os das demais pessoas. E algo me diz que estamos caminhando rumo a essa realidade: na Escócia, os homossexuais agora têm direito à adoção assim como os casais héteros. Nos Estados Unidos, constatou-se que casais entre pessoas do mesmo sexo são estáveis sim, e que procuram oficializar sua situação: o birô do Censo confirmou que 27% dos casais homossexuais são legalmente casados de alguma forma.

A melhor notícia de setembro veio da ciência: pela primeira vez, uma vacina demonstrou ter efeitos consideráveis na prevenção do contágio por HIV. A taxa de 31% de sucesso surpreende, mas ainda é cedo para relaxar na prevenção. A AIDS continua não tendo cura.

No Homomento

Setembro foi um mês de definições: pesquisamos como a homossexualidade aparece nos dicionários, revisamos a história do termo “homofobia” e destrinchamos os principais preconceitos sofridos pelos bissexuais (comentaremos as identidades TTT ao longo de outubro, prometemos). Também falamos pela primeira vez sobre homoparentalidade ao traduzir o texto de uma menina de 10 anos, que conta sua experiência como filha adotiva de duas mães.

Desde sua criação, o Homomento é bastante crítico em relação à mídia gay que temos no Brasil – de certa forma, nosso trabalho surge como uma resposta às falhas que encontramos nessa mídia. Mas foi só em setembro que elaboramos um artigo mais consistente sobre as críticas que fazemos aos sites LGBT brasileiros. E ficamos bastante satisfeitos com o debate que aconteceu nos comentários de nossas análises sobre como a publicidade se dirige aos LGBTs, seja de forma a se mostrar gay-friendly (uma estratégia que pode ser considerada oportunista), seja usando duas mulheres para gerar um apelo sexual (o que também é questionável: para a homossexualidade se tornar visível, basta aparecer?).

As discussões sobre cultura também renderam bastante. Setembro é um mês interessante para nós, pois somos gaúchos e o dia 20 é a data mais importante para o nosso tradicionalismo sexista, que exclui os homossexuais. Ao longo do mês, encontramos subsídios para que pensássemos nossa própria militância, e tivemos também a chance de conversar sobre cultura LGBT com Michael Eichler, do site The New Gay. Foi desse site que tiramos a definição de ativismo 2.0 que abordamos por aqui: acreditamos que a web é um espaço para que todos possamos veicular nossas ideias e compartilhar nossas opiniões. Assim, acreditamos que nosso trabalho pode estimular a discussão rumo a uma aceitação cada vez maior das diferentes sexualidades.

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Entrevista: Michael Eichler, do The New Gay

16 de setembro de 2009

Não é a primeira nem será a última vez que The New Gay vai aparecer aqui no Homomento, pelo simples motivo de que muitas das idéias dos dois blogs são bastante alinhadas. Eu e a Carol tivemos a oportunidade de entrevistar um dos co-fundadores do site, Michael Eichler, que simpática e articuladamente respondeu nossas perguntas. Vale a pena ler a tradução da entrevista (uma versão em inglês foi publicada no The New Gay), que segue na íntegra:

Michael, antes de qualquer coisa, por favor apresente-se brevemente.
Bom, eu sou Michael Eichler (a pronúncia é “ike-ler”), tenho 36 anos e trabalho numa planejadora de transportações. Eu também sou co-fundador do The New Gay, que é uma fonte online para idéias, culturas e eventos relacionados à comunidade LGBT.

Os sites LGBT normalmente são cheios de fotos de homens nus ou notícias de fofoca. Nós temos, porém, ótimos exemplos de bom trabalho como o Box Turtle Bulletin. No cenário dessa mídia específica, como você descreveria o The New Gay?
Nós somos um blog/publicação online abrangente, feito por pessoas comuns, que quer ver mais assuntos na mídia LGBT. Se você mostrar fotos de torsos nus, ignora metade dos homossexuais (se pensarmos que a divisão de gênero é 50% masculina e 50% feminina). Nós tentamos achar um tema em comum para todos os LGBT que vai além da conexão básica de todos nós: o sexo. Exploramos maneiras singulares e diversificadas de ser homossexual, dando oportunidades para as pessoas explorarem seus interesses genuínos ao invés de gostarem das mesmas coisas que todo mundo só para serem aceitas.

Outro co-fundador do TNG, o Ben, define o site como “um movimento inclusivo de indivíduos atraídos pelo mesmo sexo que se recusam a ser definidos pelo passado e lutam para expandir as barreiras do futuro”. De fato, como você disse, muitos dos artigos do site falam sobre como é importante que essas pessoas parem de se estereotipar, e o quão diferentes os LGBT podem ser entre si. Em dois anos de trabalho e reflexões sobre essa temática, o que você aprendeu? O que mudou e o que permaneceu, entre as suas opiniões?
Durante esses últimos dois anos, uma coisa que eu aprendi foi a necessidade de incluirmos todas as minorias sexuais. A parte mais complicada é o fato de que os transexuais normalmente não se expõem e é muito difícil sempre fazer e falar as coisas certas para ser inclusivo com os trans. Como gays e lésbicas, como pessoas que “amam pessoas do mesmo sexo”, nós não conhecemos bem as dificuldades enfrentadas pelos trans e isso não faz parte da nossa forma de pensar, normalmente voltada para autopreservação. Nós, todos os queers, precisamos aprender mais uns sobre os outros e descobrir similaridades. Acho que o trabalho do TNG começou com a exploração das diferenças maravilhosas entre os LGBT, mas agora é o momento para nos unirmos e caminharmos como “um só povo” apesar de todas essas diferenças.

Já que você falou em trans: recentemente vocês participaram de um protesto relacionado à morte de uma transexual em Washington DC. Além desse tipo de manifestação, como nós podemos lutar contra a homofobia no “mundo real”? Nós lemos recentemente um artigo da Jean no TNG sobre o “ativismo gay 2.0” que nos lembra sobre os riscos de nos limitarmos à web.
Eu não participei pessoalmente daquela vigília, mas ajudei a divulgá-la e nós mandamos o nosso fotógrafo. De qualquer forma, eu acho que a melhor maneira de lutarmos contra a homofobia no mundo real é alcançando a visibilidade. Há grandes chances de que cada homofóbico tenha no mínimo um parente ou amigo que seja gay. Se essas pessoas puderem se pronunciar, se assumir e se fazer visíveis, causando uma impressão positiva junto aos que são potenciais perpetuadores da violência contra os LGBT, veremos esse potencial reduzido.
Nós precisamos ser vistos como pessoas, crianças, pais, colegas, amigos, vizinhos, membros da comunidade. Acredito que até nós verem como tal, e não como “o outro”, teremos a violência e a homofobia sempre muito próximas de nós.

Você disse que “se você mostrar fotos de torsos nus, ignora metade dos homossexuais”. Aqui no Brasil, muitos dos sites auto-intitulados “LGBT” são dirigidos aos homens gays, com fotos homens seminus e etc. Há também alguns dirigidos a lésbicas, mas nada que possamos chamar de “neutros” em relação ao gênero para LGBTs.
Exatamente. Esse é um grande problema.

A mídia LGBT norte-americana é muito mais sofisticada que a nossa nesse aspecto. Quanto tempo você acha que ela demorou para se desenvolver dessa maneira? Ou: o que nós, brasileiros, poderíamos fazer para obter algo semelhante?
Ah, espera aí. Nós somos um dos poucos sites que eu conheço que têm a intenção de abranger todos os gêneros e sexualidades. Outros blogs temáticos como Towerload.com ou Queerty.com, ou ainda os “after” (AfterEllen, AfterElton), são voltados para apenas um gênero. Não há unidade. Os jornais LGBT como o Washington Blade estão muito comprometidos com seus anunciantes, que vêem os homens gays apenas como consumidores, e seu conteúdo (não noticioso) não faz muita coisa para desmentir esse fato.

Esse é um problema de qualquer publicação: lidar com seu público E com seus anunciantes. Na sua opinião, o quão grande é a influência dos anunciantes na mídia LGBT? Você acha que a relação entre veículos e anunciantes impede-a de pensar e falar sobre assuntos que realmente importam?
É enorme, e sim, eu acho. Muitas publicações dependem demais dos anunciantes e sofrem por isso. Ouvi rumores de matérias que não saíram por motivos como “já publicamos um artigo lésbico na semana passada”. Essas mídias dificilmente são justas e imparciais. Zack, o outro co-fundador do TNG, trabalhava para o Blade, então ele pode falar mais sobre isso. Mas eu não me identifico com qualquer um desses anúncios voltados para os LGBT (na verdade, especificamente para os homens gays e brancos) e eu mesmo sou um homem gay e branco. Imagine como os membros da comunidade LGBT que não são homens ou brancos não se sentem olhando para esses anúncios?

Sim, e acho que isso também impede que algumas pessoas consumam a “mídia gay”. Aqui no Brasil, na mídia impressa, nós só temos revistas dirigidas ao público masculino. Não consigo ver nenhuma razão para uma lésbica comprar alguma delas. Dessa maneira, muitas pessoas dentro da nossa comunidade estão excluídas da nossa própria mídia! Mas seguindo adiante: Zack disse, no artigo “The Beginning of Gay Culture”, que seria bom para os LGBTs recriarem o mundo heterossexual numa versão menor, só para eles. Acho que ele quis dizer que nós deveríamos criar espaços onde pudéssemos conviver apenas com LGBTs parecidos conosco, enquanto lutamos da nossa maneira contra a homofobia. Mas você não acha que deveríamos estar lá fora lutando para fazer do mundo um lugar melhor para todo mundo? Será que não podemos ficar confortáveis nos lugares que já frequentamos? Nós realmente precisamos criar todo um mundo novo (e GAY)?
Zack está falando sobre criarmos espaços sociais que expressem a diversidade da comunidade LGBT. E eu concordo. Nós precisamos de diversidade em nossos espaços sociais. De outra maneira, qualquer um que não se encaixe no “molde gay” vai se sentir rejeitado e não pertencer a comunidade nenhuma. Ao invés disso, nós precisamos achar uns aos outros no mundo real e nos conectarmos. Esses pequenos grupos e conexões podem se tornar a base para uma unidade maior. Se tudo o que temos é o mainstream e um monte de indivíduos que não se identificam com ele, nós nunca acharemos uma base comum. Nós ainda temos muito trabalho a fazer para nos organizarmos internamente antes de realmente encontrarmos a força para marcar presença fora de nossa comunidade. Isso não significa que nós não possamos começar pressionando a sociedade por aceitação, mas nós só teremos o poder necessário para tal se nos organizarmos internamente primeiro.
Imagine lutar numa guerra onde 20% dos nossos soldados são membros de uma tropa e os outros 80% não têm lealdade ao sargento, agindo por conta própria. Não funcionaria.

Agora entendi o seu ponto, e acho que o exemplo das tropas ilustra muito bem essa ideia. Uma das lutas internas do movimento LGBT que podemos destacar é aquela pela aceitação nas instituições militares, já que alguns dos ativistas mais radicais não vêem sentido em lutar contra o Don’t Ask, Don’t Tell (DADT).
Exato, eles preferem acabar com os militares a lutar contra eles. E, na verdade, gostam de não poderem ser chamados para o serviço. Pessoalmente, eu não concordo com o militarismo de maneira geral e não lutaria pelo fim da DADT, mas apoio essa luta e todos os nossos soldados gays aí fora. Mas um caso que ilustra ainda melhor a necessidade de união nos EUA é a questão do Ato pela Não-Discriminação no Emprego (ENDA, na sigla em inglês), em que a organização Human Rights Campaign recomendou um pacote de leis contra discriminação que exclui os transgêneros. Como uma coisa dessas pode ser possível em 2009?

Então você acha que devemos viver de acordo com nossos valores, gostos e interesses, como propõe Zack, e nos unirmos apenas por nossos direitos e para lutarmos contra a discriminação?
Nós LGBTs não temos uma cultura inerente. Não temos uma força unificadora. Nós não nascemos numa população LGBT – temos que construir nossa própria cultura, e a cultura que atualmente ocupa esse espaço não abrange todos nós. Num post anterior, Finding Unity in Community, eu disse que, como nós não nascemos na nossa comunidade, temos que procurá-la. E nada na nossa cultura encoraja a entender a nossa própria história e a similaridade que temos com outros LGBTs. Espere, por exemplo, que nos reunamos em torno da Madonna. Isso nunca vai acontecer. O que mais temos em comum? O que eu tenho em comum com a Shunda K, do Yo Majesty, além de uma mesma orientação sexual?

Vocês também têm um monte de posts sobre música indie, chega a ser comum que as pessoas pensem que o TNG é um blog hipster. Será que não é perigoso se definir como um “movimento inclusivo” e falar só sobre músicas que vocês gostam ao mesmo tempo? Vocês não temem que leitores LGBT que não sejam hipsters acabem se afastando do site de vocês por causa das discussões sobre música?
Desde o início, convidamos todas as pessoas possíveis para que usassem o Tng como uma plataforma para compartilhar suas ideias e interesses, encorajando diferentes perspectivas sobre cada assunto, e dando destaque a todos os tipos de cultura que existem – filmes, literatura, teatro, etc. Não vamos deixar de escrever sobre o que nós (os fundadores) gostamos porque até agora ninguém mais se habilitou a contribuir com outras perspectivas sobre outros tipos de cultura. Estamos disponibilizando opiniões de LGBTs descrevendo um monte de coisas que não são gays, e esse conjunto de coisas não-gays definitivamente poderia ser maior. Nós adoraríamos que pessoas se juntassem a nós e começassem a escrever sobre música clássica, por exemplo. Mas nós (a equipe atual) não podemos fazer isso, porque não é a nossa praia. Nosso cofundador Ben ama hip hop e até escreveria sobre isso de vez em quando, mas ele não estava interessado em escrever sobre música. Na verdade, estávamos hesitantes quanto a adicionar mais um colunista sobre música, porque ele queria trazer mais indie rock. No fim das contas, ele é uma pessoa LGBT que quer escrever sobre música. É exatamente o que queríamos, ainda que não seja um novo gênero.

Michael, muito obrigado pela entrevista. Continue com o trabalho bom (e original) do TNG. E só uma pergunta final: como podemos lutar contra os preconceitos que nossa “cultura gay mainstream” ainda evoca, e construir nossa própria cultura?
Seja você mesmo, seja um indivíduo, seja visível, se expresse. É tudo que posso dizer. Ah, e não seja um imbecil.


Ativismo Gay 2.0

11 de setembro de 2009

Não pude resistir ao artigo do The New Gay que o Pedro compartilhou no Google Reader. Afinal, ele fala sobre praticamente tudo o que me interessa: LGBTs, ativismo político e mídias sociais. Por isso mesmo, achei que seria uma boa compartilhá-lo com todos os leitores do Homomento, traduzindo para quem não compreende muito bem inglês e aproveitando para salientar alguns pontos que a meu ver merecem destaque. Segue o baile:

Ativismo Gay 2.0

Parte do que faz do The New Gay o novo gay é que tentamos abordar questões LGBT de uma maneira nova. Nós somos os Gays 2.0 – bandos de homossexuais com seus vinte e poucos anos e seus aliados, blogando, twittando, escrevendo, postando, e organizando causas e eventos no Facebook. Os membros empregados desse batalhão trabalham como formiguinhas em seus teclados ao longo dos horários de almoço e nos fins de semana, enquanto os estudantes e desempregados sentam-se em seus quartos nas repúblicas e em coffee shops criando uma nova onda de informação LGBT como a web nunca havia visto antes. Todos acreditamos que estamos estendendo nosso alcance de uma nova maneira, que o Gay 2.0 está tocando a sociedade mais rápido, com um alcance maior e uma pegada mais forte. É por isso que twittamos. Que escrevemos e lemos sites como o TNG.

Para mim, o mais fascinante das práticas relacionadas ao que se chama de “Web 2.0” é o fato de que não é preciso estar em uma posição privilegiada para expressar uma opinião, ou mesmo (re)contar uma história. O que vale é o conteúdo, por vezes independente do local onde este está publicado – por exemplo, se vou comprar um MP3 player, um relato de defeitos encontrado em qualquer fórum sobre aparelhos da mesma marca e modelo provavelmente vai pesar mais em minha decisão do que uma notinha em um grande site de tecnologia. Da mesma forma – e espero que os leitores do Homomento concordem comigo! – pode ser que, eventualmente, a informação que você precisa não esteja em um grande portal, mas em um simples blog tocado por um grupo de amigos num misto de hobby e compromisso. Além disso, posts em blogs e no Twitter fazem mais do que criar conteúdo: links e comentários ajudam a espalhar as informações, para que elas alcancem cada vez mais pessoas na rede.

Temos que nos afastar um pouco de nossos laptops para nos questionarmos se não estamos falando para nós mesmos na maior parte do tempo. Meus amigos no Facebook podem ler meu post, alguns dos meus colegas podem checar meu status no Google Talk, mas eu estarei alcançando mais alguém? O mundo online das questões LGBT está sendo vivenciado somente por aqueles que estão procurando por ele? Estamos sendo tão ativos quanto nossos predecessores no ativismo e jornalismo LGBT, ou estaremos predestinados a só ver os progressos que estão se estabelecendo primariamente num ambiente isolado? Não interessa quantos artigos eu escreva para publicações LGBT, e quantas vezes eu twitte sobre questões gays: ainda é possível que pessoas fora de nossa comunidade não consigam ouvir nosso grito de ordem.

Quando o assunto é web 2.0, muda a figura do emissor, mas o público continua sendo formado pelas mesmas pessoas… E, assim como ocorre com outras mídias, o conteúdo será procurado por quem se interessa por ele. Só provocaria mudanças no pensamento de alguém se interpelasse uma pessoa com opinião contrária. Um post de blog certamente não irá envolver-se em uma discussão, mas é bem provável que algumas de suas ideias encontrem eco no pensamento de alguém, que poderá utilizá-las no momento de contra-argumentar um homofóbico. Além disso, o fato de não atingir potencialmente todos os HTs não torna esse trabalho inócuo. Mesmo dentro da nossa comunidade existem milhares de pessoas que ainda precisam ouvir essas mensagens que nos parecem tão básicas: ser gay não é doença, homossexuais podem registrar união estável, nem toda bicha é quaquá.

Ficar do lado de fora de prédios do governo ou estabelecimentos comerciais falando sobre igualdade, compartilhando informações e buscando assinaturas ainda tem seu mérito. Assim como protestos, discussões e festas. Barack Obama se elegeu por causa da geração 2.0, mas os sites Change.org e BarackObama.org promoveram festas e encorajaram todos nós a promover festas. Para nos reunirmos, para discutir as questões, para convidarmos nossos amigos. Eles nos desafiaram a sair de nossas casas e distribuir panfletos, fazer ligações, tomar uma atitude. O pedido de um amigo é mais difícil de negar quando é cara a cara, e falando pessoalmente a chance de sermos ignorados é menor do que enviando um link por e-mail. Temos que lembrar que a Web é apenas um lado do ativismo.

Essa descrição de atividade política – com campanha de porta em porta e coleta de assinaturas – tem muito mais a ver com o modelo americano, em que alguns assuntos são decididos pelos próprios cidadãos quando votam na eleição (como foi o caso triste da Proposition 8). No Brasil, infelizmente, não temos tanto controle sobre o que será decidido sobre as leis que nos regem: o máximo que podemos fazer é escolher um candidato que corresponda mais ou menos às nossas posições, torcer para que ele não nos decepcione e pressioná-lo se ele o fizer.

Os sites de redes sociais fizeram sucesso nas eleições estadunidenses porque permitiram ampliar o alcance do diálogo político, e não há por que ser diferente quando discutimos o “Gay 2.0”. No caso dos LGBT, que perderam sua principal oportunidade de fala como pressão política – a Parada, que hoje tem muito mais de espetáculo do que de protesto – o uso da Web é ainda mais importante pelo fato de que muitos de nós estão afastados dos demais, por razões que vão do enrustimento a uma vida bem-resolvida mas “fora do circuito”. Isso vale em outras ocasiões, e também para o resto da sociedade: a Web é um espaço para proferir opiniões que provavelmente não cruzariam os limites da roda de bar, mas que na Web podem ser reunidos e assim ganhar visibilidade.

Ainda que tenhamos muito caminho para trilhar até que o Gay 2.0 alcance seu potencial máximo, estamos progredindo. Estamos construindo uma rede mais forte, uma coalisão mais sólida. Estamos criando uma força humana formada por pessoas educadas, informadas e entusiasmadas, que conhecem os seus direitos e estão loucas para mudar o mundo. Agora temos que pegar essas habilidades que desenvolvemos online e levá-las de volta ao mundo real.

Mesmo com tudo o que eu disse antes, concordo com o autor do texto: não podemos ficar só no virtual. Ainda acredito no diálogo cara a cara e no valor do bom e velho protesto de rua – só acredito que não devemos usar essa forma de manifestação política pra diminuir o valor de outras. Colocar #forasarney no Twitter não vai derrubar o presidente do Senado, mas infelizmente acredito que atualmente uma passeata também não conseguirá esse feito. Como eleitores, o melhor que podemos fazer é não votar em candidatos homofóbicos, apoiar sempre que possível os nossos aliados e estar sempre atentos com quem tenta nos enganar.

Fora da esfera em que a política é mais evidente, a militância é de formiguinha, no dia a dia. Ela se mistura com as nossas atitudes e até se torna natural em nosso comportamento (como já apareceu por aqui, “assumir-se é um estilo de vida”). No “mundo real”, é fundamental que sejamos assumidos, que discutamos acerca das sexualidades LGBT e da homofobia com nossos amigos e conhecidos, que não nos deixemos discriminar, que exijamos nossos direitos sempre.


A crise da cultura gay monolítica – Parte 3

24 de agosto de 2009

No último texto, atribuímos à internet o papel de agilizadora da “explosão pós-moderna do sujeito” (como comentado pela Carolina e pelo Luan) no caso da comunidade LGBT: sites de relacionamento possibilitando críticas consistentes ao mainstream gay, seguidas de uma gaytificação (termo já utilizado anteriormente para definir a criação de um gueto gay, mas que eu emprego aqui especificamente para definir a guetificação dentro do gueto gay). A seguir, acompanhamos um pouco do debate dos ativistas, que parecem intrigados com o acontecimento, e enfim concluímos nossa trajetória, refletindo sobre os proveitos que podemos tirar da gaytificação.

Submundos

Acompanhei durante julho uma discussão interessantíssima entre colunistas de veículos LGBTs. Tudo começou com o artigo Take Back the Night, publicado na Out, em que Joshua David Stein disserta sobre como novas festas gays com o intuito de serem diferentes – uma delas inclusive com o slogan “uma festa gay para quem odeia festas gays” – têm surgido nos Estados Unidos. Vai além do óbvio, arriscando um significado para o fato: enquanto todos os tipos de pessoas – de indies a nerds gays – juntam-se formando grupos próprios cada vez mais numerosos, identificar-se como gay não é mais interessante ou útil como era. Nós podemos ter várias identidades simultaneamente. Na sua opinião, também, a internet agiu como propulsora da dissolução da vida gay noturna monolítica, unindo homossexuais por interesses comuns diferentes dos libidinosos.

Brian Moylan encara com certa melancolia essa dissolução. Na resposta ao texto de Stein, chamada Love of Gay Bars will Tear Us Apart, Again (algo como “O amor dos bares gays vai nos separar novamente”, em menção à música do Joy Division), diz:

Um dos maiores segredos da comunidade gay é que não existe uma comunidade gay. A população gay é feita de pequenas facções divididas por raça (sic), etnia, tipo físico, status sócio-econômico e se eles gostam ou não de um bom remix de dance. A única coisa que eles tinham em comum era ter de ir à mesma grande discoteca ao fim de semana atrás de drogas e sexo.

Não podemos deixar de considerar que, ao menos na primeira colocação, Moylan é muito feliz: a homogeneidade não é o forte da comunidade gay. Ele tem dificuldade, apenas, de enxergar que não é tão fácil, simples ou agradável para todas essas facções misturar-se. Em primeiro lugar, a utilização de drogas não é um interesse intrínseco a gays, e associá-los dessa forma é uma atitude preconceituosa. Em segundo, certamente todos os homossexuais precisam conhecer gente e fazer sexo, mas não necessariamente se sentem à vontade para isso em ambientes com música ensurdecedora. O colunista não tem o tato para perceber fenômenos como a raiva interna desenvolvida pelos gays diferentes e a dupla repressão sofrida por eles, e a reação de Zack Rosen, típico gay diferente e um dos fundadores do The New Gay, a esse texto foi furiosa:

Uma cultura baseada em sexo não é uma cultura. É uma necessidade compartilhada. (…) É importante notar que essas dissidências ainda são gays. Esses homens não abandonaram a nave mãe por uma festa de heavy metal onde eles terão, novamente, de esperar sinais positivos o suficiente para terem certeza que seu objeto de afeição não vai lhes dar um soco. Ao invés disso, eles fizeram o que os gays deveriam ter feito desde o início dos tempos: redimensionado o mundo em uma versão menor que fosse exclusivamente sua. Todos os bares, bairros e cafeterias gays são baseados nesse princípio.

Eu não acredito que seja o fim da “cultura gay”, mas o renascimento de uma cultura real, sem necessidade de definições, feita de homossexuais que agora podem ir atrás de seus interesses diversos sem ter de sacrificar sua sexualidade ou segurança. É uma coisa boa.

O discurso de Rosen não deixa de ser bonito, mas é contraditório em um aspecto: como se pode afirmar que uma cultura está nascendo quando na verdade seus integrantes estão cada um indo para o seu canto? Não seria melhor incutir a noção de efervescência de várias subculturas, todas gays?

Vimos três reações diferentes para a gaytificação: estranheza, melancolia e alívio. Cada qual observando a crise da cultura gay monolítica pela sua perspectiva, seja a de gay integrado ao esquema dos clubes noturnos ou de gay pertencente ao circuito alternativo. Será que, nos isolando em bares e fóruns para “gays que gostam de determinadas coisas” não vamos apenas alimentar discordâncias do gênero, nos degladiando ainda mais do que quando suprimidos dentro da mesma boate? O que, afinal, significa a gaytificação?

Vamos refletir um pouco.

O trecho abaixo é de um artigo que refere-se a um único gueto gay, mas acredito que não perca a validade no caso de suas diversas ramificações:

o “gueto” não somente amplia a oportunidade de encontrar parceiros e viver experiências sexuais, mas também pode contribuir decisivamente para reduzir os sentimentos de desconforto e culpa em relação à própria sexualidade, reforçar a auto-aceitação do desejo e, eventualmente, a disposição para “assumi-la” em âmbitos menos restritos.

Com certeza esse efeito positivo se potencializa nos grupos menores e ainda mais direcionados para públicos específicos. A lógica é que, encontrando semelhantes que encaram as mesmas dificuldades e têm os mesmos gostos, as pessoas sentem-se mais felizes e à vontade consigo mesmas. São inegáveis, por fim, os benefícios dessa fragmentação cultural.

Se Zack Rosen propõe que redimensionemos o mundo heterossexual, tão cheio de segregações mal-resolvidas, eu proponho que tentemos construir um ainda melhor. Se a tendência natural é nos separarmos em gays nerds, gays roqueiros, gays judeus, gays cristãos, gays indies e o raio que o parta, que o façamos sem comodismos, e de maneira consciente. Consciente de que sim, precisamos conhecer pessoas parecidas conosco, mas que respeitar os outros é sempre muito bom. E consciente, principalmente, de que se ainda precisamos do adjetivo “gay” antes dos nossos status, incapazes de nos integrarmos ao que seria o circuito nerd, roqueiro, judeu, cristão e indie do mainstream, é porque ainda tem muito a ser feito nesse mundo heteronormativo e preconceituoso.


A crise da cultura gay monolítica – Parte 2

17 de agosto de 2009

No texto anterior, falamos sobre o preço do espaço dos homossexuais na sociedade ter sido conquistado através da criação de um personagem caricato no imaginário social. A partir disso, vimos um pouco da dicotomia entre gays que se identificam com esse conjunto de práticas comportamentais conhecido como cultura gay e os que não se sentiam à vontade com ele, e a seguir veremos como muitos desses gays diferentes passaram a reagir às limitações e especificidades da cultura gay.

Minando Babel

Dos recentes capítulos da história da humanidade, indubitavelmente o que mais teve impacto sobre os homossexuais foi a popularização da Internet. Além de proporcionar vantagens óbvias como a agilidade na troca de informações, possibilitando um ativismo mais qualificado e efetivo, a rede trouxe novas perspectivas ao campo dos relacionamentos. Se antes, para os homossexuais se conhecerem, era preciso frequentar determinados lugares e se comportar de acordo com códigos internos que os identificavam, agora o contato estava a poucos cliques de distância.

O fato pode parecer pouco importante sob um primeiro olhar, mas tem consequências de proporções catastróficas sobre a noção comum de identidade cultural gay. Para as novas gerações não se fazia necessário mesclar-se à massa das boates para – tentar – conhecer gente interessante ou mesmo obter experiência sexual. Isso podia ser feito através de fóruns, de sites como o ManHunt, do Disponivel.com ou do próprio Orkut. E se por um lado facilitaram a permanência no armário de uma legião de supostos heterossexuais que têm toda uma vida secreta de promiscuidades patrocinada por chats e afins, por outro, as redes sociais uniram cabeças pensantes animadas em discutir a homossexualidade sob vários primas.

Era inevitável que, diante da troca de contatos comum à Internet, em algum momento os gays diferentes se encontrassem e constatassem suas (dis)semelhanças com a vida gay. Criada em 2002, a lista de e-mails e posteriormente grupo do Yahoo QUALM (Queers United Against Laughable Mainstream, algo como LGBTs unidos contra o mainstream patético) tinha como objetivo sediar conversas entre “pessoas que não se encaixam na cultura gay do mainstream, na cultura hetero do mainstream ou na contracultura hetero”. Ali, críticas eram feitas ao que era tido por cultura gay não só com o intento de denegrir, mas também de compreender com propriedade para poder sugerir novos caminhos.

Fruto dos debates do QUALM e de outras casualidades, nasce em meados de 2007 o site The New Gay. Definindo-se mais como movimento do que página virtual e com o slogan for everyone over the rainbow (“para todos além do arco-íris”), o TNG alega em sua apresentação querer estar fora da matriz estreita que padroniza culturalmente os homossexuais. Um recente texto do site nos explica melhor essa idéia:

Vamos primeiro esclarecer que ser gay e ser parte da cultura gay são duas coisas diferentes. Ser gay, queer ou lésbica significa que você se sente atraído por membros do mesmo sexo. Fazer parte da cultura gay significa que você aceita e interage com uma monolítica e específica cultura, composta em sua maioria por pessoas que são atraídas pelo mesmo sexo. Uma cultura que, diferentemente de outras culturas de minoria, não o aceita automaticamente (grifo meu). Você tem que entrar nela.

Infelizmente, pelo menos na minha experiência, não foi muito fácil entrar nessa cultura. Primeiramente, ela é muito masculina e branca. Se você é lésbica ou de cor, já tem algumas dificuldades para ser aceito dentro dessa grande cultura. E de qualquer forma, nem os rapazes brancos têm essa facilidade, necessariamente.

A comparação com outras culturas de minoria é feliz no sentido de nos fazer refletir: não deveríamos fazer parte de uma cultura que aceita automaticamente todo o grupo LGBT? Isso não seria muito melhor e mais saudável? E como fazê-lo, afinal de contas?

Os textos do TNG seduzem por sua enérgica aversão a categorizações e, de fato, muitas das postagens trazem discussões novas para a roda do ativismo. Mas se por um lado todos os textos de introdução à proposta parecem entusiasmantes, por outro, nota-se um viés bem cultural e bem próprio em seu conteúdo. As constantes postagens de indicações da cena indie nos remetem bem mais à elaboração de uma contracultura gay do que de fato num Novo Gay. Fica a incômoda sensação de que quem não gosta dos frequentemente criticados clubes noturnos, do consumismo e da sexualização teria como alternativa única o refúgio sob esse outro guarda-chuva, que por mais que diga lutar contra regras e limitações, especifica seus próprios critérios de seleção quando não só estabelece um gosto para os gays diferentes como repudia de forma quase preconceituosa os gays normais.

É consistente a análise a respeito de uma cultura monolítica e excludente, mas de nada adianta se ela antecede apenas mais um processo seletivo. De qualquer forma, a médio prazo, foi essa a solução encontrada por gays diferentes de todos os tipos que se identificavam de alguma maneira: a guetificação.

No próximo texto, entenda como vem ocorrendo esse fenômeno e como ele vem sendo recebido pela mídia e pela cultura gay monolítica, agora em lenta fragmentação.