Como um menino aprender a ser um homem

Esses dias eu relia uns posts do É bom pra quem gosta e encontrei uma indicação a esse texto aqui, que me agradou a ponto de me por a fazer uma tradução instantaneamente. A leitura é válida porque traz de modo informal a reflexão sobre esse tema tão complexo que é a performatividade do gênero.

Como um menino aprende a ser homem
Michael Kimmel*

Como ativista e pesquisador do tema da masculinidade, frequentemente me perguntam: onde é que ela começa? Como é que um menino aprende sobre a masculinidade? Embora as imagens da masculinidade nos cerquem, nos bombardeiem diariamente, foi apenas observando as experiências do meu filho Zachary que eu vi com tanta clareza como alguém chega a entender que a masculinidade é uma performance, uma pose, uma postura, como ela é extraída de nós e o preço psíquico e físico que isso exige.

Abaixo estão vinhetas de três momentos diferentes do processo.

1. 3 ANOS DE IDADE
Zachary gostava de jogar um jogo que chamamos de “opostos”. Você sabe como é: eu digo uma palavra, e ele me diz o contrário. É simples e divertido, e já jogamos bastante. Uma noite, minha mãe estava nos visitando e nós três estávamos caminhando no parque da vizinhança jogando Opostos. Áspero/suave, alto/baixo, rápido/lento – enfim, já deu pra entender. Então minha mãe perguntou: “Zachary, qual é o oposto do menino?”.

Meu corpo inteiro ficou tenso. “Lá vem”, eu pensei: Marte e Vênus, o sexo “oposto”, o gênero binário.

Zachary olhou para sua avó e disse: “Homem”.

2. 8 ANOS DE IDADE
Quando o oitavo aniversário de Zachary se aproximava, eu e sua mãe perguntamos qual tema ele queria para a festa. Nos dois últimos anos havíamos comemorado na pista de gelo local – a mesma onde ele joga hockey com seu time aos sábados pela manhã. Ele rejeitou a ideia. “Já fizemos isso antes, pai. Além disso, eu patino lá o tempo todo”.

Outros temas que outros meninos da turma tiveram recentemente – uma festa com atividades e brincadeiras, um jogo de futebol ou uma caça ao tesouro – foram sumariamente rejeitaidos. O que ele poderia querer?

“Uma festa de dança”, ele disse finalmente. “Com um globo espelhado”.

Eu e sua mãe nos entreolhamos. Perguntamos: “Dança? Mas Zachary, você só tem oito anos”. “Não, não estou falando de dança“, disse ele, fazendo aspas com as mãos. “Estou falando de coisas como Cotton Eyed Joe, Virginia Reel, Cha Cha Slide e outros jogos de dançar”.**

Assim fizemos então: uma festa dançante – para seus 24 amigos mais próximos (a escola incentiva que convidemos toda a turma). Com uma parcela igual de meninos e meninas.

Todas as doze meninas dançaram entusiasmadamente. “Essa é a melhor festa do mundo!”, disse Grace. As outras exclamavam em concordância.

Quatro dos garotos, incluindo Zachary, dançaram junto. Eles também estavam se divertindo bastante.

Quatro outros garotos chegaram, observaram a cena e imediatamente se dirigiram a uma parede, onde cruzaram os braços sobre o peito e se recostaram. “Eu não sei dançar”, disse um deles. “Eca”, disse o outro. Eles assistiram e eventualmente tentaram interromper a dança, parecendo zombar dos dançarinos enquanto se enchiam de petiscos e não aparentavam estar aproveitando a festa.

Outros quatro garotos começaram a tarde dançando alegremente, sem nenhuma pitada de vergonha. Mas aí eles viram os garotos encostados na parede. E um a um, pararam, se dirigiram à parede e observaram o restante.

Só que não dava pra manter a pose por muito tempo. Depois de ver as crianças fazendo passos de dança hilários eles voltavam atrás, dançando como demônios, apenas para depois parar, observar os meninos da parede e voltar para a mesma.

Da pista à parede eles foram a tarde toda, alternando entre o entusiasmo e o receio, entre dançar alegremente e observar com desgosto. Meu coração doía por eles enquanto eu observava seu impasse entre serem crianças ou rapazes.

Ou entre serem pessoas ou rapazes. Serem pessoas capazes de uma ampla gama de prazeres – de acabar com os rivais no placar do hockey e fazer aquela exclamação vitoriosa em que se fecha os punhos e se puxa o cotovelo pra trás a dançar a quadrilha com seus parceiros no Cotton Eyed Joe. Ou serem rapazes, para quem o prazer se define agora por tirar sarro da alegria dos outros.

Oscilando entre a masculindade infantil e a adulta, eles estavam fazendo escolhas, e dava pra perceber o quão agonizante era fazê-las. Eles odiavam ficar na parede, e lá permaneciam até não conseguir aguentar. Mas uma vez que voltavam à pista, estavam agudamente conscientes que eram agora objetos do ridículo.

Lembrei disso esses dias quando outro jornalista fez uma pergunta que provavelmente me fazem uma vez por semana, cada vez que um jornal ou revista “descobre” que os homens estão confusos sobre o que significa ser homem atualmente.

Esse é o preço que pagamos para ser homens: a supressão da alegria, da sensualidade e da exuberância. E a compensação é se sentir superior aos outros estúpidos que tem a audácia de se divertir.

Eu torço para que meu filho resista à parede e siga dançando como criança.

3. 10 ANOS DE IDADE
Enquanto Zachary e eu íamos à escola, fiz-lhe a mesma pergunta que costumo fazer aos jovens na universidade e nas escolas de ensino médio. “O que você acha que significa ser um homem?”.

Zachary pensou por um momento. “Engraçado, pai”, falou. “Nós estavamos falando sobre isso no time de futebol. Um dos meus colegas disse ‘quem se importa se você está machucado? Você tem de ser homem, ser forte o suficiente pra jogar mesmo com dor’. Então eu acho que significa ser forte”.

Alguns passos depois, ele parou de caminhar. Em um daqueles momentos bem familiares para qualquer pai ou mãe, ficou ali parado, tão perplexo que dava pra imaginar as engrenagens trabalhando dentro da sua cabeça. “Na verdade, pai”, ele disse, “eu acho que não significa ser forte. Eu acho que significa fingir ser mais forte do que você é”.

* Kimmel é sociólogo, professor na State University of New York e tem várias publicações na área das masculinidades. Além disso, é respresentante de uma organização norteamericana de homens contra o sexismo, o NOMAS.
** Nota de tradução: pesquisei no YouTube e são danças num estilo quadrilha ou Macarena que costumam fazer bastante nos colégios norteamericanos. Se bateu a curiosidade basta clicar nos links que coloquei ali e tentar fazer também.

15 respostas para Como um menino aprender a ser um homem

  1. […] This post was mentioned on Twitter by Patricia Nardelli, Bruno Garcia and Beatriz, Homomento. Homomento said: A implantação da masculinidade http://migre.me/3K5v9 […]

  2. FernandoP disse:

    Oi. Gosto muito dos teus textos — inclusive tuas traduções. Acho até que já elogiei o blog em outro post, mas, já que vim até aqui (sempre leio pelo feed RSS), aproveito pra renovar os elogios :-)
    Mas encontrei, acredito, um engano na tradução: “Outros quatro garotos começaram a tarde dançando alegremente, sem nenhuma pitada de autoconsciência.” (1. frase do 9. parágrafo da seção 2). No original está escrito “self-consciouness”, que geralmente escuto no sentido de “vergonha”, de “uma percepção de se estar errado em relação aos outros” — diferentemente de “self-awareness”, que vejo como sendo “ter consciência de si mesmo como indivíduo”. Enfim, gosto muito dos textos do blog! Até!

    • ah sim! muito obrigado, fernando! vou consertar agorinha. sabe como é, sempre acaba passando alguma coisa… :)

      e trate de comentar mais. volta e meia aparece um leitor falando “leio o blog há séculos mas só resolvi comentar agora”. é bom saber que não tô falando pras paredes, oras.

  3. Paula Mariá disse:

    A última frase do menino foi sensacional. Resumiu tudo. Aliás, tenho acompanhado o blog há algum tempo, gosto muito daqui.

  4. lu disse:

    que legal que você traduziu o texto! é lindo e merece ser lembrado e divulgado. valeu!

  5. Ricardo Aguieiras disse:

    Belo texto! antes, todos os pais pensassem como ele. O meu nunca me aceitou e morrerá me odiando, ora sutil e disfarçadamente, ora às explicitas. Infelizmente, o machismo (pai da homofobia) daqui do Brasil é mil vezes mais forte que relato desse pai e permeia sem descanso todas as relações e todas as fases da vida. Menino tem que gostar de futebol, começa aí e não para nunca. Bullying para gays aqui dura a vida toda e é como um filme de terror que não acaba nunca, sempre tem um próximo capítulo. Portanto, difícil a libertação. Mesmo gays que conseguem se assumir em um momento, mais tarde vão reproduzir o machismo, ao exigir a virilidade – mesmo que artificial e forçada – de seus parceiros e dentro do meio homossexual, onde ser afeminado é crime. Ok, sei que o texto falava de masculinidades e não de homossexualidades, mas vi aí algumas identificações e semelhanças na dor.
    Obrigado!
    Ricardo Aguieiras
    aguieiras2002@yahoo.com.br

  6. Tiago Aguiar disse:

    Sensacional o texto. Realmente nesta rápida sociedade em que os momentos se atropelam, o ser humano pouco tem a chance de se pensar.

    Minha família adotou duas crianças, que eram sobrinhos de minha mãe e passaram a ser tratados como filhos. Daniel, hoje com doze anos, ainda está se “desencostando da parede”.

    O texto me trouxe excelentes reflexões sobre a minha própria infância, e até sobre as reflexões de meu irmão. Muito inteligente e perspicaz.

    Saudações fraternas

  7. Rosana Oshiro disse:

    Primeira vez que visito seu blog, vim por um link do facebook e por achar o “tema” interessante.
    Gostei bastante dessa tradução.
    Vou compartilhar nas redes. ;)
    um abraço

  8. TAi disse:

    ATUALIZA!…por favor? =B
    Eu leio o blog a um bom tempo já. Adoro teus textos, concordo com muitas das tuas opiniões. Mas estou sentindo falta…
    Espero que volte a escrever em breve.
    bjos

  9. […] O presente texto foi originalmente publicado no sítio “Homomento” […]

  10. Tocar Violão disse:

    Concordo plenamento com o que está escrito, belo post

  11. Paola Giovana disse:

    Olá! é mesmo um post muito interessante. Com alguns exemplos factuais, nos mostra como a sociedade acaba segregando as práticas de gênero (inclusive quando determina que são práticas vinculadas a um determinado gênero e excluindo o outro) e fragmentando as identidades dos indivíduos. O garoto está certo: ser homem, nessa sociedade, é fingir ser mais forte do que realmente é, pois cada ser, homem ou mulher, tem a sua parcela de fragilidade e de força. Ser homem ou mulher de verdade, é seguir a sua essência, independente de ser ridicularizado socialmente.

  12. Pedro Witchs disse:

    Encontrei o blog agora e estou entusiasmado com a sua perspectiva, Pedro. Parabéns pelas poucas publicações suas que li até o momento.

  13. Moisés disse:

    Conheci sue blog faz pouco tempo também, tenho lido alguma coisa dele, parabéns pelas postagens. Como você também tenho um post com uma tradução de um texto do Kimmel, no caso do meu blog o texto é sobre bullying na escola e homofobia, dá uma olhada lá e me diz o que achou do texto, aproveito para divulgar também.
    http://antropoblogando.blogspot.com/
    Abraços

  14. excelente blog, parabéns, te conheci pelo twitter q me indicou seu perfil, já estou seguindo lá e prometo voltar aqui sempre.

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