O caso Holmes: um comentário

13 de janeiro de 2010

O bafafá das últimas semanas foi o comentário do Robert Downey Jr, durante a divulgação do filme Sherlock Holmes: que o detetive e seu auxiliar Watson poderiam ter entre si uma relação maior que a simples amizade. Convivência excessiva, uso mútuo de roupas um do outro e o compartilhamento de uma cama foram as pistas apontadas pelo ator. A mera possibilidade dos próximos filmes da franquia lidarem com essa temática deixou os detentores dos direitos da personagem de cabelo em pé: em nome da “fidelidade ao livro”, mas com um cheirinho de heteronormatividade, ameaçaram o estúdio de retirar a concessão dos copyrights caso tal heresia fosse cometida.

Downey Jr. no Letterman: o início da polêmica

Essa argumentação foi muito questionável porque bom, adaptação é adaptação. Já implica infidelidade porque literatura é diferente de cinema, e porque os roteiristas certamente quiseram fazer do filme algo minimamente comercial. Os trailers fazem parecer um blockbuster de ação, e não uma película de suspense e mistério. Vejam vocês mesmos.

Uma postagem do blog da Época Mulher 7×7 me fez abrir os olhos pra outra questão: um Holmes musculoso e supramasculino não foi motivo de estranhamento e comentários na imprensa. Por mais que essas características distoem das idealizadas por Sir Doyle, não parecem incomodar ninguém. E versão gay é subversão da arte? Ok então.

Um texto do Womanist Musings coloca muito bem que poxa, um Holmes gay não utilizaria o pênis para investigar ao invés da clássica lupa, sabe. Não seria tão diferente porque enfim, gays não são diferentes das outras pessoas. É todo aquele bla bla bla de sempre: sem representatividade, nunca alcançaremos um status de normalidade.

O Cavalcanti se questionou no 23B se essa história não é decorrente de uma febre gay, uma homomoda. Porque, lembremos, nunca houve um Holmes gay. Esse debate todo se deu em torno de um comentário de Robert Downey Jr no programa do David Letterman. Não acho que seja uma moda, mas sei lá, porque uma coisinha de nada tem que deixar todo mundo tão histérico? Fecho os olhos e imagino, com prazer, o impacto que teria um filme com um superman gay.

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Colaboração do leitor: Heteronormatividade e Subculturação

28 de agosto de 2009

Ao fim do esforço para coletar informações, pensar sobre elas e escrever a saga “A crise da cultura gay monolítica”, recebi como recompensa o melhor presente possível: um contraponto. O leitor Paulo Simas, em seu comentário, trouxe uma elaboração muito bem argumentada para afirmações bastante diferentes das que postei aqui nas últimas semanas.

Solicitei, então, a autorização do Paulo para postar o comentário como colaboração independente, tirando-o da marginal caixinha de comentários e trazendo-o para o lugar merecido: o de destaque. Espero que a experiência de repostagem do comentário enriqueça a discussão que procurei suscitar e desperte nos demais leitores a vontade de também participar do Homomento, mandando colaborações, sugestões e contrapontos. Porque relações de uma só via são sempre muito tediosas, não acham?

Heteronormatividade e Subculturação

por Paulo Simas

Li com muita atenção a excelente série de textos “A crise da cultura gay monolítica”, que entendo como um convite ao debate. Tomo a liberdade, portanto, de participar.

Pergunto, primeiro, se podemos falar em uma “cultura gay”. Creio que não. O termo mais preciso, a meu ver, é “subcultura gay”, visto que se trata de um conjunto de significados, crenças e comportamentos que não se sobrepõe à cultura heteronormativa, que é majoritária e muito mais abrangente. Mesmo os homossexuais são educados sob essa cultura e alguns ainda têm dificuldade de questioná-la – muito relacionamentos entre homens, por exemplo, ainda são baseados no modelo bicha/bofe, em que um dos parceiros reproduz o estereótipo de masculinidade e o outro, de feminilidade.

Distinguir “cultura gay” de “subcultura gay” não é frescura minha. Quando falamos em subcultura resgatamos uma característica fundamental dela: seu caráter de resistência, de desafio. Só existe uma subcultura gay porque existe uma cultura heteronormativa que pune e reprime qualquer manifestação cultural contrária às regras. É importante ressaltar isto: o fato de existir uma subcultura gay se deve muito mais à heteronormatividade do que aos próprios gays. Não fosse a necessidade de criar espaços livres de repressão, provavelmente não existiram as boates, os clubes de sexo e outros ambientes que ficaram marcados como “tipicamente gays”, por exemplo.

Como se vê, a subcultura gay, entendida como a possibilidade de um grupo minoritário criar sua própria versão do mundo, é algo libertador. O que oprime os gays “desajustados” é a necessidade de fazer parte de uma maioria, de qualquer maioria. A subcultura gay não é uma só. Existem as subculturas da subcultura. Não é preciso ir muito longe para descobrir isso e a internet ajuda muito a encontrar diversas formas de manifestação da homossexualidade: barbies, rockers, ursos, nerds, drags etc. O problema é que muitos homossexuais se ressentem por não fazerem parte da subcultura gay aceita pela maioria das pessoas como a única e verdadeira.

Essa subcultura gay teoricamente genuína nada mais é do que a forma como a heteronormatividade enxerga a homossexualidade. Gays musculosos, consumistas, hedonistas e drogados existem, claro. Mas só viraram norma na cabeça dos heterossexuais – e de alguns homossexuais desavisados. Em sociedades complexas, onde várias subculturas coexistem, a cultura normativa cria estereótipos para poder lidar com a diversidade. Algumas vezes, eles são positivos: gays têm bom gosto, negros envelhecem em melhores condições, judeus são bons empresários. Outras vezes, são negativos: gays são fúteis, negros são intelectualmente inferiores, judeus são avarentos.

Num dado momento histórico, é verdade, os próprios homossexuais se encarregaram de desenvolver a noção de subcultura gay uniforme ou monolítica, como o autor dos textos muito bem nomeou. Mas era uma estratégia política, uma forma de sobreviver e ganhar visibilidade. Foi assim nos anos 70 e nos anos 80, nesta última época principalmente por causa da epidemia de AIDS. Nesses períodos certamente coexistiam vários embriões de subculturas gays além daquela valorizada pela militância do Rio e de São Paulo. Já existiam os gays góticos e os gays punks, por exemplo. Eles só não se organizavam em grupos e dividiam suas crenças porque sequer se enxergavam como homossexuais, já que assumir essa identidade significava aderir automaticamente a um certo “estilo de vida”.

Essa subcultura gay urbana e de classe média chegou aos anos 90 e encontrou no nascente mercado gay um aliado. Grandes marcas transformaram os homossexuais em um nicho de mercado. Qualquer homossexual? Claro que não: só aquele branco, de classe média, morador de grandes cidades, de gosto cultural refinado, hedonista etc. Ou seja, o típico indivíduo adepto da subcultura gay. Essa adesão do marketing à subcultura gay, usando e abusando dos estereótipos, é um indício de que existe um modelo de homossexual esperado e até desejado pela heteronormatividade. Basta ver os personagens de novelas e os anúncios em revistas para saber o que os heterossexuais esperam do homossexual “típico”. Os homossexuais “desajustados”, por sua vez, acabam não se reconhecendo nesse modelo de homossexual aperfeiçoado pelas brilhantes mentes de nossos publicitários.

Mas vejam: gays não são os únicos a sofrer com isso. Esse procedimento é adotado com todas as minorias sociais e subculturas existentes. Ou alguém acha que todas as mulheres gostam dos programas de culinária da TV? Ou que todos os jovens negros gostam de hip hop? É claro que não. Mas esses são os lugares e os papéis reservados pela cultura majoritária às mulheres e aos jovens negros. Quem ousa agir diferente pode receber a reprovação e o estranhamento – exatamente o que acontece com os gays que não se ajustam ao que a cultura heteronormativa considera como sendo a genuína e legítima subcultura gay.

Se ela está em crise? Entre os heterossexuais, aposto que não. A imensa maioria da população brasileira continua acreditando que gays são seres que, por terem optado por uma vida de hedonismo absoluto, são incapazes de constituir família, de criar crianças. De tão forte, essa crença impede qualquer avanço legal que garanta os direitos civis a homens e mulheres que amam pessoas do mesmo sexo. A noção de “cultura gay monolítica” por parte da heteronormatividade continua de pé, talvez mais forte do que nunca.

Mas ela está em crise, sim, entre os gays, que cada vez menos acreditam que de fato exista uma “cultura gay monolítica”. Com as mudanças trazidas pela internet – e nisso o artigo do Homomento é preciso –, estamos descobrindo as diversas subculturas gays possíveis. E que só são possíveis porque a militância, lá atrás, usou a identidade homossexual monolítica como estratégia política, relativizando a discriminação. Porque é graças ao pioneirismo e à coragem das drags, dos gays dândis e de toda a galera das décadas de 70 e 80, que hoje é possível assumir-se gay sem pagar um preço muito alto por isso (pelo menos nos centros urbanos, claro).

Graças às conquistas do movimento homossexual e a outros fenômenos sociais e culturais que não convém abordar agora, hoje é possível combinar diversas identidades sem ter que aderir integralmente a nenhuma delas: o sujeito é gay, nerd, umbandista, punk, nordestino, tudo junto, tudo com seu devido valor na constituição do indivíduo. Dessa combinação emergem infinitas subculturas gays, infinitas formas de se reconhecer e ser reconhecido como homossexual.

Essas infinitas subculturas gays sempre tiveram potencial para existir, mas eram limitadas pela impossibilidade de pessoas encontrarem outras pessoas com os memos interesses. Com as novas tecnologias, é fácil encontrar quem compartilhe os mesmos significados, crenças e comportamentos conosco. Antes, buscávamos alguém que correspondesse a apenas um desses aspectos: a atração sexual e afetiva por pessoas do mesmo sexo. Era o que dava para conseguir em sociedades tomadas pela homofobia estatal, pela culpa religiosa, pelo patrulhamento da vizinhança. Com a internet, todas as cidades do mundo ganharam o que antes só era possível nas metrópoles: anonimato e pluralidade. E mesmo os habitantes da cidade grande ganharam ferramentas que facilitaram a socialização e a formação de grupos por pessoas que têm afinidades.

Tudo isso para dizer aos gays “desajustados”: parem de se lamentar e aproveitem as múltiplas interações sociais e culturais que são possíveis hoje em dia. E não se importem com o estereótipo, porque ele é o ônus de ser minoria. Por mais “comum” que você seja, basta um beijo em alguém do mesmo sexo para que todos os lugares-comuns sobre gays se apliquem automaticamente a você. São assim que as coisas funcionam, e a culpa definitivamente não é dos homossexuais. Não acreditem na heteronormatividade, duvidem do mercado gay. Nós não podemos aderir a essa visão estreita de mundo. Que a cultura gay monolítica só sobreviva na cabeça dos heterossexuais monolíticos.