Como um menino aprender a ser um homem

25 de janeiro de 2011

Esses dias eu relia uns posts do É bom pra quem gosta e encontrei uma indicação a esse texto aqui, que me agradou a ponto de me por a fazer uma tradução instantaneamente. A leitura é válida porque traz de modo informal a reflexão sobre esse tema tão complexo que é a performatividade do gênero.

Como um menino aprende a ser homem
Michael Kimmel*

Como ativista e pesquisador do tema da masculinidade, frequentemente me perguntam: onde é que ela começa? Como é que um menino aprende sobre a masculinidade? Embora as imagens da masculinidade nos cerquem, nos bombardeiem diariamente, foi apenas observando as experiências do meu filho Zachary que eu vi com tanta clareza como alguém chega a entender que a masculinidade é uma performance, uma pose, uma postura, como ela é extraída de nós e o preço psíquico e físico que isso exige.

Abaixo estão vinhetas de três momentos diferentes do processo.

1. 3 ANOS DE IDADE
Zachary gostava de jogar um jogo que chamamos de “opostos”. Você sabe como é: eu digo uma palavra, e ele me diz o contrário. É simples e divertido, e já jogamos bastante. Uma noite, minha mãe estava nos visitando e nós três estávamos caminhando no parque da vizinhança jogando Opostos. Áspero/suave, alto/baixo, rápido/lento – enfim, já deu pra entender. Então minha mãe perguntou: “Zachary, qual é o oposto do menino?”.

Meu corpo inteiro ficou tenso. “Lá vem”, eu pensei: Marte e Vênus, o sexo “oposto”, o gênero binário.

Zachary olhou para sua avó e disse: “Homem”.

2. 8 ANOS DE IDADE
Quando o oitavo aniversário de Zachary se aproximava, eu e sua mãe perguntamos qual tema ele queria para a festa. Nos dois últimos anos havíamos comemorado na pista de gelo local – a mesma onde ele joga hockey com seu time aos sábados pela manhã. Ele rejeitou a ideia. “Já fizemos isso antes, pai. Além disso, eu patino lá o tempo todo”.

Outros temas que outros meninos da turma tiveram recentemente – uma festa com atividades e brincadeiras, um jogo de futebol ou uma caça ao tesouro – foram sumariamente rejeitaidos. O que ele poderia querer?

“Uma festa de dança”, ele disse finalmente. “Com um globo espelhado”.

Eu e sua mãe nos entreolhamos. Perguntamos: “Dança? Mas Zachary, você só tem oito anos”. “Não, não estou falando de dança“, disse ele, fazendo aspas com as mãos. “Estou falando de coisas como Cotton Eyed Joe, Virginia Reel, Cha Cha Slide e outros jogos de dançar”.**

Assim fizemos então: uma festa dançante – para seus 24 amigos mais próximos (a escola incentiva que convidemos toda a turma). Com uma parcela igual de meninos e meninas.

Todas as doze meninas dançaram entusiasmadamente. “Essa é a melhor festa do mundo!”, disse Grace. As outras exclamavam em concordância.

Quatro dos garotos, incluindo Zachary, dançaram junto. Eles também estavam se divertindo bastante.

Quatro outros garotos chegaram, observaram a cena e imediatamente se dirigiram a uma parede, onde cruzaram os braços sobre o peito e se recostaram. “Eu não sei dançar”, disse um deles. “Eca”, disse o outro. Eles assistiram e eventualmente tentaram interromper a dança, parecendo zombar dos dançarinos enquanto se enchiam de petiscos e não aparentavam estar aproveitando a festa.

Outros quatro garotos começaram a tarde dançando alegremente, sem nenhuma pitada de vergonha. Mas aí eles viram os garotos encostados na parede. E um a um, pararam, se dirigiram à parede e observaram o restante.

Só que não dava pra manter a pose por muito tempo. Depois de ver as crianças fazendo passos de dança hilários eles voltavam atrás, dançando como demônios, apenas para depois parar, observar os meninos da parede e voltar para a mesma.

Da pista à parede eles foram a tarde toda, alternando entre o entusiasmo e o receio, entre dançar alegremente e observar com desgosto. Meu coração doía por eles enquanto eu observava seu impasse entre serem crianças ou rapazes.

Ou entre serem pessoas ou rapazes. Serem pessoas capazes de uma ampla gama de prazeres – de acabar com os rivais no placar do hockey e fazer aquela exclamação vitoriosa em que se fecha os punhos e se puxa o cotovelo pra trás a dançar a quadrilha com seus parceiros no Cotton Eyed Joe. Ou serem rapazes, para quem o prazer se define agora por tirar sarro da alegria dos outros.

Oscilando entre a masculindade infantil e a adulta, eles estavam fazendo escolhas, e dava pra perceber o quão agonizante era fazê-las. Eles odiavam ficar na parede, e lá permaneciam até não conseguir aguentar. Mas uma vez que voltavam à pista, estavam agudamente conscientes que eram agora objetos do ridículo.

Lembrei disso esses dias quando outro jornalista fez uma pergunta que provavelmente me fazem uma vez por semana, cada vez que um jornal ou revista “descobre” que os homens estão confusos sobre o que significa ser homem atualmente.

Esse é o preço que pagamos para ser homens: a supressão da alegria, da sensualidade e da exuberância. E a compensação é se sentir superior aos outros estúpidos que tem a audácia de se divertir.

Eu torço para que meu filho resista à parede e siga dançando como criança.

3. 10 ANOS DE IDADE
Enquanto Zachary e eu íamos à escola, fiz-lhe a mesma pergunta que costumo fazer aos jovens na universidade e nas escolas de ensino médio. “O que você acha que significa ser um homem?”.

Zachary pensou por um momento. “Engraçado, pai”, falou. “Nós estavamos falando sobre isso no time de futebol. Um dos meus colegas disse ‘quem se importa se você está machucado? Você tem de ser homem, ser forte o suficiente pra jogar mesmo com dor’. Então eu acho que significa ser forte”.

Alguns passos depois, ele parou de caminhar. Em um daqueles momentos bem familiares para qualquer pai ou mãe, ficou ali parado, tão perplexo que dava pra imaginar as engrenagens trabalhando dentro da sua cabeça. “Na verdade, pai”, ele disse, “eu acho que não significa ser forte. Eu acho que significa fingir ser mais forte do que você é”.

* Kimmel é sociólogo, professor na State University of New York e tem várias publicações na área das masculinidades. Além disso, é respresentante de uma organização norteamericana de homens contra o sexismo, o NOMAS.
** Nota de tradução: pesquisei no YouTube e são danças num estilo quadrilha ou Macarena que costumam fazer bastante nos colégios norteamericanos. Se bateu a curiosidade basta clicar nos links que coloquei ali e tentar fazer também.

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Caio, o amigo gay da Tina

16 de novembro de 2009

No começo desse ano o criador da Turma da Mônica, Mauricio de Sousa, deu uma interessante entrevista para a Veja. Nela, o quadrinista fala sobre a abordagem de temas mais sérios – como o divórcio, por exemplo – nos seus gibis, seja nos clássicos da Mônica e companhia ou no recente Turma da Mônica Jovem. Quem lê o Homomento já viu meus elogios à Adriana Calcanhotto por tratar crianças com naturalidade e meu recente apelo para uma educação sexual problematizadora: fica até redundante dizer o quanto simpatizei com o seguinte trecho da entrevista.

Acontece que nas casas de hoje se pode conversar sobre tudo: sexo, drogas, violência. Se o pai não puxa esses assuntos, o filho de 5 anos faz isso por ele. É preciso parar de tratar as crianças como seres inferiores, sem senso crítico, sem experiência de vida. Tudo pode virar tema. Não é preciso censurar, apenas deve-se tomar cuidado para usar uma linguagem correta.

O discurso é bonito, mas não paremos por aqui. No restante da entrevista, Mauricio conta como os pais da personagem Xaveco se divorciaram e a situação foi sutilmente introduzida nas histórias, não havendo nenhum caso de reclamação por parte dos pais. Elogios à parte, é necessário lembrar que estamos bastante aquém do tempo em que divórcio era causa para polêmica: não deixa de ser até bastante atrasada essa abordagem do autor. O modus operandi dele fica bem claro em outro momento da entrevista – justamente no que tange à homossexualidade.

Tem gente pedindo para eu criar um personagem gay. Esse tema ainda é muito novo. Mas eu sei que, no futuro, se essa tendência continuar, será natural ter um homossexual na Turma. No meu estúdio, digo que não devemos levantar uma bandeira e ir à frente de uma passeata. Devemos segurar a bandeira quando ela já está passando. Precisamos falar a língua do dia e da hora, mas tomando certos cuidados. Foi com essa fórmula que construí minha carreira.

Mais recentemente, em sua participação no Roda Viva, reiterou, como nos conta o ACapa: “[Personagem gay, só] quando a sociedade estiver, toda ela, aceitando e preparada para isso”.

Poderíamos fazer uma pausa para questionar um pouco as colocações (quando, afinal, a sociedade vai estar TODA pronta e preparada para isso?), mas não é para lembrar dessas declarações que estou escrevendo a postagem. É para falar do novo personagem do gibi da Tina: o Caio.

A primeira aparição do Caio foi no número 6 da revista da Tina, pela editora Panini, lançada em novembro de 2009. O blog Cultureba alerta na manchete – “Caio, o primeiro personagem gay de Mauricio de Sousa”. Sem acesso ao gibi, fui procurar, muito curioso, mais referências à tal história. O Cada um no seu quadrinholança um balde d’água, explicando que fica tudo meio implícito.

Pelo que entendi, a história é mais ou menos assim: a Tina marca um encontro com um amigo misterioso e o namorado dela fica morrendo de ciúmes no decorrer da história. No final, ela apresenta o Caio pro namorado e dá um discurso sobre como é comum homens e mulheres terem amizades sem segundas intenções. O tal Caio ainda arremata, dizendo que é comprometido e dando a entender que é com um rapaz que está presente. Confiram o tal quadrinho, escaneado pelo Cena G.

Como nos conta a Folha, “o assessor afirma que a história não pretendeu ser categórica no lançamento de um personagem gay. Ele levanta até a possibilidade de que ele seja bissexual, no entanto. Ele também assegura que a história e o personagem terá a devida continuidade e encaminhamento”.

Não sei até que ponto a personagem não foi criada pra agradar quem estava pressionando ou até que ponto ela está lá por tratar-se de uma revista de aparente menor visibilidade, mas devo admitir que fiquei positivamente surpreso. Até onde eu sei a questão homossexual está pegando fogo atualmente, então não deixa de ser uma afronta ao próprio método pouco corajoso do Mauricio de falar dos assuntos só depois da discussão em torno deles se abrandar.

Eu poderia até reclamar aqui do quão mal esclarecida está a situação de homossexualidade ali (as velhas migalhas que nos dão nas hqs para ficarmos quietinhos), mas prefiro esperar para ver o direcionamento da história do Caio, por se tratar do gênero infantil, que tem um monte de particularidades. Um pouco de otimismo não faz mal a ninguém, não é? Ou vocês acham que estou encarando com bom humor demais?


Educação sexual: um instituto necessário

11 de novembro de 2009

O estouro da AIDS nas décadas de 1980 e 90 fez com que a sexualidade tivesse de ser abordada com seriedade, e em âmbito nacional, no Brasil. Canais de televisão, campanhas publicitárias e panfletos informativos necessitavam, por uma questão de saúde pública, informar a população a respeito da nova doença. Ao mesmo tempo que se diz sensualizado e vende essa imagem para o exterior, o brasileiro, no entanto, tem sérias dificuldades para lidar com seu sexo, acabando por instaurar uma visão moralista e culpabilizadora do HIV e das relações sexuais de modo geral.

Foi essa perspectiva que adentrou o espaço educacional recente: Uma educação sexual que alertou a respeito dos males do sexo em tom de ameaça, reproduzindo para jovens o discurso que corria solto no país. Progressivamente, com o tempo, o clima se abrandou e os os tons se alteraram, fazendo da palestra escolar com o sexólogo um momento mais científico do que qualquer outra coisa.

Ainda assim, acredito que não só a atual abordagem educacional para a sexualidade é insatisfatória como noto que os ensaios de avanço nesse campo têm sido bombardeados por críticas diversas. Quis, por isso mesmo, dissecar um pouco algumas prerrogativas famosas no que diz respeito à educação sexual. Se você tem interesse pela discussão, convido-o à leitura.

“Educação sexual é falar de sistema reprodutivo, camisinha, anticoncepcional, etc.”

Sim, educação sexual é falar de sistema reprodutivo, camisinha, anticoncepcional, etc. É essencial que se conheça o corpo e suas funções, a origem dos impulsos sexuais e, o mais importante, que se valorize o sexo seguro. Mas não, educação sexual não é isso.

Por sexualidade não se compreende apenas o ato sexual em si, mas uma interação humana cheia de significados culturais. É nessa interação que vão se manifestar e perpetuar, também, convenções sociais como o machismo, a misoginia, a homofobia. O educador que apenas transmite a informação – “esse órgão encaixa naquele”, “use camisinha” – não se preocupa com a maneira como o aluno vai lidar com ela, e em um contexto em que a mídia é altamente sexualizada e que a pressão social para se iniciar a vida sexual cedo é cada vez maior, é necessário o mínimo esclarecimento.

A sexualidade, quando mal desenvolvida, pode se tornar um grande problema na vida de uma pessoa. Noções equivocadas e parciais de gênero e identidade sexual geram preconceitos, seja em relação ao outro ou a si próprio. Querendo ou não, antes de chegar à escola o aluno já tem a sua cultura sexual – que pode ser baseada na combinação das referências (ou omissões) de seus pais ao assunto com as referências que a mídia e os amigos lhe trouxeram. Isso nos remete à visão do professor como mediador entre o conhecimento prévio do aluno e o conhecimento erudito que está no programa. É necessário, dessa forma, problematizar a educação sexual: ir além da reprodução do biodiscurso.

“A educação sexual vai depravar a criança e macular a inocência infantil”

Importante colocar que a questão aqui não é adiantar ou retardar a presença das relações sexuais na vida do aluno, através de estímulos ou represálias. É lidar com a sexualidade, ponte cultural entre o social e o biológico, da maneira mais saudável possível para o crescimento individual.

Independente do contexto de sua criação, todo ser humano agrega, ao longo da infância, valores ligados à sexualidade. No caso da nossa sociedade ocidental, qualquer menina sabe já aos 4 anos de idade, por exemplo, que meninas gostam de cor de rosa, de brincar com bonecas e de determinados desenhos animados. A identidade de gênero, que posteriormente vai dialogar com uma identidade sexual, já está sendo estabelecida até mesmo antes da criança nascer, quando os pais escolhem a cor das roupas de acordo com o sexo do bebê.

Educar sexualmente significa não pré-estabelecer comportamentos adequados para feminino ou masculino; ajudar a criança a crescer de maneira natural e saudável, orientando-a à valorização do que é bom e correto para um ser humano a fazer, e não a associações de conduta por gênero. Vamos trabalhar com exemplos: ao invés de dizer que “meninas devem ser delicadas e estar sempre arrumadas”, estimular a boa educação e a autohigiene; ao invés de dizer que “meninos têm de ser durões e não podem chorar”, deixar claro que é sempre bom respeitar e ser respeitado. Surpreendentemente, isso faz parte do todo de uma educação sexual. E surpreendentemente, um menor estímulo à autoafirmação da identidade de gênero pode sim levar as crianças a serem até menos sexualizadas – justamente por não estarem sendo pressionadas a se preocupar com essas questões.

Em suma, com uma educação preocupada com a questão da sexualidade, a escola pode se tornar inimiga da mídia sexualizada e sexualizadora, como catalisadora de todo o conhecimento equivocado que a criança pode trazer de suas experiências prévias. E cumprir, assim, seu papel essencial: o de educar.

“A educação sexual vai disseminar a homossexualidade”

É sabido que o ambiente escolar ainda é bastante hostil às crianças e adolescentes que apresentam comportamento adverso ao atribuído ao seu gênero – para não falar do já constatado preconceito com os professores gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros. Uma reportagem da Agência Brasil de julho de 2009, realizada no Distrito Federal, conta que não só a discriminação é violenta como afeta o desempenho dos alunos, chegando muitas vezes a afastá-los da sala de aula. Faz-se urgente a necessidade de estimular a aceitação, tanto de dentro do aluno como de fora, vinda dos colegas: falar, nas escolas, que a sexualidade pode ter caráteres diversos e que não há nada de errado nisso.

Quando se fala na abordagem da diversidade de identidades sexuais em ambiente escolar, a questão é: será que uma relação liberal desses assuntos vai estimular as crianças a se identificarem como homossexuais? Sem a convenção da heterossexualidade como o “certo”, as sexualidades infantis vão se confundir e “desviar”? Para responder essa pergunta, precisamos considerar alguns pontos.

A “origem” da homossexualidade é assunto para controvérsia. Ciências naturais como a biologia e a psicanálise têm tentado explicar, através da genética e de traumas infantis, sua recorrência, mas os estudos nessa área mostram-se duvidosos ou pouco verificáveis. Os avanços das ciências humanas no estudo da sexualidade apontam para uma distinção entre sexo, como propriedade e objeto de estudo das exatas, e sexualidade, como área propriamente humana e cultural. Dessa maneira a origem da identidade de gênero e o comportamento sexual, se sujeitada à metodologia das exatas, só poderia gerar resultados insatisfatórios.

Uma das únicas certezas em relação aos homossexuais advém dos estudos de Kinsey (1949), que apontam para a estimativa de que 4 a 14% da população, independente de seu contexto, teria comportamento homossexual. Pesquisas recentes alteram os números para 1 a 20%. Até hoje os números se confirmam: o censo de 2009 dos Estados Unidos aponta para 10% da população como homossexual, enquanto no Brasil uma pesquisa de 2009 do Ministério da Saúde sobre o comportamento sexual do brasileiro revela que 10% dos homens entrevistados já teve relações com membros do mesmo sexo e que 5,2% das mulheres também o teve. Percebe-se que, mesmo comparando os Estados Unidos e o Brasil, países bem díspares no que diz respeito ao reconhecimento institucional da homoafetividade, os números persistem. Outra estimativa interessante realizada por um grupo de apoio para filhos de casais homossexuais diz que apenas 10% das crianças criadas em ambiente familiar gay tende a também sê-lo. Assim, seja em ambiente majoritariamente homo ou heterossexual, a porcentagem de Kinsey se repete.

Abordar a diversidade sexual na escola não significa estimulá-la ou tampouco proferir um discurso demagogo sobre como não devemos ser preconceituosos. Não é querer subverter a normatividade hetero para uma homossexual. É, sim, inserir um questionamento a respeito de gêneros, identidades e papéis no mundo em que vivemos. É preparar o aluno para se deparar com a realidade que está lá fora, que não é a dos 90% heterossexuais nem a dos 10% homossexuais, mas a de todo o conjunto social. Torná-lo não tolerante com as diferenças – pois a tolerância admite, não compreende -, mas percebedor das igualdades.

Uma conclusão: se um só quer, todos não fazem

Acredito que um projeto de educação sexual só vá fazer total sucesso se inserido em um contexto favorável, em que Estado, família e meios de comunicação ajam em conjunto no combate às idéias equivocadas de sexo e sexualidade. É natural que, caso ilhada em ambiente preconceituoso, qualquer iniciativa com uma nova proposta de abordagem dessa temática vá encontrar reprovação e mesmo indignação alheia. Para evitar isso seria necessário que o Estado reconhecesse institucionalmente todas as sexualidades, que se realizassem mais políticas públicas favoráveis à igualdade de gênero e que a mídia abordasse essas questões com mais responsabilidade. Por isso faz-se necessária não apenas essa nova educação sexual, dentro da escola, como também todo um trabalho reivindicatório fora dela, na busca por uma sociedade que lide com sua sexualidade não como normatizadora de regras comportamentais, separada em categorias identitárias, mas como o que ela verdadeiramente representa: um caminho para alcançar tanto a reprodução humana quanto o simples prazer físico.


Adriana, Alexandre e as crianças

6 de outubro de 2009

No fim da semana passada a lésbica assumida Adriana Calcanhotto lançou a continuação do seu projeto infantil Adriana Partimpim, intitulado Partimpim Dois. Gravado meio às pressas para ser lançado a tempo do Dia das Crianças, o disco segue a proposta do trabalho inicial, com repertório diverso (de Villa-Lobos a Bob Dylan) e arranjos muito criativos.

adrianapartimpim

A canção Alexandre, lançada originalmente em 97 por Caetano Veloso, foi regravada nesse Partimpim Dois. A faixa quilométrica (seis minutos de uma letra que pouco se repete) conta com palavras nada simples a história de Alexandre, o Grande. E, sem papas na língua, faz referência a Hefestião, o amor masculino do Rei da Macedônia.

Com Hefestião, seu amado
Seu bem na paz e na guerra,
Correu em honra de Pátroclo
– os dois corpos nus –
Junto ao túmulo de Aquiles, o herói enamorado, o amor

Está certo que, como mencionei, Alexandre tem uma letra complexa que provavelmente não vai ser decorada por todas as crianças. Mas não podemos ignorar que ela está lá, e que Adriana Partimpim é de fato um sucesso entre os infantes. A resposta da Adriana quando indagada a esse respeito foi que “boa parte do público do CD é filho de dois pais, duas mães”. A declaração foi legal no sentido de mencionar gays sem precisar levantar bandeira, mas Alexandre não é importante só para esses filhos de casais diferentes.

O segredo do sucesso da Partimpim, na minha opinião, não é o fato de ela ser o alterego de uma superestrela da MPB. Além do óbvio talento, creio que é a naturalidade dela, simplesmente, que faz o material ser objeto de curiosidade para os menores e deleite para os maiores. Nas palavras da própria:

Não gosto do termo “pureza” para pensar crianças. Aliás, para pensar nada. As crianças têm todos os elementos humanos. São perversas, amorosas… e não são iguais entre si. Não me relaciono com elas como uma entidade única.

Conversar com crianças não é conversar com débeis, é apenas lidar com pessoas de inteligência diferenciada, em desenvolvimento. Sem soar amarga, a Partimpim já ensinou a várias crianças, no hit Saiba, que todo mundo um dia morre. Agora, ao contar a história de uma figura que hora ou outra vai ser ensinada nas escolas, ela insere espontaneamente o seu relacionamento com uma pessoa do mesmo sexo.

Adriana, sobre a canção Alexandre: É sobre um menino que desejava algo altíssimo para sua vida. Acho bom que crianças conheçam a história de um menino assim.

Alexandre, o Grande

Com muita sutileza, Adriana fez sua parte no trabalho de formiguinha que é a construção de um mundo menos preconceituoso para se viver. Infelizmente, porém, não acredito que os Partimpins tenham alcance para formar o futuro, ao contrário dos discos de certas cantoras que continuam tratando os baixinhos com baixeza. Paciência. Esperemos que, futuramente, a Geração Partimpim faça-se ouvir ante a Geração X.

* Esse é o centésimo post do Homomento. Agradecemos o apoio dos leitores, que carinhosamente têm comentado nos textos e nos dado RTs no Twitter. Muito trabalho feito e muito por fazer!

** ERRATA: reconheço que a Adriana não é exatamente assumida, e minha intenção ao lembrar esse fato não foi exaltar o talento dela como advindo da homossexualidade, apenas considerar um ponto que tem sua relevância nessa questão.

*** UPDATE: um dia depois dessa postagem, a Folha publicou uma entrevista em que Adriana faz menção à sexualidade de Alexandre.


“Por que você tem duas mães?”

25 de setembro de 2009

A tradução dessa sexta-feira é de uma autora no mínimo inusitada. Sophie Brescia tem 10 anos e escreveu esse texto como colunista convidada do jornal LGBT britânico Bay Windows. Você pode ler a versão original ou conferir a tradução do Homomento, logo abaixo.

Famílias Diferentes
por Sophie Brescia

Eu posso não ser o que você considera uma colunista qualificada, mas aprendi algumas coisas ao crescer com duas mães em uma pequena cidade perto de Boston. Se você tem alguma curiosidade em saber como é ter 10 anos e viver com duas mães e uma irmã, eu tenho algumas coisas pra contar.

Algumas pessoas perguntam coisas bastante pessoais sobre a sua vida, e outras olham de um jeito engraçado. É importante ser verdadeiro consigo ao invés de mudar seu comportamento só porque outras pessoas estão curiosas, nervosas ou desconfortáveis perto de você ou da sua família – mesmo se eles disserem coisas ruins para você ou sobre você. Vou falar agora sobre as perguntas que me são feitas com mais frequência.

No topo da lista, está essa pergunta: ‘porque você tem duas mães?’.

Eu tenho duas mães porque elas se amam e queriam constituir uma família. Eu e minha irmã nascemos na China. Nós não temos ligação sanguínea com elas, mas nos amamos e somos uma família que se uniu por causa dessas duas pessoas.

Quando a minha irmã era muito pequena, os amigos da pré-escola achavam que ela era sortuda por ter duas mães. Se uma saía para as compras, ainda havia outra em casa com ela. Conforme fomos crescendo, as crianças não achavam mais que ter duas mães era uma coisa boa – especialmente se as duas nos dessem ordens simultaneamente.

Muitos perguntam: ‘onde está seu pai?’ ou ‘porque você não tem um pai?’. Antes eu pensava que tinha de contar toda a história da minha família quando alguém numa loja ou num restaurante perguntava isso. Conforme fiquei mais velha, notei que algumas vezes as pessoas não queriam saber porque eu não tenho um pai, mas apenas que adulto estava me acompanhando naquele dia específico. Depois de um tempo, pude perceber a diferença entre esse tipo de questionamento igênuo e o que era feito com curiosidade. Hoje em dia, se noto que é com curiosidade, respondo: ‘eu tenho duas mães’. Só isso.

Às vezes me fazem essas perguntas porque estão realmente interessados na minha vida ou em entender melhor a minha família. Você pode perceber pelo tom de voz qual é o tipo de pessoa está perguntando. Se há quase um receio na voz, ela quer saber de verdade. Mas se há um tom arrogante, percebo que ela só quer me deixar desconfortável.

Como eu e minha irmã somos adotadas, também costumam indagar se eu sei quem são meus pais ‘de verdade’. Eu digo que minhas mães ‘de verdade’ são as que cuidaram de mim por toda a minha vida. Frequentemente me pressionam a falar sobre meus pais biológicos, mas eu nem sempre tenho vontade de fazê-lo. Então, quando me solicitam isso, eu ajo de acordo com a minha vontade.

Quando caminho na rua com toda a minha família, percebo que os que lançam os olhares mais esquisitos são os adolescentes. Adolescentes gostam que tudo seja sempre do mesmo jeito, então até eles crescerem e passarem dessa fase, eu só os ignoro.

Crianças que cresceram perto da nossa família costumam ser mais legais porque não têm preconceito com o nosso tipo de família. Adultos também.

O mais importante a se lembrar é que sempre que alguém lhe faz uma pergunta, você só tem que dar a resposta que você queira e se sinta confortável a dar. Sempre seja verdadeiro consigo mesmo.


Nada de crianças na Parada!

24 de setembro de 2009

Do Diário do Pará (os grifos são meus):

O Comissariado de Menores, no desempenho da função fiscalizadora de competência do juizado da 1ª Vara da Infância e Juventude, recebeu despacho do juiz José Maria Teixeira do Rosário para fiscalizar a presença de menores na parada do orgulho LGBT, programada para ser realizada em Belém no próximo domingo, 27. A providência quer proteger menores dos riscos em ambientes e eventos incompatíveis com as respectivas faixas etárias.

Segundo a assessoria do TJE, a fiscalização atenta para “atitudes e práticas consideradas inadequadas aos menores de 18 anos, principalmente ingestão de bebidas alcoólicas, uso de produtos restritos a adultos e a exposição a cenas, expressões e gestos atentatórios à moral e aos bons costumes, considerados pela legislação pertinente prejudiciais às crianças e aos adolescentes e, por isso, considerados com a personalidade ainda em formação”.

De início, precisamos admitir: a espetacularização da Parada oferece, de fato, algumas cenas que não seriam consideradas adequadas à população infantil – tal como drags seminuas, go go boys dançando sensualmente, etc. Mas não acho que esse seja o cerne dessa fiscalização. A expressão “moral e bons costumes” ali no meio do texto diz muito – ou vocês já viram essas palavras na boca de alguém que não seja conservador?

O que eu vejo de mais grave para as crianças na Parada é, como já destaquei, algumas nudezes e performances. Mas isso está presente em outras manifestações culturais também, certamente não tão combatidas. O que ofende a moral e os bons costumes nesse caso não é tanto a nudez ou o sexo quanto quem os pratica – no caso, gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros. A nudez da drag é diferente da nudez na Playboy – e é por isso que o juiz determina que se aplique fiscalização aos menores na Parada, e não nas bancas de revistas.

Trans na Parada, e Viviane Castro, dona do menor tapa-sexo conhecido. Se o problema é nudez e sexo, proíba-se o Carnaval

Trans na Parada, e Viviane Castro, dona do menor tapa-sexo conhecido. Se o problema é nudez e sexo, proíba-se o Carnaval

Preciso ressaltar, para evitar mal-entendidos: não sou contra a proteção da criança pelo Estado, só acho que existem prioridades. Se o problema é a ingestão de álcool por menores, não adianta fiscalizar só na Parada – os bares dos arredores, os ambulantes vendendo cerveja e batidas continuarão na cidade quando todos os queers se recolherem ao seu dia a dia monótono, bem como os menores. Se o problema é sexualização da infância, que fiscalize-se também a programação de televisão, onde prosperam mulheres-fruta. E, se a intenção é proteger a infância e a adolescência de ambientes e eventos incompatíveis, que se dedique um esforço mais efetivo ao combate da exploração sexual infantil. Uma pesquisa organizada pela Secretaria Especial de Direitos Humanos documentou prostituição de crianças e adolescentes em 29 municípios do Pará, sendo que outros sete apresentam menores em situação de vulnerabilidade à violência sexual. Isso insere esse Estado entre os que ostentam o maior número de casos de exploração sexual infantil.

Falando em “fiscalização efetiva”, me pergunto o que essa fiscalização fará. A Parada acontece na rua – as crianças serão vendadas? Levadas para onde? Se há algum lugar que possa acolhê-las, por que muitas ainda são vendidas aos caminhoneiros em troca de comida? E outra coisa – menores não têm sexo, orientação sexual? Desejo, identidade? Se um adolescente de 15 anos quiser ficar com outros meninos, ele deve ser retirado à força da Parada? Aliás, será exigida a apresentação de documento de identidade para desfilar, provando que já se completou 18?

Sim, a Parada tem muitas coisas que não deveriam ser expostas aos olhos de uma criança. Assim como o mundo. Poupar os menores da Parada não vai isolá-los do mundo do sexo – apenas do conhecimento de uma sexualidade mais diversa.


Por que eu não consigo gostar dela?

25 de julho de 2009

A grande problemática que envolve a questão homossexual hoje no Brasil é a procura por direitos e a aceitação. A dúvida para mim existe no momento em que o tópico “direitos” se define como norte e não a “aceitação”. Por mais que seja árdua a batalha que envolve a plena inclusão homossexual na constituição, ela se torna infinitamente menor do que à procura pelo respeito alheio.

Eu, na minha ignorância, passei anos sem me questionar o que eu realmente procurava. Entretanto, após entrevistar o diretor da GALE, Peter Dankmeijer, acordei e vi que determinar como batalha ganha um direito assistido é burrice. Nas palavras de Dankmeijer:

–  Same sex civil unions are an important achievement, but only part of the legal struggle. In some cases, authorities and even gays and lesbians think that marriage is the crown and final station of emancipation, forgetting that social acceptance is more important in the public sphere.

Esta pequena introdução serve para ilustrar um projeto que conheci há algumas semanas, chamado Projeto Bem-me-quer.  O Bem-me-quer não se limita a abordar a sexualidade e questionar os valores estagnados da nossa sociedade, ele vai muito além. Atinge um segmento especifico, complexo e imprescindível  na criação de qualquer mudança: o universo infantil.

As ações são baseadas em três artifícios: cultura, mídia e educação; que vão de mostras e exposições audiovisuais a eventos culturais e capacitação de educadores. Mas de todas as ações, uma me chamou atenção pela sensibilidade e o pioneirismo: a Coleção de livros infantis Bem-Me-Quer. Eis o release do site:

Uma das ações do nosso projeto é a produção e a publicação da Coleção Bem-Me-Quer, um conjunto de 10 livros infanto-juvenis que tratam de temas relacionados à diversidade. De uma maneira criativa e didática, as histórias tendem a suscitar a reflexão sobre a intolerância em crianças e jovens, já que os livros primam pela diversidade, inclusive no estilo da escrita e nos traços das imagens. Participaram do projeto vários autores e ilustradores, reconhecidos nacional e internacionalmente, como Ana Cláudia Ramos, Jonas Ribeiro, Anna Raquel, Gilles Eduar, Adriana Falcão, Chico Salles, Eliana Carneiro, Maurenilson Freire, Márcia Cristina Silva, Flávia Lins e Silva, Raquel Echenique, Jô Oliveira, José C. Lollo e Leicia Gotlibowski. Com tanta gente, cada livro tem um tom, um traço, uma letra. Cordel, narrativas, poesia, aventuras, descobertas, conflitos, superação e compreensão são temas trabalhados para estimular os leitores a perceberem a riqueza de ser diferente.
O décimo exemplar da coleção é um áudio livro, que possibilita, aos deficientes visuais, o acesso a todas as histórias. Gravado em Brasília, foi produzido e editado por Jorge Brasil.
Patrocinada pela Fundação Itaú Social, a coleção terá uma tiragem inicial de 26.000 livros, que serão distribuídos gratuitamente para 2.600 escolas da Rede Pública em todo o Brasil.

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O mágico da iniciativa é que pela primeira vez a discussão acerca da homossexualidade foi tratada de forma sutil, inserida em um contexto simples, permitindo a comparação com outros tipos de preconceitos que talvez a criança já abomine. Destaque para a obra intitulada Por que  eu  não  consigo gostar  dela?, de Ana Claudia Ramos e desenhado por Maurenilson Freire, que ilustrou também  O Salto da Borboleta,  escrito por Márcia Cristina Silva e que fala da questão de gênero.

Se você como eu, se interessou pelo projeto e deseja ajudar de alguma maneira vá até a sessão ‘Como ajudar’ no site onde é possível contribuir através de voluntariado, doações financeiras e materiais.  Sobre os livros, vou me informar se existe alguma maneira de adquiri-los e quando souber informo.