O tiro bem dado da Arezzo

23 de setembro de 2009

Há uns dias atrás, olhando alguns blogs com minha namorada, me deparei com uma situação um tantinho desconfortável.  Ao visitar um o blog Alice in lesboland, li o texto intitulado “Sapataria Arezzo” que falava sobre o comentadíssimo ensaio das globais Juliana Paes e Cléo Pires. Nada de novo até então, até um certo atraso dada a data de divulgação (julho). Mas o que quero comentar não são as fotografias ou a campanha, e sim o comentário da blogueira. Transcrevo:

“Nós gays sempre reclamamos que somos excluídos da mídia, especialmente no que se refere a programas de TV e anúncios. Agora que se lembraram de nós, acho que merecem um elogio, não? Até porque deve ter um monte de homofóbico-chato-careta metendo o pau, e nós não queremos que a Arezzo ache que teve uma má idéia em colocar aquelas duas gatas se insinuando dentro d’água, queremos? Vai que na próxima campanha ela põe a Cleo se esfregando num Cauã Reymond da vida? Cruzes! Então faça a sua parte, sapa! Manda um e-mail bem fofo para eles aqui, manda! Eu já mandei o meu.”

Juliana Paes e Cléo Pires para Arezzo, inclusão?

Juliana Paes e Cléo Pires para Arezzo. Inclusão? Onde?

Sei que o escopo do blog é totalmente diferente do Homomento e que trata de assuntos mais leves, usando artifícios como o humor e a naturalidade. Infelizmente nenhum desses métodos justifica, para mim, uma visão tão ingênua. O ensaio pode ser bem feito, ter uma estética bacana, bons efeitos, mulheres bonitas, ser pouco apelativo em relação ao que normalmente tange nossa realidade, não importa. A última coisa que se pode imaginar é que em um ensaio como esse ajude, mesmo que minimamente, qualquer lésbica nesse brasil varonil, minha gente!

Um tiro certeiro para não ricochetear

Engana-se a blogueira, leitor, ou consumidor da Arezzo que enxerga essa campanha como um ensaio ‘lésbico’. A boa estratégia de marketing, feita com carinho pelos marketeiros/publicitários/assessores da marca, inteligentemente associa o comportamento das mulheres a uma relação homossexual. Mas na verdade não é isso que acontece, aliás, se a análise das fotos for feita com um pouquinho mais de carinho, é possível observar que se trocada qualquer uma das atrizes por um homem, um se simplesmente excluída da foto, o que temos é mais um ensaio exatamente igual a tantos outros.

A Arezzo opta por contratar para suas campanhas os principais destaques das telenovelas, e nessa eles não fugiram à regra. Talvez o que mais chame atenção seja a concomitância da campanha com a entrevista concedida ao portal A Capa pela Juliana. Um trechinho:

“O que você acha do preconceito contra homossexuais?
Acho uma atitude tão besta e muito pequena. Afinal, o mundo é feito de pessoas diferentes em todos os sentidos. O ser humano tem que saber viver com as diferenças e respeitar o próximo, não só pela sua opção sexual (sic), mas pela raça, condição social, intelectual.

Qual a sua opinião da adoção por casais gays?
Família se constitui por amor e existe amor entre iguais. Para mim, um casal gay tem a mesma condição de criar e educar uma criança que um casal heterossexual.”

Obviamente mora aí um excelente assessor, que habilmente distribuiu o bom e velho release amigo para um dos principais sites LGBT do Brasil, e com certeza tratou de responder com muito carinho e atenção as perguntas enviadas a Juliana. Essa iniciativa inteligente reprimiu qualquer levante homossexual, tendo por base a postura gay-friendly e o suposto ensaio pró-lésbico. Caso encerrado.

Eu não sei qual é a postura real da Juliana Paes, se a Cléo Pires curte gays, se as duas acharam bacana a iniciativa e por isso aceitaram ou se foi porque o pagamento foi satisfatório. Enfim, para mim pouco interessa, porque tudo (e quando eu digo tudo é TUDO) relacionado a campanhas comerciais tem uma estratégia, um objetivo e um interesse. Os LGBT são, enquanto grupo, um nicho a ser exploradíssimo no mercado brasileiro dos próximos anos, então é imprescindível que se filtre os estimulos para não cair em jogadas de marketing bestinhas, como essa.

juju

Anúncios

Entrevista: Michael Eichler, do The New Gay

16 de setembro de 2009

Não é a primeira nem será a última vez que The New Gay vai aparecer aqui no Homomento, pelo simples motivo de que muitas das idéias dos dois blogs são bastante alinhadas. Eu e a Carol tivemos a oportunidade de entrevistar um dos co-fundadores do site, Michael Eichler, que simpática e articuladamente respondeu nossas perguntas. Vale a pena ler a tradução da entrevista (uma versão em inglês foi publicada no The New Gay), que segue na íntegra:

Michael, antes de qualquer coisa, por favor apresente-se brevemente.
Bom, eu sou Michael Eichler (a pronúncia é “ike-ler”), tenho 36 anos e trabalho numa planejadora de transportações. Eu também sou co-fundador do The New Gay, que é uma fonte online para idéias, culturas e eventos relacionados à comunidade LGBT.

Os sites LGBT normalmente são cheios de fotos de homens nus ou notícias de fofoca. Nós temos, porém, ótimos exemplos de bom trabalho como o Box Turtle Bulletin. No cenário dessa mídia específica, como você descreveria o The New Gay?
Nós somos um blog/publicação online abrangente, feito por pessoas comuns, que quer ver mais assuntos na mídia LGBT. Se você mostrar fotos de torsos nus, ignora metade dos homossexuais (se pensarmos que a divisão de gênero é 50% masculina e 50% feminina). Nós tentamos achar um tema em comum para todos os LGBT que vai além da conexão básica de todos nós: o sexo. Exploramos maneiras singulares e diversificadas de ser homossexual, dando oportunidades para as pessoas explorarem seus interesses genuínos ao invés de gostarem das mesmas coisas que todo mundo só para serem aceitas.

Outro co-fundador do TNG, o Ben, define o site como “um movimento inclusivo de indivíduos atraídos pelo mesmo sexo que se recusam a ser definidos pelo passado e lutam para expandir as barreiras do futuro”. De fato, como você disse, muitos dos artigos do site falam sobre como é importante que essas pessoas parem de se estereotipar, e o quão diferentes os LGBT podem ser entre si. Em dois anos de trabalho e reflexões sobre essa temática, o que você aprendeu? O que mudou e o que permaneceu, entre as suas opiniões?
Durante esses últimos dois anos, uma coisa que eu aprendi foi a necessidade de incluirmos todas as minorias sexuais. A parte mais complicada é o fato de que os transexuais normalmente não se expõem e é muito difícil sempre fazer e falar as coisas certas para ser inclusivo com os trans. Como gays e lésbicas, como pessoas que “amam pessoas do mesmo sexo”, nós não conhecemos bem as dificuldades enfrentadas pelos trans e isso não faz parte da nossa forma de pensar, normalmente voltada para autopreservação. Nós, todos os queers, precisamos aprender mais uns sobre os outros e descobrir similaridades. Acho que o trabalho do TNG começou com a exploração das diferenças maravilhosas entre os LGBT, mas agora é o momento para nos unirmos e caminharmos como “um só povo” apesar de todas essas diferenças.

Já que você falou em trans: recentemente vocês participaram de um protesto relacionado à morte de uma transexual em Washington DC. Além desse tipo de manifestação, como nós podemos lutar contra a homofobia no “mundo real”? Nós lemos recentemente um artigo da Jean no TNG sobre o “ativismo gay 2.0” que nos lembra sobre os riscos de nos limitarmos à web.
Eu não participei pessoalmente daquela vigília, mas ajudei a divulgá-la e nós mandamos o nosso fotógrafo. De qualquer forma, eu acho que a melhor maneira de lutarmos contra a homofobia no mundo real é alcançando a visibilidade. Há grandes chances de que cada homofóbico tenha no mínimo um parente ou amigo que seja gay. Se essas pessoas puderem se pronunciar, se assumir e se fazer visíveis, causando uma impressão positiva junto aos que são potenciais perpetuadores da violência contra os LGBT, veremos esse potencial reduzido.
Nós precisamos ser vistos como pessoas, crianças, pais, colegas, amigos, vizinhos, membros da comunidade. Acredito que até nós verem como tal, e não como “o outro”, teremos a violência e a homofobia sempre muito próximas de nós.

Você disse que “se você mostrar fotos de torsos nus, ignora metade dos homossexuais”. Aqui no Brasil, muitos dos sites auto-intitulados “LGBT” são dirigidos aos homens gays, com fotos homens seminus e etc. Há também alguns dirigidos a lésbicas, mas nada que possamos chamar de “neutros” em relação ao gênero para LGBTs.
Exatamente. Esse é um grande problema.

A mídia LGBT norte-americana é muito mais sofisticada que a nossa nesse aspecto. Quanto tempo você acha que ela demorou para se desenvolver dessa maneira? Ou: o que nós, brasileiros, poderíamos fazer para obter algo semelhante?
Ah, espera aí. Nós somos um dos poucos sites que eu conheço que têm a intenção de abranger todos os gêneros e sexualidades. Outros blogs temáticos como Towerload.com ou Queerty.com, ou ainda os “after” (AfterEllen, AfterElton), são voltados para apenas um gênero. Não há unidade. Os jornais LGBT como o Washington Blade estão muito comprometidos com seus anunciantes, que vêem os homens gays apenas como consumidores, e seu conteúdo (não noticioso) não faz muita coisa para desmentir esse fato.

Esse é um problema de qualquer publicação: lidar com seu público E com seus anunciantes. Na sua opinião, o quão grande é a influência dos anunciantes na mídia LGBT? Você acha que a relação entre veículos e anunciantes impede-a de pensar e falar sobre assuntos que realmente importam?
É enorme, e sim, eu acho. Muitas publicações dependem demais dos anunciantes e sofrem por isso. Ouvi rumores de matérias que não saíram por motivos como “já publicamos um artigo lésbico na semana passada”. Essas mídias dificilmente são justas e imparciais. Zack, o outro co-fundador do TNG, trabalhava para o Blade, então ele pode falar mais sobre isso. Mas eu não me identifico com qualquer um desses anúncios voltados para os LGBT (na verdade, especificamente para os homens gays e brancos) e eu mesmo sou um homem gay e branco. Imagine como os membros da comunidade LGBT que não são homens ou brancos não se sentem olhando para esses anúncios?

Sim, e acho que isso também impede que algumas pessoas consumam a “mídia gay”. Aqui no Brasil, na mídia impressa, nós só temos revistas dirigidas ao público masculino. Não consigo ver nenhuma razão para uma lésbica comprar alguma delas. Dessa maneira, muitas pessoas dentro da nossa comunidade estão excluídas da nossa própria mídia! Mas seguindo adiante: Zack disse, no artigo “The Beginning of Gay Culture”, que seria bom para os LGBTs recriarem o mundo heterossexual numa versão menor, só para eles. Acho que ele quis dizer que nós deveríamos criar espaços onde pudéssemos conviver apenas com LGBTs parecidos conosco, enquanto lutamos da nossa maneira contra a homofobia. Mas você não acha que deveríamos estar lá fora lutando para fazer do mundo um lugar melhor para todo mundo? Será que não podemos ficar confortáveis nos lugares que já frequentamos? Nós realmente precisamos criar todo um mundo novo (e GAY)?
Zack está falando sobre criarmos espaços sociais que expressem a diversidade da comunidade LGBT. E eu concordo. Nós precisamos de diversidade em nossos espaços sociais. De outra maneira, qualquer um que não se encaixe no “molde gay” vai se sentir rejeitado e não pertencer a comunidade nenhuma. Ao invés disso, nós precisamos achar uns aos outros no mundo real e nos conectarmos. Esses pequenos grupos e conexões podem se tornar a base para uma unidade maior. Se tudo o que temos é o mainstream e um monte de indivíduos que não se identificam com ele, nós nunca acharemos uma base comum. Nós ainda temos muito trabalho a fazer para nos organizarmos internamente antes de realmente encontrarmos a força para marcar presença fora de nossa comunidade. Isso não significa que nós não possamos começar pressionando a sociedade por aceitação, mas nós só teremos o poder necessário para tal se nos organizarmos internamente primeiro.
Imagine lutar numa guerra onde 20% dos nossos soldados são membros de uma tropa e os outros 80% não têm lealdade ao sargento, agindo por conta própria. Não funcionaria.

Agora entendi o seu ponto, e acho que o exemplo das tropas ilustra muito bem essa ideia. Uma das lutas internas do movimento LGBT que podemos destacar é aquela pela aceitação nas instituições militares, já que alguns dos ativistas mais radicais não vêem sentido em lutar contra o Don’t Ask, Don’t Tell (DADT).
Exato, eles preferem acabar com os militares a lutar contra eles. E, na verdade, gostam de não poderem ser chamados para o serviço. Pessoalmente, eu não concordo com o militarismo de maneira geral e não lutaria pelo fim da DADT, mas apoio essa luta e todos os nossos soldados gays aí fora. Mas um caso que ilustra ainda melhor a necessidade de união nos EUA é a questão do Ato pela Não-Discriminação no Emprego (ENDA, na sigla em inglês), em que a organização Human Rights Campaign recomendou um pacote de leis contra discriminação que exclui os transgêneros. Como uma coisa dessas pode ser possível em 2009?

Então você acha que devemos viver de acordo com nossos valores, gostos e interesses, como propõe Zack, e nos unirmos apenas por nossos direitos e para lutarmos contra a discriminação?
Nós LGBTs não temos uma cultura inerente. Não temos uma força unificadora. Nós não nascemos numa população LGBT – temos que construir nossa própria cultura, e a cultura que atualmente ocupa esse espaço não abrange todos nós. Num post anterior, Finding Unity in Community, eu disse que, como nós não nascemos na nossa comunidade, temos que procurá-la. E nada na nossa cultura encoraja a entender a nossa própria história e a similaridade que temos com outros LGBTs. Espere, por exemplo, que nos reunamos em torno da Madonna. Isso nunca vai acontecer. O que mais temos em comum? O que eu tenho em comum com a Shunda K, do Yo Majesty, além de uma mesma orientação sexual?

Vocês também têm um monte de posts sobre música indie, chega a ser comum que as pessoas pensem que o TNG é um blog hipster. Será que não é perigoso se definir como um “movimento inclusivo” e falar só sobre músicas que vocês gostam ao mesmo tempo? Vocês não temem que leitores LGBT que não sejam hipsters acabem se afastando do site de vocês por causa das discussões sobre música?
Desde o início, convidamos todas as pessoas possíveis para que usassem o Tng como uma plataforma para compartilhar suas ideias e interesses, encorajando diferentes perspectivas sobre cada assunto, e dando destaque a todos os tipos de cultura que existem – filmes, literatura, teatro, etc. Não vamos deixar de escrever sobre o que nós (os fundadores) gostamos porque até agora ninguém mais se habilitou a contribuir com outras perspectivas sobre outros tipos de cultura. Estamos disponibilizando opiniões de LGBTs descrevendo um monte de coisas que não são gays, e esse conjunto de coisas não-gays definitivamente poderia ser maior. Nós adoraríamos que pessoas se juntassem a nós e começassem a escrever sobre música clássica, por exemplo. Mas nós (a equipe atual) não podemos fazer isso, porque não é a nossa praia. Nosso cofundador Ben ama hip hop e até escreveria sobre isso de vez em quando, mas ele não estava interessado em escrever sobre música. Na verdade, estávamos hesitantes quanto a adicionar mais um colunista sobre música, porque ele queria trazer mais indie rock. No fim das contas, ele é uma pessoa LGBT que quer escrever sobre música. É exatamente o que queríamos, ainda que não seja um novo gênero.

Michael, muito obrigado pela entrevista. Continue com o trabalho bom (e original) do TNG. E só uma pergunta final: como podemos lutar contra os preconceitos que nossa “cultura gay mainstream” ainda evoca, e construir nossa própria cultura?
Seja você mesmo, seja um indivíduo, seja visível, se expresse. É tudo que posso dizer. Ah, e não seja um imbecil.


Do geral para o particular: um olhar sobre a mídia gay

15 de setembro de 2009

Um dos interesses mais marcantes do Pedro, colega do Homomento, é a fragmentação da cultura gay. Como ele sustenta nas suas críticas à cultura gay monolítica, a orientação sexual do indivíduo é importantíssima na construção de sua identidade, mas não a ponto de anular seus outros interesses. Quando um rapaz se descobre gay, não cai um CD da Britney dos céus em suas mãos; da mesma forma, eu não me transformei em uma fã de Ana Carolina no momento em que beijei outra menina pela primeira vez.

Ok, entendemos então que a tal “cultura gay” está na verdade vinculada a uma visão “senso comum” do que é homossexualidade. Como os meios de comunicação são um reflexo da cultura dominante, que se dirigem a um público formado por sujeitos totalmente diferentes entre si, é evidente que nossa mídia gay dificilmente conseguirá fugir dessa tal “cultura gay monolítica”. Mas não é por não estar na capa dos portais que esses “gays diferentes” não existam, tampouco que eles não se expressem. Será que não há espaço, na web brasileira, para sites voltados para aqueles que não se sentem contemplados pela cultura gay hegemônica?

Para entrar a fundo nessa discussão, precisamos antes de um…

Breve olhar sobre os portais gays brasileiros

Como já comentei, não podemos esperar da “grande mídia” gay outra coisa que não um diálogo voltado para a maioria do seu público. Assim, é comum encontrarmos, nas capas dos portais brasileiros, generalidades que mostram (e reforçam) estereótipos da cultura gay: na capa, britneys, beyoncés e madonnas serão notícia sem que necessariamente tenham feito qualquer ato diretamente relacionado aos LGBT. Presume-se que (todos os) gays gostam dessas divas, e com isso justifica-se a publicação de tais notinhas. Também é possível o inverso: por saber que o público é heterogêneo, alguns sites abrem espaço para que todas as manifestações culturais possíveis sejam representadas. É o caso do portal Parada Lésbica, onde é possível encontrar tanto um podcast que abre com música de Sandy & Junior quanto um artigo sobre o Rammstein, um grupo de metal industrial alemão. Nos grandes sites, a diversificação do conteúdo atende às características do público, que também é heterogêneo, mas isso faz com que tenhamos que filtrar mais antes de ler.

A meu ver, o maior problema da maioria dos portais brasileiros voltados para o público LGBT está exatamente no contrário: em sites que se pretendem amplos, mas que acabam refletindo na maior parte do tempo os interesses de somente uma parcela do público. Salvo poucas exceções, como o Dolado, o Universo Mix e o ótimo Gay.com.br, esses sites são na realidade voltados para os homens gays, e isso salta aos olhos já na capa, onde imagens de homens nus misturam-se a textos e manchetes.

Amplie a imagem e conte: quantos homens seminus há na capa do site Mix Brasil?

Amplie a imagem e conte: quantos homens seminus há na capa do site Mix Brasil?

O mais impressionante disso é ver que o sexo não é a única parte importante nesses sites. Pelo contrário: muita gente os acessa para acompanhar notícias sobre temas LGBT (ou mesmo sobre as próprias divas!) e vê as avalanches de fotos de nus como um adendo suportável. Eventualmente, alguns desses sites dedicam algum espaço para lésbicas e trans, como é o caso do Mix Brasil, um dos sites LGBT mais antigos do país. Mas esses espaços são seções dentro de um todo gay. Na prática, isso demonstra uma assimilação, por parte dos gays, do que ocorre no restante da sociedade: os fatos universais são masculinos e brancos, o resto são categorias à parte.

Por uma mídia gay de nicho

Até agora, tratamos de como a grande mídia gay brasileira na web mal e mal nos garante o básico. Mas queremos discutir particularidades. Como eu já havia lembrado no início desse post, a questão da fragmentação é crucial para o Pedro. Tiro de um rascunho dele, então, uma definição para o que estamos discutindo aqui:

Com as facilidades da internet, a tendência é que cada vez mais as pessoas busquem por conteúdo do seu gosto particular. Ao invés de ler um jornal inteiro, buscam na web apenas os colunistas que lhe agradam, os blogs que emitem conteúdo alinhado com suas perspectivas, etc. É a chamada Era do Desmanche, que traz consigo as consequências positivas e negativas intrínsecas a toda fragmentação social: se por um lado as pessoas tornam-se especialistas em seus interesses, levando a um passo adiante as idéias e discussões acerca destes, por outro, uma visão panorâmica dos acontecimentos e da realidade, que considera prós e contras de diferentes pontos de vista, pode tornar-se mais dificultosa e longe do alcance comum do que já é.

Quando falamos de sites gays internacionais, podemos desde já vislumbrar a possibilidade de um desmanche. O leitor norte-americano ou europeu tem múltiplas opções de portais, sites e blogs com os mais diversos posicionamentos sobre política, cultura e até religião voltados especificamente para o público LGBT. Dessa forma, ele dispõe de páginas excelentes por contarem com equipes de redação inteiras dedicadas a um propósito específico. E dispõe, também, daquela já mencionada possibilidade de escolher os assuntos dos quais quer se alienar.

Na capa do Uol Gay, uma síntese: em meio a ofertas de sexo, o portal lésbico é apenas mais uma seção

Na capa do Uol Gay, uma síntese: em meio a ofertas de sexo, o portal lésbico é apenas mais uma seção

Embora eu não possa afirmar com muita certeza por que motivos a mesma coisa não ocorre no Brasil, aposto todas as minhas fichas na imaturidade do mercado de comunicação gay brasileiro. A diversificação nesse segmento da mídia é bastante recente. Os portais lésbicos Dykerama e Parada Lésbica, por exemplo, foram criados respectivamente em outubro de 2007 e setembro de 2008. A mídia LGBT brasileira, e isso inclui a impressa (formada só por revistas para homens, já repararam?), ainda tem muito a evoluir, e acredito que tão cedo não teremos grandes sites gays de nicho no Brasil.

Pouco a pouco, contudo, os próprios portais se diversificam e abrem espaço para aqueles assuntos menos óbvios. É o caso, por exemplo, da coluna no site A Capa do teólogo e pastor da igreja inclusiva Betel Márcio Retamero, que comenta as aparições da religião no noticiário LGBT brasileiro. Além disso, friso: tão cedo não teremos grandes sites gays de nicho no Brasil. Os blogs vão dando conta do recado.

Não sei muito sobre o que os meninos blogueiros andam escrevendo, mas como consumidora de cultura lésbica estou bem satisfeita com o que a blogosfera me oferece. Sobre aparições de lésbicas em seriados e filmes, por exemplo, há o Lebiscoito, e quando quero música posso ser uma sapa indie e moderna acompanhando o Blog do Chá, da musa lipster Barbie da Silva. O trabalho de blogueiros também permite que LGBTs negros e evangélicos se mantenham informados, e o site mais completo que encontrei na web em português sobre trans FTMs é o blog de um transhomem.

A oferta de produtos cada vez mais diferenciados na web não pode ser dissociada da possibilidade que cada internauta tem hoje de produzir seu conteúdo e disseminar suas opiniões e ideias. Com a web 2.0, a responsabilidade pela qualidade do conteúdo é compartilhada. Quanto mais produtores, maior a pluralidade de visões que estarão ao nosso alcance.


Massacre de Tel Aviv: uma Stonewall para Israel?

3 de agosto de 2009

Pude testemunhar, durante o fim de semana, a mesma notícia pipocando em diferentes sites, fossem eles voltados para nosso público ou não: Advocate, Gay.com.br, G1, Folha, O Globo, BBC Brasil, NY Times, Reuters. Quem não viu, ainda vai ver: com certeza o destaque da semana na mídia LGBT internacional será o ocorrido em Tel Aviv nesse primeiro de agosto.

Pouco antes da meia-noite, um homem vestido de preto (como os judeus ultraortodoxos) entrou em um imóvel da Associação de Gays e Lésbicas de Tel Aviv e atirou com uma arma automática em todas as direções antes de fugir, até agora com sucesso, segundo testemunhas. (…) Segundo os serviços de emergência, a maior parte de feridos são menores e as duas vítimas fatais são um homem de 26 anos e uma menina de 16.

O estabelecimento na manhã após o ataque: por que o sangue tem estado sempre tão próximo ao arco-íris?

Foram muitos os comentários tristes e raivosos referindo-se ao ataque, e é justo que eles sejam feitos. O protesto é mais do que necessário, especialmente num caso triste como esse. Foi bonito de ver as palavras “Tel Aviv” chegando aos tópicos mais mencionados do Twitter, com pessoas de todos os países prestando solidariedade às famílias das vítimas e à comunidade LGBT em geral.

Entre os comentários em tempo real, me chamou atenção a colocação de Paulo Giacomini: após 40 anos e guardadas as diferenças, massacre anti-gay em Tel Aviv pode se tornar o ‘stonewall’ israelense dos 2000’s. De fato, o ataque foi bastante simbólico e pode dar um gás à luta israelense (e porque não mundial) pela igualdade.

Durante a noite de sábado, muitas pessoas utilizaram essa imagem no Facebook em homenagem às vítimas

Logo após o incidente, as semelhanças com Stonewall se tornam ainda mais claras. Assim como foi em 1969, o primeiro protesto contra os assassinatos de Tel Aviv ocorreu de forma espontânea, já na madrugada de domingo. E, da mesma forma que os gays norte-americanos recusaram-se a abandonar o bar mesmo com a repressão violenta dos policiais, os frequentadores do centro de convivência israelense não deixaram que a violência os intimidasse, reabrindo o espaço na segunda-feira, de acordo com informações do jornal Haaretz.

Esse é o caso mais grave de homofobia no país desde 2005, quando três participantes da parada gay de Tel Aviv – a única no Oriente Médio – foram esfaqueados. Como a identidade do agressor permanece desconhecida, ainda não estão claros os motivos imediatos do ataque, o que não impediu que líderes ultraortodoxos fossem cobrados publicamente por seus posicionamentos homofóbicos.

1º de Agosto: símbolo instantâneo, ao menos em Israel, da luta contra a homofobia

Uma outra cobrança se deu no campo das nomenclaturas: as autoridades policiais israelenses logo esclareceram que o caso não era de “terrorismo”. De fato, esses assassinatos destoariam da maioria dos ataques terroristas sofridos pelos judeus. Lideranças homossexuais locais exigem que o caso seja encarado, sim, como terrorismo.

Se ignorarmos o local onde os tiros foram disparados, as mortes de Nir Katz, 26 anos, conselheiro do grupo, e de Liz Trubeshi, 16 anos, simpatizante, não diferem em nada daquelas motivadas por explosões de homens-bomba. Nessa discussão, podemos deixar etnia e orientação sexual de lado, e o que resta continua inaceitável: são mortes brutais e aleatórias, motivadas por inaceitação da diferença.

(Redação final: Carol)


White Knot

3 de julho de 2009

Ao ler hoje a notícia que a procuradora-geral, Débora Duprat, propôs ao Supremo Tribunal Federal uma ação que reconhece o casamento homossexual no Brasil fiquei muito entusiasmado. Dentre os redirecionamentos e links aleatórios acabei por descobrir um site norte-americano muito interessante: do nó branco (white knot)

A iniciativa é simples, pessoas que apoiam o casamento gay utilizam a fita branca com um nó no meio como pingente.

White Knot

White Knot

A proposta é dar visibilidade à causa e mobilizar a opinião pública, deixando ainda mais claro o apoio.

Além disso o site (www.whiteknot.org) nos oferece uma ótima compilação de informações, como 15 motivos porque o casamento deve ser reconhecido, 5 argumentos em defesa ao uso do nó, até um mapa mundial retratando a situação do casamento gay em todo o mundo.

Tem também uma espécie de blog com a colaboração de diversas pessoas retratando a realidade no seu país e uma galeria de fotos onde aparecem os eventos e pessoas (famosas ou não) que adotaram o nó branco.

Você pode adquirir o nó gratuito e pronto enviando uma carta para o endereço indicado no site, ou ainda fazendo o seu em casa mesmo:

Passo 1: Corte um pedaço de fita com as pontas na diagonal

Passo 1: corte um pedaço de fita com as pontas na diagonal

Passo 2: dê um nó no meio da fita

Passo 2: dê um nó no meio da fita

Passo 3: dê mais um nó em cima do primeiro

Passo 3: dê mais um nó em cima do primeiro

Passo 4: bote um alfinete de fralda verticalmente numa das extremidades

Passo 4: bote um alfinete de fralda verticalmente numa das extremidades

Acredito que valha a pena divulgar e usar o nó branco, lembrando que os avanços obtidos ultimamente são grandes e significativos (vide a ação no STF). Mas também pela riqueza que é poder externar a sua opinião em um gesto, um objeto, um signo, que não prejudica nem violenta ninguém e ainda auxilia o avanço da discussão em torno dos direitos de todo o grupo LGBT.


Alguns links pós-Orgulho

1 de julho de 2009

Como grande parte da mídia, deixamos o 28 de Junho em branco aqui no Homomento. Contudo, dois novos sites brasileiros com a temática LGBT foram postos no ar e tudo indica que serão bastante úteis na luta pelos direitos da comunidade e pela sua aceitação no campo social. Ambos merecem – muita – divulgação: por isso a postagem aqui e o pedido para que quem leia repasse os links.

linkp

30 Ideias – Comentei aqui anteriormente que aguardava ansioso pela cartilha virtual que vinha sendo feita por alguns blogueiros. O 3o Ideias (Para ajudar a causa LGBT do seu jeito) pode soar um pouco óbvio em alguns de seus pontos, mas é uma iniciativa fantástica na medida em que, de maneira simples e direta, apresenta bons argumentos para certas atitudes simples, porém significativas, serem tomadas. Disponibiliza também uma porrada de links úteis relacionados a cada tópico levantado no site.

Gay.com.br – Em sua nova versão ainda em experimento, o site pretende integrar-se à web 2.0: opera repassando notícias de diferentes sites separados por categoria, tendo aberto ainda uma rede social própria para discussão e  colaboração. Como dito no post de inauguração, faltam alguns ajustes e a navegação ainda está um pouco confusa, porém nota-se o potencial para tornar-se uma referência.

(obs.: para uma reflexão sobre o 28 de Junho, vale a pena também dar uma olhada nesses dois textos: Porque comemorar o orgulho gay? e As conquistas do movimento gay 40 anos após Stonewall.)


Nova York focada – Parte II

2 de junho de 2009

Marriage NY

O Marriage NY é um site que acaba de ir ao ar. Mais ou menos nos moldes do brasileiro Não Homofobia (por sinal, vale a dica pra quem não conhece), ele vai direto ao ponto dando informações: números, telefones e endereços úteis para de fato fazer alguma coisa pela comunidade LGBT.

A página é clean, sem ativismo agressivo, e me deu a impressão de que alguém que nunca pensou muito sobre o assunto poder ver os vídeos e acabar convencido de que é o amor que faz uma família. Os sites com esse perfil poderiam proliferar, pois só trariam boas notícias, não?

Via Twitter, em tempo real!