A crise da cultura gay monolítica – Parte 2

No texto anterior, falamos sobre o preço do espaço dos homossexuais na sociedade ter sido conquistado através da criação de um personagem caricato no imaginário social. A partir disso, vimos um pouco da dicotomia entre gays que se identificam com esse conjunto de práticas comportamentais conhecido como cultura gay e os que não se sentiam à vontade com ele, e a seguir veremos como muitos desses gays diferentes passaram a reagir às limitações e especificidades da cultura gay.

Minando Babel

Dos recentes capítulos da história da humanidade, indubitavelmente o que mais teve impacto sobre os homossexuais foi a popularização da Internet. Além de proporcionar vantagens óbvias como a agilidade na troca de informações, possibilitando um ativismo mais qualificado e efetivo, a rede trouxe novas perspectivas ao campo dos relacionamentos. Se antes, para os homossexuais se conhecerem, era preciso frequentar determinados lugares e se comportar de acordo com códigos internos que os identificavam, agora o contato estava a poucos cliques de distância.

O fato pode parecer pouco importante sob um primeiro olhar, mas tem consequências de proporções catastróficas sobre a noção comum de identidade cultural gay. Para as novas gerações não se fazia necessário mesclar-se à massa das boates para – tentar – conhecer gente interessante ou mesmo obter experiência sexual. Isso podia ser feito através de fóruns, de sites como o ManHunt, do Disponivel.com ou do próprio Orkut. E se por um lado facilitaram a permanência no armário de uma legião de supostos heterossexuais que têm toda uma vida secreta de promiscuidades patrocinada por chats e afins, por outro, as redes sociais uniram cabeças pensantes animadas em discutir a homossexualidade sob vários primas.

Era inevitável que, diante da troca de contatos comum à Internet, em algum momento os gays diferentes se encontrassem e constatassem suas (dis)semelhanças com a vida gay. Criada em 2002, a lista de e-mails e posteriormente grupo do Yahoo QUALM (Queers United Against Laughable Mainstream, algo como LGBTs unidos contra o mainstream patético) tinha como objetivo sediar conversas entre “pessoas que não se encaixam na cultura gay do mainstream, na cultura hetero do mainstream ou na contracultura hetero”. Ali, críticas eram feitas ao que era tido por cultura gay não só com o intento de denegrir, mas também de compreender com propriedade para poder sugerir novos caminhos.

Fruto dos debates do QUALM e de outras casualidades, nasce em meados de 2007 o site The New Gay. Definindo-se mais como movimento do que página virtual e com o slogan for everyone over the rainbow (“para todos além do arco-íris”), o TNG alega em sua apresentação querer estar fora da matriz estreita que padroniza culturalmente os homossexuais. Um recente texto do site nos explica melhor essa idéia:

Vamos primeiro esclarecer que ser gay e ser parte da cultura gay são duas coisas diferentes. Ser gay, queer ou lésbica significa que você se sente atraído por membros do mesmo sexo. Fazer parte da cultura gay significa que você aceita e interage com uma monolítica e específica cultura, composta em sua maioria por pessoas que são atraídas pelo mesmo sexo. Uma cultura que, diferentemente de outras culturas de minoria, não o aceita automaticamente (grifo meu). Você tem que entrar nela.

Infelizmente, pelo menos na minha experiência, não foi muito fácil entrar nessa cultura. Primeiramente, ela é muito masculina e branca. Se você é lésbica ou de cor, já tem algumas dificuldades para ser aceito dentro dessa grande cultura. E de qualquer forma, nem os rapazes brancos têm essa facilidade, necessariamente.

A comparação com outras culturas de minoria é feliz no sentido de nos fazer refletir: não deveríamos fazer parte de uma cultura que aceita automaticamente todo o grupo LGBT? Isso não seria muito melhor e mais saudável? E como fazê-lo, afinal de contas?

Os textos do TNG seduzem por sua enérgica aversão a categorizações e, de fato, muitas das postagens trazem discussões novas para a roda do ativismo. Mas se por um lado todos os textos de introdução à proposta parecem entusiasmantes, por outro, nota-se um viés bem cultural e bem próprio em seu conteúdo. As constantes postagens de indicações da cena indie nos remetem bem mais à elaboração de uma contracultura gay do que de fato num Novo Gay. Fica a incômoda sensação de que quem não gosta dos frequentemente criticados clubes noturnos, do consumismo e da sexualização teria como alternativa única o refúgio sob esse outro guarda-chuva, que por mais que diga lutar contra regras e limitações, especifica seus próprios critérios de seleção quando não só estabelece um gosto para os gays diferentes como repudia de forma quase preconceituosa os gays normais.

É consistente a análise a respeito de uma cultura monolítica e excludente, mas de nada adianta se ela antecede apenas mais um processo seletivo. De qualquer forma, a médio prazo, foi essa a solução encontrada por gays diferentes de todos os tipos que se identificavam de alguma maneira: a guetificação.

No próximo texto, entenda como vem ocorrendo esse fenômeno e como ele vem sendo recebido pela mídia e pela cultura gay monolítica, agora em lenta fragmentação.

5 respostas para A crise da cultura gay monolítica – Parte 2

  1. Carolina Maia disse:

    Ah, a explosão pós-moderna do sujeito…
    Como tu apontou ali no início do texto, a guetificação surge por uma necessidade específica: era preciso ser reconhecido cmo homossexual. Quer dizer, se eu saísse de casa muito “femme”, outras sapatas não me veriam como uma igual…
    O furo nessa lógica está em achar que um componente de nossa identidade, ainda que seja algo tão importante como a orientação sexual, poderia ser suficiente para definir, sozinho, todas as posições (políticas, sociais, estéticas) a serem tomadas ao longo da vida.
    E é muito interessante o destaque que tu deu ao fato de que a “cultura gay” é masculina e branca – quer dizer, é a mesma lógica que opera na cultura mainstream heterossexual: branco e masculino é “universal”, o resto (a literatura dita “feminina”, por exemplo) é o resto.
    Parabéns pela crítica!

  2. luan oliveira disse:

    Ah, a explosão pós-moderna do sujeito…[2]
    acredito que a cultura gay,como todas as outras culturas do mundo,esteja passando por esse processo de transformação…essa fragmentação não só da cultura gay,mas da identidade geral do ser humano,pois para se existir a cultura gay se pressupõe que exista sujeitos com essa identidade sexual,se a cultura gay está mudando é pq esse sujeito q se identificava como gay tbm está em tranformação…

  3. […] do Homomento, é a fragmentação da cultura gay. Como ele sustenta nas suas críticas à cultura gay monolítica (quem não leu ainda, vale a pena pesquisar no blog e ler as três partes!), a […]

  4. […] Michael Eichler, do The New Gay Não é a primeira nem será a última vez que The New Gay vai aparecer aqui no Homomento, pelo simples motivo de que […]

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