Como um menino aprender a ser um homem

25 de janeiro de 2011

Esses dias eu relia uns posts do É bom pra quem gosta e encontrei uma indicação a esse texto aqui, que me agradou a ponto de me por a fazer uma tradução instantaneamente. A leitura é válida porque traz de modo informal a reflexão sobre esse tema tão complexo que é a performatividade do gênero.

Como um menino aprende a ser homem
Michael Kimmel*

Como ativista e pesquisador do tema da masculinidade, frequentemente me perguntam: onde é que ela começa? Como é que um menino aprende sobre a masculinidade? Embora as imagens da masculinidade nos cerquem, nos bombardeiem diariamente, foi apenas observando as experiências do meu filho Zachary que eu vi com tanta clareza como alguém chega a entender que a masculinidade é uma performance, uma pose, uma postura, como ela é extraída de nós e o preço psíquico e físico que isso exige.

Abaixo estão vinhetas de três momentos diferentes do processo.

1. 3 ANOS DE IDADE
Zachary gostava de jogar um jogo que chamamos de “opostos”. Você sabe como é: eu digo uma palavra, e ele me diz o contrário. É simples e divertido, e já jogamos bastante. Uma noite, minha mãe estava nos visitando e nós três estávamos caminhando no parque da vizinhança jogando Opostos. Áspero/suave, alto/baixo, rápido/lento – enfim, já deu pra entender. Então minha mãe perguntou: “Zachary, qual é o oposto do menino?”.

Meu corpo inteiro ficou tenso. “Lá vem”, eu pensei: Marte e Vênus, o sexo “oposto”, o gênero binário.

Zachary olhou para sua avó e disse: “Homem”.

2. 8 ANOS DE IDADE
Quando o oitavo aniversário de Zachary se aproximava, eu e sua mãe perguntamos qual tema ele queria para a festa. Nos dois últimos anos havíamos comemorado na pista de gelo local – a mesma onde ele joga hockey com seu time aos sábados pela manhã. Ele rejeitou a ideia. “Já fizemos isso antes, pai. Além disso, eu patino lá o tempo todo”.

Outros temas que outros meninos da turma tiveram recentemente – uma festa com atividades e brincadeiras, um jogo de futebol ou uma caça ao tesouro – foram sumariamente rejeitaidos. O que ele poderia querer?

“Uma festa de dança”, ele disse finalmente. “Com um globo espelhado”.

Eu e sua mãe nos entreolhamos. Perguntamos: “Dança? Mas Zachary, você só tem oito anos”. “Não, não estou falando de dança“, disse ele, fazendo aspas com as mãos. “Estou falando de coisas como Cotton Eyed Joe, Virginia Reel, Cha Cha Slide e outros jogos de dançar”.**

Assim fizemos então: uma festa dançante – para seus 24 amigos mais próximos (a escola incentiva que convidemos toda a turma). Com uma parcela igual de meninos e meninas.

Todas as doze meninas dançaram entusiasmadamente. “Essa é a melhor festa do mundo!”, disse Grace. As outras exclamavam em concordância.

Quatro dos garotos, incluindo Zachary, dançaram junto. Eles também estavam se divertindo bastante.

Quatro outros garotos chegaram, observaram a cena e imediatamente se dirigiram a uma parede, onde cruzaram os braços sobre o peito e se recostaram. “Eu não sei dançar”, disse um deles. “Eca”, disse o outro. Eles assistiram e eventualmente tentaram interromper a dança, parecendo zombar dos dançarinos enquanto se enchiam de petiscos e não aparentavam estar aproveitando a festa.

Outros quatro garotos começaram a tarde dançando alegremente, sem nenhuma pitada de vergonha. Mas aí eles viram os garotos encostados na parede. E um a um, pararam, se dirigiram à parede e observaram o restante.

Só que não dava pra manter a pose por muito tempo. Depois de ver as crianças fazendo passos de dança hilários eles voltavam atrás, dançando como demônios, apenas para depois parar, observar os meninos da parede e voltar para a mesma.

Da pista à parede eles foram a tarde toda, alternando entre o entusiasmo e o receio, entre dançar alegremente e observar com desgosto. Meu coração doía por eles enquanto eu observava seu impasse entre serem crianças ou rapazes.

Ou entre serem pessoas ou rapazes. Serem pessoas capazes de uma ampla gama de prazeres – de acabar com os rivais no placar do hockey e fazer aquela exclamação vitoriosa em que se fecha os punhos e se puxa o cotovelo pra trás a dançar a quadrilha com seus parceiros no Cotton Eyed Joe. Ou serem rapazes, para quem o prazer se define agora por tirar sarro da alegria dos outros.

Oscilando entre a masculindade infantil e a adulta, eles estavam fazendo escolhas, e dava pra perceber o quão agonizante era fazê-las. Eles odiavam ficar na parede, e lá permaneciam até não conseguir aguentar. Mas uma vez que voltavam à pista, estavam agudamente conscientes que eram agora objetos do ridículo.

Lembrei disso esses dias quando outro jornalista fez uma pergunta que provavelmente me fazem uma vez por semana, cada vez que um jornal ou revista “descobre” que os homens estão confusos sobre o que significa ser homem atualmente.

Esse é o preço que pagamos para ser homens: a supressão da alegria, da sensualidade e da exuberância. E a compensação é se sentir superior aos outros estúpidos que tem a audácia de se divertir.

Eu torço para que meu filho resista à parede e siga dançando como criança.

3. 10 ANOS DE IDADE
Enquanto Zachary e eu íamos à escola, fiz-lhe a mesma pergunta que costumo fazer aos jovens na universidade e nas escolas de ensino médio. “O que você acha que significa ser um homem?”.

Zachary pensou por um momento. “Engraçado, pai”, falou. “Nós estavamos falando sobre isso no time de futebol. Um dos meus colegas disse ‘quem se importa se você está machucado? Você tem de ser homem, ser forte o suficiente pra jogar mesmo com dor’. Então eu acho que significa ser forte”.

Alguns passos depois, ele parou de caminhar. Em um daqueles momentos bem familiares para qualquer pai ou mãe, ficou ali parado, tão perplexo que dava pra imaginar as engrenagens trabalhando dentro da sua cabeça. “Na verdade, pai”, ele disse, “eu acho que não significa ser forte. Eu acho que significa fingir ser mais forte do que você é”.

* Kimmel é sociólogo, professor na State University of New York e tem várias publicações na área das masculinidades. Além disso, é respresentante de uma organização norteamericana de homens contra o sexismo, o NOMAS.
** Nota de tradução: pesquisei no YouTube e são danças num estilo quadrilha ou Macarena que costumam fazer bastante nos colégios norteamericanos. Se bateu a curiosidade basta clicar nos links que coloquei ali e tentar fazer também.


Eles contra elas

4 de janeiro de 2011

Há mais de mês aconteceu o Dia Internacional da Não Violência Contra a Mulher. Aí a Lola do Escreva Lola Escreva, um dos meus blogs favoritos, fez um post especial para os homens. Com o título “Homem, faça a sua parte”, ela sugere algumas coisas que os homens poderiam fazer para participar da luta contra o machismo.

A blogueira explica que logicamente não são todos os homens que estupram e agridem mulheres, mas que essas agressões são feitas por homens. E que esse assunto, o da violência contra a mulher, deveria dizer respeito a todos, independente do sexo. Não precisa ser agressor nem agredido pra se envolver nessa luta e querer que a situação acabe, logo, homens que não agrediram e mulheres que não foram agredidas podem e devem participar.

Aí vêm algumas dicas de coisas que podem ser feitas por homens que querem participar desse conjunto de práticas que engloba a luta feminista.

Permita-me algumas sugestões: se você tiver um blog, escreva sobre isso. Escreva sobre quando você começou a autoanalisar o seu sentimento de posse. Escreva sobre o que viu de desigual no relacionamento entre os seus pais. Escreva sobre o ciúme doentio que você sentiu aquela vez da sua namorada. Escreva quando descobriu que as mulheres merecem respeito.

Copiado esse trecho, preciso fazer alguns comentários.

Pra começar, quero questionar essa ideia de que os homens “também” podem se interessar pelo feminismo. Tenho certeza que a Lola sabe que ser mulher não significa ter interesse automático por aquele conjunto de coisas que se entende como “emancipação feminina”, mas a premissa do texto não deixa isso claro. A leitura me fez remexer na cadeira porque parecia que bom, nem precisamos falar sobre como o feminismo é caro às mulheres, agora vamos aos homens.

O machismo é um sistema simbólico que não foi deliberadamente criado. Não houve um momento em que homens se opuseram a mulheres e submeteram elas, contra a sua vontade, e desde então elas vêm umas sendo submissas e outras reparando o quanto essa situação é horrorosa. Não é dualista, mas totalmente complexo e enraizado culturalmente. O feminismo, no entanto, se organizou em torno de mulheres, e vem sendo caracterizado como “luta feminina”. Se cria aí essa visão polarizada que é extremamente problemática.

Quando um marido oprime a esposa de alguma forma não estamos falando de uma situação em que um homem dominador e possessivo violentou uma esposa submissa que, se pudesse, estaria numa relação diferenciada. A relação já se estruturou assim desde o começo porque os dois quiseram. Tanto o homem escolheu uma parceira-objeto quanto a mulher procurou um parceiro que a objetificasse, e essas escolhas foram condicionadas e impostas a eles desde que nasceram.

A sugestão de Lola é que homens esclarecidos falem sobre o momento da quebra, em que repararam que não é legal ter o sentimento de posse, desrespeitar as mulheres, sentir ciúme doentio e outras coisas mais. Que eles colaborem com relatos que possam ser lidos por machos chauvinistas, que quem sabe possam se sensibilizar.

Mas acontece que esses homens sensíveis de Lola vivem em um mundo em que a grande maioria das mulheres busca por objetificação, luta por submissão e reafirma diferenças categóricas entre os sexos que acabam sempre diminuindo a mulher. Pra dar um exemplo: há alguns meses falei sobre um livro chamado “Cuidado! Seu príncipe pode ser uma Cinderela” que é um manual para a mulher identificar se o seu marido é um gay enrustido que quer manter as aparências. Os parâmetros? Se ele for muito carinhoso, se vestir bem, tiver uma boa relação com a própria mãe, ele é gay e você está sendo enganada. O livro diz à mulher o que NÃO se esperar de uma relação heterossexual, ou seja, carinho, companheirismo, etc. E, que surpresa: foi escrito por duas MULHERES, visando “ajudar” MULHERES.

Esses dias li um tweet dizendo que acusar as mulheres de serem perpetuadoras da pior espécie de machismo seria a configuração de um neomachismo, um machismo dois ponto zero. Realmente é de uma pobreza enorme desculpabilizar homens, mais ou menos como aquela premissa escrota de que “são os negros que são racistas consigo e se excluem”. Mas não é dentro desse esquema argumentativo que quero me inserir.

Quero dizer mais ou menos o que falei no meu post anterior, só que trazendo isso pro feminismo, porque é importante. Não se trata de vítima contra opressor, mocinho contra bandido. Não são mulheres (e homens esclarecidos) lutando contra homens machistas. São pessoas que pensam uma coisa se opondo a pessoas que pensam outra coisa. É muito ingênuo endereçar “também” aos homens os objetivos feministas, como se qualquer mulher entendesse o que são estes e se interessasse por eles. Qualquer mulher está apta a perceber que existe essa violência específica, mas não a perceber que as origens dessa violência são simbólicas e perpetuadas em todos os cantos diariamente. E é essa percepção, na minha opinião, que difere uma mulher feminista de uma mulher que se diz feminista.

Uma coisa que me chateou bastante em outro texto da Lola, e eu até reclamei pra ela no twitter sem obter resposta, foi ela dizer que tanto mulheres quanto homens podem sofrer violência sexual, mas apenas homens a cometem. Isso não é verdade: mulheres podem abusar de mulheres, e de homens também. E é um absurdo, uma falta de sensibilidade dizer o contrário. Eu não sei em que momento essa obviedade escapou da Lola, mas acho que foi quando ela começou a colocar as mulheres no pedestal de vítimas.

Esses dias vinha relendo os textos da época em que o Homomento não era um blog semimorto e bissexto e percebi que a grande maioria das nossas críticas foi tecida em relação à militância/mídia/comunidade gay. Nunca nos interessou pressupor um todo LGBT organizado para, em cima disso, partir para as críticas do “mundo hetero”. Reparamos que muitas vezes práticas que se pretendem inclusivas entre os LGBTs são normativas, machistas, racistas e escondem uma profunda decepção interna por não serem heterossexuais. Não estou falando da “homofobia internalizada”, esse que se tornou um recurso ativista gay para falar de qualquer homossexual que não se comporte como a militância pede, mas de práticas celebrativas e enquadradoras como o já analisado Mister Gay Brasil.

Adoraria pensar que lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros partilham todos do mesmo desejo emancipatório, e que se assumir significa ser fazer algo de diferente e efetivo para os gays, independente do contexto e da forma como vai ser administrada essa homossexualidade escancarada. Adoraria escrever longas cartas para meus amigos heteros “esclarecidos”, incitando-os a participarem da luta pelos gays. Mas não divido o mundo em preto e branco e sei que o buraco é sempre, sempre mais embaixo.


Eles contra nós contra eles

19 de outubro de 2010

Uma coisa é fazer uso de um discurso sofista e conservador, dizendo que “não se pode ser preconceituoso com o preconceituoso”. Outra coisa é se propor um tratamento crítico das discriminações, sem categorizá-las identificando bons e maus de forma maniqueísta.

Os evangélicos, ou crentes como alguns preferem ser chamados, formam um grupo que tem sua própria vivência com a discriminação. Nossa cultura católica não gosta desses filhos rebeldes e taxa-os de fanáticos, ignorantes, etc. O “eu” brasileiro é homem, branco, católico e hetero, e pensa que qualquer sujeito que não se encaixa nesses padrões tem de estar à margem.

O que acontece é que as essas “minorias” exclusas, na busca por inclusão, não quebram o padrão masculino, branco, católico e hetero: apenas transgridem o que lhe diz respeito e continuam operando na lógica que lhes esmagou. Temos, assim, feministas brancas, católicas e hetero excluindo lésbicas; homens negros, católicos e heteros menosprezando mulheres e homossexuais; homens gays, brancos e católicos discriminando negros e mulheres e assim vai. Assim, embora partilhem da experiência de ser o “outro” social, todos esses grupos não-masculinos, não-brancos, não-católicos e/ou não-heterossexuais, dentro das infinitas combinações que podemos ter aí, brigam entre si por preciosismos e casualidades, sem a percepção de que continuam todos subjugados e diminuídos no meio em que se encontram. No caso dos gays versus evangélicos isso é muito mais acentuado; se nem movimentos sociais conseguem se conciliar, que dirá um religioso e um social?

Além disso, temos um fator importantíssimo que é o teor da doutrina evangélica. Num tempo em que o politicamente correto predomina e ser preconceituoso é feio, cafona, fora de moda, muitos neopentecostalistas têm uma postura de clara discordância em relação às práticas homossexuais. A polarização entre os dois grupos vem ficando ainda mais nítida com os debates no Congresso, especialmente em torno do PLC 122/06, que se na opinião de LGBTs é importante para criminalizar a homofobia, na opinião de muitos religiosos é absurda por vetar elementos constituintes do seu código de crenças. Essa questão separaria definitavamente os interesses de ambas as minorias e faria das lutas de ambos coisas totalmente diferenciadas, certo? Errado.

Acontece que a voz evangélica no congresso, ao tentar barrar medidas pró homossexuais, além de evitar o progresso dos direitos humanos no Brasil comete um equívoco ao fazer o interesse religioso pesar mais que o político na balança das prioridades. Quero dizer que esses evangélicos não podem esquecer que operam sob uma democracia liberal, e que lutar contra qualquer tipo de liberdade – religiosa inclusive, como buscam fazer com os cultos afrobrasileiros – significa lutar contra a própria, de certa forma.

É claro que é uma coisa muito séria dizer que os evangélicos têm de deixar a política pesar mais que a religião na balança de prioridades. Sabemos, afinal, que as religiões não funcionam dessa forma em sua episteme. Mas historicamente tem sido assim; as instituições religiosas vão cedendo às transformações sociais e suas doutrinas são reinterpretadas. Sabemos, por exemplo, que esses grupos evangélicos – e mesmo os católicos tradicionais – são essencialmente contra o divórcio, mas se dentro das igrejas pode-se falar bastante disso, fazer do casamento novamente um laço vitalício não está em questão em âmbito sociopolítico. Ninguém foi preso por discordar do divórcio, assim como ninguém seria preso por discordar da homossexualidade; as leis apenas buscam gantir que o direito de se divorciar e de ter relações homossexuais não fossem negados aos integrantes da sociedade em questão. E que, no caso dos homossexuais, não houvesse possibilidade de alguém difamá-los, tratá-los como doentes e promover um discurso odioso contra eles na esfera social.

Tomo como equívoco sobrepor interesse religioso a político porque sabemos que os evangélicos formem paradoxalmente um grupo político com interesses próprios no atual Estado brasileiro e ao mesmo tempo não formam grupo nenhum, uma vez que estão espalhados da esquerda à direita, com direito a boas doses de centro. Então ao mesmo tempo que alguns dizem que se deve reconhecer que faz parte do processo democrático se formar uma junta evangélica que queira lutar por seus interesses, o argumento é falho porque esses senhores reconhecem a laicidade de seu ofício e se sujeitam a jogos partidaristas que no fim das contas pouco dizem respeito a princípios bíblicos.

Fui longe, dei um nó e agora volto pra enfim ir direto ao ponto: os interesses dos homossexuais e dos evangélicos são os mesmos; a garantia do reconhecimento de sua igualdade e da manutenção de suas liberdades dentro do nosso esquema civilizacional que é a democracia liberal. O que acontece é que determinada parcela do grupo evangélico não pensa dessa maneira, querendo garantir sua primazia de seu recém conquistado lugar enquanto homens, evangélicos, brancos e heterossexuais, lutando contra os direitos de mulheres, não-evangélicos, não-brancos e não-heterossexuais. Uma prática realmente nada nobre, mas que não determina que os crentes sejam cruéis, preconceituosos ou maus.

O que luto contra é uma perspectiva dualista, de que os evangélicos são os piores inimigos dos gays. Não o são, e pensar assim é uma coisa muito séria, muito feia. Evangélicos não são animais estúpidos e fanáticos. Talvez alguns sejam, mas alguns LGBTs também o são. Em verdade, é bem mais possível que um evangélico trate bem a uma lésbica do que uma pessoa que declaradamente “adora gays”, porque não só esse discurso de “adorar gays” é totalmente homofóbico como os mesmos evangélicos que pregam a homossexualidade como antinatural também pregam a solidariedade e o amor. Deve se considerar ainda que muitos desses crentes, por mais que na igreja sejam coniventes com certos tipos de discurso, não necessariamente compactuam com eles na prática e nem mesmo percebem isso. Não há que se rotular todas essas pessoas e presumir que elas pensam e vivem a religiosidade da mesma maneira.

Sou contra o preconceito contra evangélicos porque sou contra qualquer tipo de preconceito. É problemático assumir uma premissa como “aquilo no que eles acreditam é errado” porque é circular. Enquanto um diz que é errado ser algo, outro responde que é errado acreditar em algo. Cada surdo gritando sua verdade para fazer-se ouvir mais alto. Lutar pela garantia dos direitos humanos é lutar pela liberdade de opinião, e como venho enfaticamente falando desde o início do texto, isso é algo prezado por ambos os grupos. É claro que a linha entre a opinião e a difamação é tênue, coisa que todo esse debate em torno da lei da homofobia deixou bastante claro, mas antagonizar não é solução.

Atribuir a evangélicos o papel de nossos maiores inimigos é análogo a tapar o sol com a peneira. É mais confortável e mais fácil, afinal, apontar como opositor um pequeno grupo que declaradamente não gosta de homossexuais do que a grande maioria (inclusive a própria “comunidade gay”), cujo preconceito ganhou tanta malandragem que sabe até mesmo se disfarçar de progressista e pró direitos humanos. Não digo que não se deva brigar com a empreitada esquizofrênica dessa bancada no congresso e nem que não seja nítido o quanto pastores como Silas Malafaya promovem o preconceito. Apenas que não está nessas atitudes a origem da repressão a LGBTs, e que lutar SÓ contra elas, ver nelas o grande X da questão, é ilusório. E é, além de tudo isso, reafirmar um preconceito de origem católica. E entrar de vez na corrida maluca em que as minorias, preocupadas demais com a sua fatia do bolo, não se importam com todas as outras que também querem comer.


A coroação do Mister Diferença

10 de setembro de 2010

Bom, em primeiro lugar vamos falar sobre concursos de beleza femininos. Não é preciso ser daquelas feministas antiquadas e anedóticas que povoam o senso comum – com direito a sutiã queimado e tudo – para detestá-los. Não consigo ver, nesses concursos, sequer um ponto favorável ou um aspecto que não seja totalmente nocivo à vida em sociedade. A total objetificação da mulher; a obsessão pela juventude; a banalização da sensualidade; a padronização da estética. Ad infinitum.

Só por esses motivos já deveria ser ruim o suficiente haver tal convenção como um “Mister Gay” ou genéricos. Mas onde uns podem ver apenas uma atividade ingênua, talvez até divertida, eu vejo grandes problemas. Vejamos por que.

Realizar um concurso de beleza masculino e com a restrição de participantes gays pode parecer uma tentativa de analogia da “comunidade gay” com as atividades da “comunidade hetero”. Mas só poderíamos estabelecer a relação de analogia a partir do momento que temos como certo que há diferenças básicas entre os praticantes da hetero e da homossexualidade. Uma analogia, afinal, é a construção de semelhança de propriedades entre sujeitos de natureza diferenciada.

Aceitar o uso da analogia consistiria em reconhecer que a comunidade gay seria análoga à hetero, e natural seria que houvesse nela toda uma nova representação dos elementos existentes na comunidade heterossexual. Assim, o dano causado por um Mister Gay seria análogo ao causado por um Miss Universo, mas sempre com a adição da palavra “gay” ao final de cada frase: a total objetificação do homem (gay); a obsessão pela juventude (gay); a banalização da sensualizade (gay); a padronização da estética (gay). Ad gay infinitum. Dessa forma, os problemas enfrentados dentro do microcosmos homossexual reproduzem os do cosmos heterossexual.

Mas a analogia como método analítico, para mim, não é válida nesse caso. Não é, porque quando tratamos de heteros e gays, estamos lidando com indivíduos iguais, com uma diferença socialmente construída entre eles: o dispositivo da sexualidade. A diferenciação dos sujeitos com base nas práticas sexuais, a naturalização de comportamentos inerentes aos praticantes de determinadas atividades com base no sexo desses sujeitos. Constituir uma comunidade gay, com suas práticas análogas à hetero, é reafirmar essa diferença que, friso, foi construída. É colocar os oprimidos em um lugar seguro para os opressores – distanciado, segregado, categorizado – e manter conceitos totalmente construídos, como a “heterossexualidade”, intocados em seu lugar seguro.

Assim, constituir uma comunidade gay não é um ato de coragem. Antes, de conivência com a diferenciação que dá origem ao preconceito. De busca por reconhecimento como minoria por parte da suposta maioria hetero. “Temos nossa própria comunidade, logo somos como vocês”. Uma frase pobre e contraditória, uma vez que opõe “nós” a “vocês”.

Percebe-se que essa própria comunidade é totalmente restritiva e excludente. Procure a mídia “especializada” para constatar isso. Aquela mídia que gosta de se denominar como “gay”. Vá ler um Mix Brasil. Compre uma Revista Júnior. Faça esse exercício, mas, recomendo, não em ambiente de trabalho, se quiser evitar constrangimentos. Observe como o gay é homem, branco, de classe média, masculinizado, musculoso. Observe como a mulher e o negro não aparecem, a não ser que sejam a Lady Gaga ou um esterotipado negão ativo.

Sim, o “gay” da “comunidade” é totalmente heteronormativizado. Ao invés de análogo ao heterossexual, ou seja, semelhante dentro de suas diferenças, ele persegue o heterossexual. É um igual que reconhece a diferença que lhe foi imposta e, aceitando essa diferença inventada, persegue uma igualdade esquizofrênica que nem ele próprio acredita existir.

Assim, o Mister Gay passa de comemoração inocente para aparato repressivo dentro de um grupo que já é bastante esmagado por um sistema de falsa diferenciação. O homem afeminado que foi rejeitado na escola tem sim a chance de se encontrar em outro lugar: na “comunidade gay”. Mas é claro, para tal, ele tem de abrir mão de sua afetação e perseguir uma masculinidade comportamental e corporal, traduzida em trejeitos e músculos. Ele tem de fazer tudo o que um homem encaixado na norma heterossexual faz, exceto, é claro, praticar sexo com mulheres, afinal ele é dotado do sufixo “gay”. Enfim, ele tem de abrir mão daquilo que ele é, para lutar pelo direito de ser algo que nunca foi. Quem sabe assim ele ganhe algum prêmio. Uma linda faixa que diga: este está enquadrado.


Cuidado! Sua homofobia pode ser um machismo

10 de junho de 2010

Duas publicações desse semestre me chamaram muito a atenção. No melhor estilo “livro de banca”, ambas abordam a homossexualidade sob perspectivas bastante perigosas. Estou falando de “Cuidado! Seu Príncipe Pode Ser uma Cinderela – Guia Prático para Identificar um Gay no Armário” (editora Best Seller) e “Porque toda Mulher Precisa de um Gay em Sua Vida” (editora Matrix).

O primeiro é fruto de uma pesquisa de duas jornalistas que para escrever sua obra entrevistaram “médicos, psicanalistas, arquitetos, empresários, hostess de boates gays, modelos que atuam como damas de companhia de enrustidos e, é claro, mulheres que caíram no conto do Príncipe-Cinderela”. A ideia é ajudar mulheres casadas a identificar se seus maridos são homossexuais enrustidos.

A equipe da Veja se prontificou a ler o livro e fazer uma síntese dele, criando um teste rápido no site da revista para ajudar as inquietas de plantão a desmascarar seus maridos. Conforme as perguntas do teste vão sendo respondidas, são marcadas em rosa as respostas que indicariam homossexualidade do cônjuge. Confira o exemplo abaixo: as respostas em cinza são as que denotariam heterossexualidade.

Ao fim do questionário, um gaydar aponta para a esquerda, onde meias sujas e luvas de boxe estão representadas, ou para a direita, onde vemos uma chapinha e um retrato do Village People. A maior inclinação para um lado ou outro indicam se o dito cujo é príncipe ou princesa.

O segundo livro, “Porque toda Mulher Precisa de um Gay em Sua Vida”, é basicamente um ensaio sobre as amizades entre gays e mulheres. Diz que é ótimo para elas ter amigos homo porque eles são divertidos, bem informados, gostam de olhar vitrines, fofocar e dar conselhos.

Poder-se-ia direcionar a crítica a essas obras sob o aspecto da estereotipificação. Mas confesso que me vi muito mais preocupado com outro assunto que também está presente nos dois livros.

O público alvo, tanto do “Príncipe” quanto do “Amigo”, é feminino. E o tema central é a relação da mulher com o homossexual – enquanto amizade ou enquanto enganação. Os parâmetros para se chegar ao ponto principal de cada obra, além da estereotipificação do gay, são também, de modo mais sutil, a definição do que é o verdadeiro homem hetero e do que deve ser uma genuína relação heterossexual.

Estabelecem-se regras do que uma mulher realmente deve esperar de um casamento quando se diz “se seu marido é arrumado demais, ele é gay” ou “você precisa ter um amigo gay para falar sobre moda e fofoca”. É uma forma de reafirmar a construção da mulher romântica e submissa, da dona de casa que trabalha feliz e se contenta, pois afinal seu marido é, com certeza, heterossexual. Uma das questões do teste da Veja exemplifica bem essa questão, quando diz nas entrelinhas: homem que é homem não mostra afeto ou mostra pouco, e a mulher tem que se contentar com isso.

Além de ofender aos gays, o livro apresenta descrença na relação hetereossexual quando diz que ela não pode ser afetiva demais

A homofobia não existe isolada nem opera sozinha no mundo em que vivemos. Ela é fruto de uma visão binária, de uma polarização dos sexos que estabelece funções e comportamentos para masculino e feminino. Machismo e sexismo andam, por isso, de mãos dadas com o preconceito com homossexuais, e lutar contra um isoladamente é ignorar a origem que todos têm em comum. “Cuidado! Seu Príncipe Pode Ser uma Cinderela” e “Porque toda Mulher Precisa de um Gay em Sua Vida” são, mais do que perpetuadores de ideias superficiais e bobas sobre gays, reforçadores da opressão à mulher.


O retrato cor de rosa da Veja

10 de maio de 2010

Caros leitores da área do marketing, por favor, me auxiliem a compreender as últimas semanas da revista Veja. A julgar pela foto meiga de José Serra em uma capa e as frases inventadas atribuídas ao antropólogo Viveiros de Castro, a estratégia de divulgação do veículo guinou para o “fale mal, mas fale de mim”. A última capa da revista, que traz como destaque a crescente facilidade em assumir-se gay na adolescência, não escapa às críticas, nem mesmo – ou principalmente – de integrantes da tal “Geração Tolerância”.

Não estamos dizendo aqui que o fato retratado pela revista não exista. Ninguém seria tolo ao ponto de rejeitar a ideia de que assumir-se gay ou lésbica (a matéria não trata de bissexuais ou transgêneros) em nossa sociedade está mais fácil hoje. O assunto deixou de ser tabu, avançamos consideravelmente no plano dos direitos, conhecemos cada vez mais pessoas assumidas – na mídia, em nossas relações sociais – para termos e citarmos como exemplo. E o fato de os adolescentes conseguirem encarar cada vez mais cedo o momento de se assumir deve sim ser encarado como positivo. É um sinal de que essa identidade não é mais vista como um fardo a carregar ou algo a esconder.

O problema está na simplicidade com que a reportagem trata essa mudança, uniformizando a abrangência desse fenômeno da “tolerância” e apresentando-o de forma totalmente acrítica. Em primeiro lugar, o problema é de texto: o tom da matéria é quase comemorativo, e tende a minimizar as dificuldades encontradas pelos personagens. Nesse mundo cor de rosa, o preconceitopraticamente não existe mais. Em segundo lugar, a matéria cita uma série de pesquisas descontextualizadas, em que os números são jogados de forma a comprovar a hipótese dos repórteres. Podemos citar uma passagem:

“Em 1993, uma aferição do Ibope cravou um número assustador: quase 60% dos brasileiros assumiam, sem rodeios, rejeitar os gays. Hoje, o mesmo porcentual declara achar a homossexualidade “natural”, segundo um novo levantamento com 1.500 adolescentes de onze regiões metropolitanas, encabeçado pelo instituto TNS Research International.”

Novamente, não estamos descartando a possibilidade de o percentual de brasileiros a “rejeitar os gays” ter diminuído de 93 para cá. Apenas sustentamos que “achar a homossexualidade ‘natural’” não é um argumento suficiente para validar a ideia de que temos, ao menos entre os jovens, 60% de simpatizantes em vez de 60% de homofóbicos. Se pensarmos em natural como “referente à natureza”, um avanço pensar na homossexualidade como algo “natural” e não uma “perversão”, mas também devemos manter em mente o fato de que a cor também é determinada por fatores “naturais”, e isso não impede a existência do racismo. Por outro lado, se pensarmos em “natural” como “comum, rotineiro, sem dificuldades”, temos que levar em conta a compreensão da pergunta e a autocensura de quem responde. Para continuar citando pesquisas: uma pesquisa conduzida em 2008 pela Fundação Perseu Abramo – um dado que a matéria da Veja poderia ter pesquisado – constatou que cerca de 90% das pessoas concordava com a “existência de preconceito” contra os LGBT, ainda que aproximadamente 70% dos entrevistados negassem ser, eles próprios, preconceituosos em relação a essa população. Onde foram parar os intolerantes, então? Eles se revelam em outras perguntas: 92% dos entrevistados por essa pesquisa concordaram com a frase “Deus fez o homem e a mulher com sexos diferentes para que cumpram seu papel e tenham filhos”, 62% defendiam que “casais de gays ou de lésbicas não deveriam andar abraçados ou ficar se beijando em lugares públicos”, e 40% acreditavam que “a homossexualidade é uma doença que precisa ser tratada”.

Enquanto os números acima exigem o uso da interpretação e da compreensão da subjetividade dos envolvidos, existem números muito mais claros que a matéria em questão deixa de lado. Estamos falando das estatísticas levantadas pela ONG Conexão G no grupo de favelas cariocas conhecido como Complexo da Maré. Essa organização sustenta que nas comunidades do Rio ocorre pelo menos um incidente por dia de violência motivada pela sexualidade da vítima. Certamente, nem todos os ataques devem envolver integrantes da tal “Geração Tolerância”, mas já nas primeiras linhas da reportagem que o jornal O Dia fez sobre essa estimativa encontramos o depoimento de uma lésbica de 24 anos:

“Além de bater nos gays e travestis, os bandidos ficam ameaçando estuprar as lésbicas. Fazem um terror psicológico insuportável”, conta. “Quando descobrem uma lésbica no morro, dizem que a garota só se tornou homossexual porque não conheceu homens de verdade. E que darão ‘um jeito’.”

A reportagem, portanto, ignora o que se passa nas camadas mais pobres; a própria reportagem frisa que “A tolerância às diferenças (…) está se tornando uma regra – especialmente entre os escolarizados das grandes cidades brasileiras” (grifo meu). Esse retrato da juventude a partir de uma juventude específica, a juventude de classe média e principalmente classe média alta, não surpreende – afinal de contas, é a Veja. O que surpreende é notarmos que mesmo aqueles que são retratados pela reportagem sofrem ou sofreram alguma discriminação em virtude de sua homossexualidade. A família de Lucas El-Osta, por exemplo, levou o rapaz ao psicólogo e à igreja quando soube de seu interesse por outros meninos; Hector Gutierrez era chamado de “bicha” no colégio. Mesmo dentro do universo de Veja, a tolerância não é instantânea. Fora dele, ela não se estende a todos os casos (quem é LGBT, tem cerca de 20 anos e sofreu algum grau de bullying por isso no colégio, por favor “levante a mão” na caixa de comentários).

Uma outra característica importante a ser destacada nessa “tolerância” retratada pela revista é que ela se aplica à homossexualidade, mas não necessariamente inclui outras sexualidades. Os bissexuais foram deixados de fora da reportagem, e mesmo a fronteira tênue que confunde homos e bissexuais na adolescência não é sequer mencionada. Na “geração que rejeita os rótulos”, a reportagem só encontrou homossexuais. Se formos pensar em termos de identidade de gênero, o buraco é ainda mais embaixo. Se nem bissexuais entram na matéria, o que esperar em termos de identidades trans? Evidentemente, esse é mais um silêncio da “Geração Tolerância”. Podemos ir mais longe: uma entrevistada salienta: “nunca fiz o tipo masculino nem quis chocar ninguém com cenas de homossexualidade”, um casal afirma “andar de mãos dadas às vezes, nunca se beijando em público”. A tolerância dessa juventude é maior quanto menos visíveis estiverem as diferenças, e a própria sexualidade é vista como motivo para “choque”.

Recapitulando então: essa mudança de mentalidade não acontece em todos os casos, nem com todas as identidades sexuais; é um fenômeno que, como a matéria mostra, é característico de uma geração específica e, principalmente, não acontece em todos os lugares nem em todas as classes sociais. Não estamos dizendo que essa mudança não é importante. Só defendemos que ela precisa ser minimizada e compreendida dentro do contexto social em que ela acontece.

E agora que já demos à Veja a atenção que ela merecia, que tal pararmos de dar corda à estratégia de dar audiência para matérias ruins? A última Piauí tem uma reportagem bem legal sobre mudança de sexo!


Dogmas da Razão

23 de abril de 2010

Abril tem sido um mês de declarações absurdas vindas de sujeitos importantes, dotados de poder e visibilidade. Na segunda-feira da semana passada, dia 12, o cardeal Tarcisio Bertone afirmou que “diversos psicólogos e psiquiatras já declararam que não há relação entre o celibato e a pedofilia, enquanto muitos outros disseram, pelo que fui recentemente informado, que há a relação entre pedofilia e homossexualismo (sic)”. Quem também nos agraciou com sua sabedoria na última terça, 20, foi o presidente boliviano Evo Morales, dizendo que “o frango que comemos está carregado de hormônios femininos. Por isso, os homens que comem esses frangos têm desvios em seu ser como homens”.

Felizmente a contestação veio como resposta para ambos: contra o cardeal, ativistas gays de todo o mundo e o próprio Vaticano; contra o presidente, os exportadores de frango (!). É que a base argumentativa dos senhores, por mais científica que seja, é já ultrapassada, considerada ridícula pela comunidade acadêmica. Dentro dessa lógica, se Bertone e Morales fossem leitores mais assíduos, influenciados por um conhecimento atualizado e politicamente correto, não profeririam tais besteiras.

Mas será que o problema se resume a isso? Uma mera falta de atualização?

Quem tem alguma leitura sobre o tema da sexualidade sabe que a ciência natural foi, historicamente, uma das ferramentas mais eficientes na sua repressão. Nos séculos XVIII e XIX, quando a razão iluminista se abateu sobre os homens, as justificativas católicas para a privação do sexo já não eram satisfatórias, e o controle do Estado sobre o corpo se justificou pouco a pouco através de estudos cientificamente comprovados.

Muito se fala que o homem pré-moderno era tolo, imerso numa escuridão de ignorância que era gerada e operada pelo cristianismo, mas há algumas decadas há pensadores que apontam para uma simples mudança de paradigma: do religioso para o científico. Se antes a religião era a forma de enxergar e explicar o mundo, além de código normativo de conduta do ser humano, agora era vez da ciência ditar as regras. Tornou-se verdade absoluta e incontestável, com um lugar de alto prestígio nas sociedades.

A crítica aqui não é no sentido de se construir uma anarquia do saber, em que a intuição é mais válida que o empirismo, mas de se levar em conta que a episteme e o método são suscetíveis a falhas. Não se pode apenas tirar a religião do altar para substituí-la pela Razão. Deve-se destruir o próprio altar.

Os dois casos, do cardeal e do presidente, exemplificam bem essa substituição de prioridades. O preconceito com homossexuais é antigo, de origem cristã, mas a justificativa é científica. Até o representante de uma das maiores instituições religiosas do mundo reconhece que o mundo em que vive é cético, e, adepto de uma teologia que convive em paz com a ciência, se vale de argumentos científicos para tentar fazer imprensa e sociedade concordarem com seu preconceito, que tem origem religiosa. Mantém-se os valores e as construções sociais, alteram-se os meios para legitimá-las.

Os senhores bem poderiam buscar novos estudos biológicos e psiquiátricos sobre a sexualidade, buscando novas formas de embelezar sua homofobia, e talvez até tivessem sucesso em seu objetivo. Alguns cientistas naturais insistem em estudar as sexualidades e suas “origens”, pensando que podem explicar tudo. A antropologia, que por relativizar a cultura ocidental ensaiou um rompimento com os paradigmas iluministas, nos diz no entanto que a sexualidade é assunto cultural, manifestando-se de maneira distinta em cada sociedade e fora portanto do escopo dos estudiosos da natureza. Fato que o cardeal e o presidente, limitados pelos dogmas da Razão, estão inaptos a enxergar.


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