Homomento discute a décima edição do BBB

29 29UTC janeiro 29UTC 2010

Já faz duas semanas que o assunto da vez, tanto nos sites gays quanto na mídia em geral, é a décima edição do Big Brother Brasil: em especial, a presença de integrantes abertamente homossexuais na casa. A equipe do Homomento, que vem desde então discutindo suas opiniões sobre a questão, quis reunir algumas ideias soltas, sem o compromisso de um texto organizado e coerente. Convidamos todos à leitura e à discussão.

O óbvio ululante: a existência de homossexuais

Acho que o primeiro e mais óbvio ponto é que, bem ou mal, contamos com a presença de três homossexuais assumidos em um programa de altíssima audiência. É interessante compararmos a porcentagem de LGBTs no programa, de 17%, com a estimada para homos no “mundo real”, que varia de 10 a 19% de acordo com o contexto. Sabendo que a escala está mais ou menos correta, nos perguntamos: porque então toda a polêmica? Porque os apelidos como “Big Brother Gay”, se tem tantos lá dentro quanto aqui fora? A questão evidencia o quanto a homossexualidade é deixada à margem das discussões.

Trazendo a discussão à tona do lado de fora

Observar três homossexuais como ratos de laboratório pode ser instigante, e levar as pessoas a questionamentos diversos: “mas o que são homossexuais? Como eles são, o que fazem? Porque fazem? Qual a diferença entre eles e as outras pessoas?”. Por mais que seja condicionada pela edição do programa, essa curiosidade pode ser proveitosa.

61% das buscas na primeira semana de programa foram motivadas pela dúvida em relação a palavra Homofobia

Em um dos programas da primeira semana o participante Dicesar, conhecido como Drag Queen Dimmy Kieer, acusou outro competidor, Marcelo Dourado, de homofóbico. Em resposta, o Homomento foi selecionado para sanar, em diversas buscas, a seguinte questão: “Qual o significado de homofobia?”. Acredito que o post “Sobre a homofobia e seus significados” tenha suprimido a curiosidade de vários internautas, entretanto alguns curiosos mais práticos optaram pelo bom e velho dicionário, fato constatado pelo nosso blog:

O Priberam é o primeiro dicionário nas opções de busca do Google

Lidando com estereótipos

Enquanto Dicésar e Sérgio são gays mais característicos, com comportamento beirando o anedótico, Angélica é uma lésbica discreta e que não dá pinta nenhuma. Em outras palavras: notadamente, nessa edição o estereótipo da bicha é reforçado e o da sapatão já cai por terra. Mas pensemos um pouco além. Como se trata de um reality show longo, o comportamento dos participantes é exibido por semanas a fio, e é possível que os espectadores esqueçam um pouco da caricatura para enxergar as pessoas por trás delas, pondo em jogo vários preconceitos.

A ilha gay e a divisão forçada das tribos

A separação dos participantes em grupos também é intrigante. Não é preciso uma análise muito inteligente para perceber que a divisão não é exatamente lucrativa para os gays. Os LGBTS não criaram vínculos fortes de amizade entre si e preferiram se relacionar com pessoas de fora dos “Coloridos”. Até aí nenhum problema, afinal a intenção é o atrito, a grande falha na nossa visão é a segmentação forçada entre clãs, que reforça estereótipos e valida a marginalização do gay. A impressão do telespectador é que a repartição aconteceu da seguinte maneira “ok, temos três gays, gostaríamos de colocá-los em um nicho segmentado então vamos inventar outra denominação para os moradores que sobraram”.

Um diálogo que acompanhei entre a participante Angélica (assumidamente homossexual) e Cláudia (do grupo “sarados”) serve como exemplo. Na conversa a participante “sarada” falava que não entendia porque estava em seu próprio grupo porque em comparação a outros competidores, como por exemplo Eliéser (tribo dos belos), pouco frequenta a academia. Digo isso porque com exceção dos coloridos (em que todos compartilham algo: ser gay) nenhum outro grupo realmente tem alguma coisa em comum, visto que nem todos os “sarados” são realmente sarados, tão pouco os “belos” são todos “belos”, os cabeças nem comento, e os “ligados”, bom, os “ligados”, o que viria a ser “ligado”?

A normatização do politicamente correto

Uma contribuição que as edições anteriores do Big Brother já haviam trazido foi a vilanização da homofobia. Por incrível que pareça, todavia, não se sabe até que ponto isso é realmente positivo.

É nítido que na dinâmica do programa costuma-se construir heróis e vilões, simpáticos e malditos, coitadinhos e opressores. Nessa necessidade às vezes involuntária de divisão binária e estática, podemos observar uma série de comportamentos e posturas respeitosas a homossexuais que não se configuram exatamente a favor de esclarecimento e discussão por parte dos espectadores, mas como fomento à postura moralista e politicamente correta dos mesmos.

Condenar o comportamento de um participante abertamente homofóbico não significa em momento algum a aceitação automática do filho ou filha homossexual, por exemplo. Ou seja, não existe uma correspondencia real entre os valores aplicados ao programa de televisão e a vida prática de cada espectador. Por vezes a reprodução do comportamento padrão, como de condenação a atitudes homofóbicas, só respeita a necessidade de não se mostrar inadequado ao círculo social a que se pertence, sem haver o que se mostra realmente necessário, que seria a saudavel discussão do assunto.

Obviamente são casos e casos, culminando em alguns nos quais de fato existe dialogo e mudança positiva de percepção do outro. O que já suscita a pergunta: só esses casos já não tornam a iniciativa válida? A resposta fica a critério dos parametros de cada um.

A reprodução de opiniões é muito mais simples do que a real assimilação e mudança de postura. Resta a nós não torcer necessariamente para Sérgio, Dicésar ou Angélica, e sim para que esta postura amigavel da mídia e dos telespectadores não seja efemera tal qual tudo que resta das edições do Big Brother Brasil.

O universo externo gay

Esse post foi feito com muito carinho por toda equipe do Homomento. Agora que já opinamos, também queremos saber o que os leitores pensam sobre a presença dos gays na casa do Big Brother Brasil 10.


Destaque da Semana: Mariela Castro

23 23UTC janeiro 23UTC 2010

Mariela Castro, filha do presidente cubano Raúl Castro e da feminista Vilma Espín, foi o destaque nas notícias gays dessa semana. Não é de hoje que a sexóloga tem ativa participação na briga pelos direitos das mulheres e dos LGBTs em Cuba; dirigindo o Centro Nacional Cubano de Educação Sexual (Cenesex), fez importantes projetos voltados para a prevenção da AIDS e em 2005 criou um projeto que previa a mudança de sexo para transgêneros – que se tornou lei na metade de 2008.

Ao centro, Mariela Castro em manifestação LGBT

Durante toda essa semana, dos dias 18 a 22 de Janeiro, ocorreu em Havana o V Congresso Cubano de Educação, Orientação e Terapia Sexual. Foi nesse congresso que Mariela chamou a atenção, fazendo algumas colocações interessantes. Além de contar que só em 2009, mais de dez cirurgias de readequação genital foram realizadas no país, a feminista disse que pretende lutar pela criminalização da homofobia em Cuba, muito comum por exemplo nos bastidores do Partido Comunista de Cuba (PCC). Elogiando a recente conquista da Cidade do México, que em dezembro anunciou ter aprovado o matrimônio entre pessoas do mesmo sexo, a filha de Raúl pareceu entusiasmada em repetir a dose em solo cubano, quem sabe ainda em 2010.

Não fosse o suficiente, Mariela estabeleceu um acordo com a defensora do Povo da Venezuela, Gabriela Ramirez, de colaboração em educação sexual, com ênfase no respeito aos homo e transexuais – em suma no combate à homofobia. Uma política de Estado voltada para a educação sexual, em dois países de extrema esquerda da América Latina, é notícia mais que bem recebida num começo de ano.


Nepal, a Meca LGBT da Ásia

22 22UTC janeiro 22UTC 2010

Na última semana, saíram várias notas dizendo que o Monte Everest era a próxima conquista dos homossexuais: os direitos gays terão ainda no primeiro semestre um grande avanço no Nepal. Bom, quem diria que um pequeno país, exprimido entre as gigantes Índia e China, se tornaria um destaque como destino gay a nível mundial? Me perguntando como e porque isso aconteceu, acabei encontrando esse texto do Michael Jones (ótimo blogueiro do Change.Org, velho de guerra das nossas traduções de sexta), ótimo para dar uma noção a quem não sabe do que se trata. Vale lembrar também que questionar é sempre mais do que bom – e que o interesse econômico, especificamente nesse caso, pode ser bem maior do que uma aceitação real e presente na cultura do país.

Kathmandu

Nepal, a Meca LGBT da Ásia
por Michael Jones

Talvez alguém no ministério de turismo do Nepal queira fazer um adesivo: “De Guerra Civil a Casamento Civil”. O país, que há menos de cinco anos atrás estava sofrendo os efeitos de uma brutal guerra civil entre o governo e os Maoistas rebeldes, vai ter, em cinco meses, a única constituição da Ásia que garante direitos iguais para as minorias sexuais.

Alguns anos atrás, a Corte Suprema do Nepal deicidiu que o país deveria pesquisar sobre as leis que concediam direitos iguais a LGBTs ao redor do mundo e encontrar uma maneira de incorporar tais princípios em sua própria constituição. O país olhou para a Espanha, a Holanda, o Canadá, a Noruega e vários outros países onde LGBTs têm toda uma gama de direitos igualitários (notem que os Estados Unidos estão fora dessa lista).

O resultado final da pesquisa virá à tona em maio de 2010, quando o Nepal adotar sua nova constituição. Casamento entre pessoas do mesmo sexo? Sim, isso estará lá. Cuidados para que linguagem ofensiva não seja empregada para se referir a LGBTs? Sim, estará também. E que tal garantir direitos identitários favoráveis a transexuais e transgêneros? Bom, isso também será previsto. Isso significa que a constituição do Nepal, uma vez que promulgada, pode se tornar o documento mais progressivo na face da terra.

O que, voltando ao tópico inicial do turismo, levou alguns a pensarem que o Nepal acaba de se tornar a capital LGBT da Ásia, senão do mundo. No momento que a constituição se tornar oficial, em Maio, uma companhia de turismo vai começar um esforço pra tornar o Monte Everest uma “Montanha Rosa”, um destino comum para casais gays e lésbicos ao redor do mundo.

Sunil Pant, um dos líderes ativistas LGBTs de Nepal e o único membro de parlamento abertamente homossexual em todo o continente asiático, irá liderar essa companhia de turismo. Sua astuta conclusão é que a economia do Nepal vai ganhar muito com o casamento gay.

“A maioria dos países asiáticos não recebem bem os visitantes gays, então nós teremos muitos benefícios para a economia do Nepal, que está frágil depois de anos de guerra”, disse Pant.

Faça amor, não guerra. Ou no caso do Nepal, igualdade, e não guerra. Palavras diferentes; mesmos princípios.


Carta Capital e a fome gay de informação

19 19UTC janeiro 19UTC 2010

Folheando a Carta Capital dessa semana, centrada na polêmica abordagem da Lei da Anistia feita pelo Programa Nacional de Direitos Humanos, tive uma agradável surpresa: uma matéria de 3 páginas sobre homossexualidade masculina na Índia atualmente. Lembrando que há seis meses a sodomia foi enfim descriminalizada por lá, o artigo traz informações interessantes que fazem lembrar a distância entre legislação e realidade social. Nos conta que um clima de clandestinidade ainda paira sobre a vida gay indiana, que é bastante restrita à classe média.

Além das boas informações, com um trabalho competente de pesquisa, fotografia e entrevista, fiquei muito contente com a temática. Estamos acostumados a ler matérias sobre LGBTs apenas quando alguma polêmica os traz à tona: seja uma manifestação grave de homofobia – como o caso de Uganda, que chamou a atenção da comunidade internacional – ou seja uma controversa discussão em torno de leis. As histórias da reportagem, que dariam muito mais pano pra manga do que simples três páginas, são tão ricas que nos fazem inclusive questionar a importância de assuntos da moda, passados e repassados em sites de notícias.

Não entendo muito da profissão, mas percebo que às vezes o jornalista se perde procurando pautas de mainstream sem perceber a abundância de histórias que o cerca. Quando falamos de gays, trajetórias individuais de orgulho ou mesmo de conformismo serviriam como boa representação da realidade que nos cerca, cumprindo o papel essencial do jornalismo enquanto provedor de informação.

Quando constato a pobreza de conteúdo das ditas revistas gays que circulam por aí, mais preocupadas em ensinar a “dieta do tanquinho” do que em contar como vivem os homossexuais no Brasil e no mundo, e depois leio matérias como essa, sinto o peso da falta de uma mídia gay forte e representativa. O problema não é o fato de existirem revistas gays absurdamente semelhantes à Nova ou à Cláudia, mas o fato de não existir uma publicação mais séria para dar a opção. Assim, nas bancas, “gay” entende-se por “sarado”.

Ler a matéria da Carta Capital foi um discreto lamento e um suspiro de alívio, porque ao passo que senti a falta de me sentir bem informado em relação à comunidade, percebi que sempre teremos o interesse de bons profissionais inseridos em outros veículos midiáticos.


Nota:
Maurício Horta e Willian Vieira são os autores da belíssima reportagem da Carta Capital. Para quem gostou da abordagem vale a pena conferir o blog, twitter (@24tz) e flickr dos jornalistas. Neles eles relatam as histórias das viagens pela Ásia. Excelente trabalho, serve tanto para conhecer as peculiaridades da cultura oriental como também para reavaliar nossos axiomas ocidentais e verdades  inquestionáveis. Termino o post com um incentivo à leitura e uma demonstração da qualidade do texto do 24 Time Zones:

“Embora durmam juntos, não são gays. Sim, homens indianos tendem a demonstrar carinho entre si em níveis que ocidentais identificariam necessariamente como gay. Mas demorará muito ainda para que nós consigamos entender o que cada olhar que se troca no metrô ou cada elogio pode realmente significar”

[Texto por Pedro; nota por Mariana]


História da GLAAD

15 15UTC janeiro 15UTC 2010

Recentemente a Aliança Gay & Lésbica Contra a Difamação (em inglês, formando a sigla GLAAD) anunciou os indicados para seu prêmio anual. Muito se tem comentado sobre os escolhidos – Lady GaGa, os seriados Glee e Grey’s Anatomy, a revista People e o filme Prayers for Bobby, para mencionar alguns aleatórios – mas será que todos sabem exatamente o que é a GLAAD e o que é feito por eles? A tradução dessa sexta é um texto emitido pela organização contando um pouco da sua história e do que é feito por lá. Por mais que tenha ares de propaganda, bem release oficial mesmo, vale a pena a leitura.

História da GLAAD
Pense em algum tempo atrás, quando as palavras “gay” e “lésbica” eram tabus na mídia – um tempo em que a manchete do seu jornal estampava, na primeira página, histórias homofóbicas, um tempo em que a indústria do entretenimento não pensava duas vezes antes de produzir imagens estereotipadas e preconceituosas de gays e lésbicas. Não faz tanto tempo quanto você pode pensar.

Menos de 25 anos atrás, antes da formação da Aliança Gay & Lésbica Contra a Difamação (GLAAD), representações de lésbicas e homens gays tendiam a cair em uma das duas categorias: difamatório ou inexistente. Desde sua criação, o impacto da GLAAD na visibilidade da nossa comunidade tem sido de grande alcance. Não só os funcionários e voluntários do GLAAD transformaram a maneira como gays e lésbicas são retratados na televisão e nas notícias, como tornamo-nos também uma importante fonte de recursos e informações para o entretenimento e tomadores de decisão da mídia. A Entertainment Weekly nomeou a GLAAD como uma das entidades mais poderosas de Hollywood, e o Los Angeles Times descreveu-a como “possivelmente a mais bem-sucedida organização de lobby da mídia para a inclusão”.

Formado em Nova York em 1985 para protestar contra a grosseira, difamatória e sensacionalista cobertura do New York Post da AIDS, o trabalho da GLAAD rapidamente se espalhou por Los Angeles, onde começou a educar a indústria do entretenimento de Hollywood sobre a importância das representações mais precisas e realistas na tela. Conforme o trabalho da GLAAD cresceu, a organização ganhou espaço nacional, com escritórios em Nova York, Los Angeles e San Francisco. Para servir os interesses regionais e locais de mídia, o Programa de Mídia Regional da GLAAD cresceu para ajudar comunidades locais em todo o país mobilizando campanhas, treinando a mídia e outras ações.

Tendo cultivado relações com profissionais de mídia através de duas décadas, lista de realizações da GLAAD denota uma contribuição significativa e contínua, à igualdade LGBT. Não foi até 1987, após uma reunião com o GLAAD, por exemplo, que o The New York Times mudou sua política editorial para usar a palavra “gay”. Vinte e um anos depois, o projeto Anunciando a Igualdade resultou em mais de 1.000 jornais em todo o país – incluindo o The New York Times – optando por incluir anúncios de gays e lésbicas junto a outros anúncios de casamento.

A GLAAD não atinge apenas os bastidores da mídia, mas também tem impactado milhões através de jornais, revistas, cinema, televisão e campanhas de visibilidade. Nós chamamos a atenção da mídia para: o ódio motivado assassinato de Matthew Shepard, Arthur “JR” Warren, Brandon Teena, Fred Martins, Gwen Araujo e outros; a defesa anti-gay de “Dr. Laura” Schlessinger, letras de Eminem ódio; os heróis gays e vítimas de 9-11; os anúncios de “ex-gays”, e mais recentemente, as tentativas de oficiais da Igreja católica de envolver padres gays inocentes em histórias de abuso sexual.

Por causa do trabalho da GLAAD, histórias e temas ligados a gays e lésbicas são tratados nas publicações nacionais e locais, nos filmes e na televisão. Representações negativas e indelicadas da comunidade têm diminuído, enquanto as lésbicas e homens gays têm sido cada vez mais incorporados em quase todo tipo de plataforma de mídia – das novelas às histórias em quadrinhos. Mas há muito trabalho ainda a fazer. Representações de transgêneros e bissexuais, de todo o espectro da diversidade da nossa comunidade, e representações precisas de nossos relacionamentos são apenas alguns domínios onde GLAAD continua a concentrar os recursos e atenção.

Atenta às constantes mudanças da mídia na atualidade, a GLAAD continua fornecendo aos jornalistas e profissionais de mídia informações oportunas, abrangentes e concisas, ampliando a representação da nossa comunidade de notícia em notícia, através de uma eficiente e poderosa combinação entre advocacia, educação e visibilidade.


Sugestão de filme: If The Walls Could Talk 2 (ou Desejo proibido)

14 14UTC janeiro 14UTC 2010

Hoje o Homomento traz uma indicação: If The Walls Could Talk 2 (2000), título tragicamente adaptado para “Desejo Proibido” no Brasil. Essa péssima adequação no nome já pode afastar alguns leitores, por isso peço que desconsiderem esse ponto falho. Para quem já assistiu vale a reflexão.

Eu poderia dizer que em ITWCT 2 o assunto principal são lésbicas, mas estaria sendo simplista (para não dizer ignorante). Para mim a temática é baseada na construção da família homossexual, com foco em relações entre mulheres.  A história é uma semi-continuação do If The Walls Could Talk (1996), que explorou a compreensão do aborto em diferentes períodos.  Já o If The Walls Could Talk 2 opta por uma narrativa segmentada em épocas, totalizando três histórias curtas, focadas em sentimentos e relacionamentos completamente diferentes uns dos outros. O resgate de emoções inaceitáveis (ou mascaradas na contemporaneidade) sustenta a capacidade reflexiva do filme, e essa é, para mim, a principal qualidade.

A primeira short history conta a história de duas lésbicas casadas por 50 anos em pleno 1961. As senhorinhas vivem em uma casa e levam um relacionamento duradouro e feliz, até que em um acidente domésticos uma delas morre.

A história de Abby (Marian Seldes) e Edith (Vanessa Redgrave) é a mais emocionante

A tragédia é ambientada na mesma casa que abrigou por anos aquela família pacificamente transgressora e que agora acolhe a solidão e o desespero da parte restante do casal. A concepção de família é completamente ignorada por todas as personagens que ficam à margem da trama, com exceção, é claro, da própria família: o casal de lésbicas. No mínimo emocionante.

A segundo história, de 1972, aborda o melhor tópico. Quando eu e minha namorada assistimos ficamos horas discutindo sobre o comportamento das personagens e a atualidade do tema. Bem resumidamente, Linda (Michelle Williams) conhece Amy (Chloë Sevigny) em um bar. Linda faz parte de um grupo feminista. As amigas de Linda recriminam o contato dela e de Amy por discordarem da forma como a nova namorada se veste. Amy usa roupas tipicamente masculinas e possui comportamentos e trejeitos que destoam dos princípios que, até então, regiam a vida de Linda. Mesmo se passando em 1972, o discurso verborrágico das lésbicas feministas é um retrato da ignorância e a discriminação do gay para com o próprio gay. A negação e a repreensão das lésbicas em relação a personagem de Chloë Sevigny  mostram que, mesmo indivíduos que teoricamente estariam predispostos a aceitar níveis diferentes de expressão/comportamento, e entender as ramificações infinitas da sexualidade humana, continuam, invariavelmente, a limitar o pensamento. No mínimo questionador.

O casal divertido: Sharon Stone e Ellen degeneresA terceira e última short history se passa no ano 2000 e narra a luta de um casal de lésbicas que desejam ter um filho. Fran (Sharon Stone) e Kal (Ellen DeGeneres, sim, a própria!) são atrapalhadas e engraçadinhas, o que acaba maquiando a narrativa meio bobinha. No mínimo divertido.

Fica a minha dica para quem gosta de filmes LGBT/drama. Segue abaixo o download em RMVB com as legendas em português:


O caso Holmes: um comentário

13 13UTC janeiro 13UTC 2010

O bafafá das últimas semanas foi o comentário do Robert Downey Jr, durante a divulgação do filme Sherlock Holmes: que o detetive e seu auxiliar Watson poderiam ter entre si uma relação maior que a simples amizade. Convivência excessiva, uso mútuo de roupas um do outro e o compartilhamento de uma cama foram as pistas apontadas pelo ator. A mera possibilidade dos próximos filmes da franquia lidarem com essa temática deixou os detentores dos direitos da personagem de cabelo em pé: em nome da “fidelidade ao livro”, mas com um cheirinho de heteronormatividade, ameaçaram o estúdio de retirar a concessão dos copyrights caso tal heresia fosse cometida.

Downey Jr. no Letterman: o início da polêmica

Essa argumentação foi muito questionável porque bom, adaptação é adaptação. Já implica infidelidade porque literatura é diferente de cinema, e porque os roteiristas certamente quiseram fazer do filme algo minimamente comercial. Os trailers fazem parecer um blockbuster de ação, e não uma película de suspense e mistério. Vejam vocês mesmos.

Uma postagem do blog da Época Mulher 7×7 me fez abrir os olhos pra outra questão: um Holmes musculoso e supramasculino não foi motivo de estranhamento e comentários na imprensa. Por mais que essas características distoem das idealizadas por Sir Doyle, não parecem incomodar ninguém. E versão gay é subversão da arte? Ok então.

Um texto do Womanist Musings coloca muito bem que poxa, um Holmes gay não utilizaria o pênis para investigar ao invés da clássica lupa, sabe. Não seria tão diferente porque enfim, gays não são diferentes das outras pessoas. É todo aquele bla bla bla de sempre: sem representatividade, nunca alcançaremos um status de normalidade.

O Cavalcanti se questionou no 23B se essa história não é decorrente de uma febre gay, uma homomoda. Porque, lembremos, nunca houve um Holmes gay. Esse debate todo se deu em torno de um comentário de Robert Downey Jr no programa do David Letterman. Não acho que seja uma moda, mas sei lá, porque uma coisinha de nada tem que deixar todo mundo tão histérico? Fecho os olhos e imagino, com prazer, o impacto que teria um filme com um superman gay.


Destaque da Semana: Casamento gay em Portugal

10 10UTC janeiro 10UTC 2010

Se levarmos em consideração que até 1982 a homossexualidade era considerada formalmente como crime em terras lusas, não nos restam dúvidas de que a comemoração em torno da aprovação da proposta de lei favorável ao casamento entre pessoas do mesmo sexo é mais do que merecida.

Nessa sexta-feira (08 de janeiro de 2010), a Assembléia da República Portuguesa aprovou a lei que colocaria o país junto dos 5 demais países europeus que também permitem o casamento civil entre gays. Ao que tudo indica, agora além da Holanda, Suécia, Noruega, Bélgica e Espanha teremos Portugal, consolidando uma Península Ibérica mais igualitária, ao menos no discurso.

Acontece que, o primeiro passo em direção da obtenção desse direito foi dado, mas mesmo com a aprovação defendida pelo primeiro-ministro José Socrátes, ainda se faz necessária a confirmação do presidente da república, Aníbal Cavaco da Silva. O presidente tem poder de veto sobre a lei, que nesse caso voltaria para votação na Assembléia. Caso contrário, se aprovada por Cavaco da Silva, os primeiros casamentos lusitanos começariam já em abril de 2010.

Presidente português Aníbal Cavaco da Silva e o primeiro-ministro José Sócrates

Embora Cavaco da Silva seja o primeiro presidente de direita eleito após 1974 (fim da ditadura Salazarista) poucos acreditam que ele vá vetar a lei, tendo em vista a ampla base favorável a mesma na própria Assembléia portuguesa.

A euforia em torno dessa primeira fase justifica-se não só na improvável recusa do presidente, como no nó desfeito na garganta de muitos portugueses que viram ainda em 2008 a possibilidade do casamento entre pessoas do mesmo sexo se esfacelar ao ser, como eles próprios chamam, “chumbada” ainda na Assembléia.

Portugal, país em que maioria da população é católica e que no ano passado adotou medida controversa a respeito da doação de sangue, ao proibir homens gays alegando que estes constituem um “grupo de risco”, não foi preenchido unicamente de comemorações e festas com a aprovação do casamento. Além de protestos por parte da população, a própria bancada política encontra-se em constante conflito que parece agravado pela votação da lei.

A base de apoio é formada pela esquerda e pelos verdes, que juntos compõe a maioria das cadeiras. O restante divide-se entre aqueles que defendem questões morais e os que julgam essa como sendo uma questão de menor relevância frente aos problemas econômicos enfrentados pelo país, como a alta taxa de desemprego. A própria imprensa portuguesa grifou a postura adotada pelos comunistas como discreta e omissa:

Comunistas muito apagados do debate

Já o PCP, bastante calado durante o debate, declarou que os comunistas vão abster-se na votação dos projectos do Bloco de Esquerda e dos Verdes, uma vez que «tal como na anterior legislatura» o PCP «continua a considerar que esta é um matéria mais complexa cujo debate é necessário prosseguir», disse o deputado João Oliveira.

Vale lembrar que a a lei não contempla a adoção por casais homossexuais, que parece ser a próxima pauta dos ativistas uma vez que o casamento se concretize como já é esperado. Questionado a respeito dessa questão, o primeiro-ministro Sócrates, retrocedeu em seu discurso igualitário, alegando: “No casamento trata-se da liberdade individual. Na adopção é diferente, há o interesse de terceiros. O mandato do PS é com o casamento, não com a adopção.”

(obs.: A decisão do presidente não tem uma data exata, aguardaremos torcendo para que nas próximas semanas uma resposta positiva seja dada.)


Gay em Uganda, e com a sensação de estar sendo caçado

8 08UTC janeiro 08UTC 2010

Para essa semana traduzimos um texto publicado no New York Times sobre toda a história que está acontecendo em Uganda – sob a perspectiva dos homossexuais, no entanto. Por mais que seja difícil, é interessante ler tendo em mente: isso está acontecendo em pleno 2010.

Gay em Uganda, e com a sensação de estar sendo caçado

KAMPALA, Uganda – Isolamento, insultos, ameaças e violência: é com isso que a comunidade gay de Uganda, a maioria não assumida, tem lidado há anos.

Mas agora que pólíticos de Uganda estão ameaçando aprovar uma nova medida anti-homossexualidade que irá sentenciar alguns homossexuais (reincidentes, portadores do vírus HIV e outros) à prisão perpétua ou mesmo à morte, muitos gays e lésbicas dizem estar se sentindo caçados.

“Nós andamos pelas ruas sabendo que a qualquer momento você pode ser reconhecido e que então as pessoas podem querer fazer justiça com as próprias mãos”, disse Stosh Mugisha, uma mulher que está passando pela transição para se tornar homem. “Você se sente constrangido por gente tocando em você. As pessoas nos provocam. Mas eu tento ficar frio. Fico na minha. É terrível”.

Val Kalende, outra entre os poucos assumidos ativistas pelos direitos dos homossexuais nesse país de 32 milhões de habitantes, afirmou que ser gay em Uganda é “bastante problemático”.

“Se você está na escola e seus pais descobrem [que você é homossexual], eles param de pagar sua mensalidade”, ela disse. “Sua família irá evitar você. Eles costumavam me perguntar, ‘Você não quer ter filhos? Você não quer um marido?’”

Os sentimentos anti-homossexualidade são uma coisa, e dificilmente podem ser atribuídos somente a Uganda. O que parece diferente aqui é o nível dos discursos oficiais, mantidos pelo governo, de ódio contra homossexuais.

“Odeio gays do fundo do meu coração”, disse Kassiano E. Wadri, membro do Parlamento e líder da bancada de oposição. “Quando vejo um gay, penso que aquela pessoa precisa de psicoterapia. É preciso refreá-los”.

Não surpreende, portanto, que muitos homossexuais aqui tenham insistido em conceder entrevistas anonimamente, incluindo um vendedor de carros que será identificado como Bob. Ele perdeu seu emprego em um hotel há alguns anos, depois que o Red Pepper, um jornal ugandense, publicou uma lista de nomes de homossexuais, incluindo o seu.

“Quando o seu chefe descobre que você é gay, você começa a ser perseguido”, ele disse. Depois, você começa a ser censurado na frente dos outros. Então, é demitido. É difícil encontrar um namorado,” ele conta, “porque você não sabe em quem pode confiar”. Ele respira fundo e baixa a cabeça, olhando para as mãos. “É muito complicado ser gay em Uganda”, ele diz.

Nikki Mawanda tem 27 anos e nasceu mulher, mas vive como homem – ele se descreve como “transhomem”. Ele contou que quando criança, olhava diretamente para o sol por longos períodos, na esperança de que o trauma pudesse mudar seu sexo. Agora, ele prende suas mamas com bandagens apertadas, usa um boné de baseball com a aba virada para trás e pequenos dreadlocks saindo para fora, e namora com mulheres.

“Esse ano, coisas terríveis aconteceram comigo”, conta. Um policial enfiou um dedo em seu olho, ele disse, alguém jogou cerveja em sua cara em um bar, e um segurança de um minimercado lhe deu uma coronhada enquanto ele tentava fazer compras.

Mas há um oásis longe disso tudo, e sua localização não é nenhum segredo guardado a sete chaves.

Toda noite de domingo no centro de Kampala, capital de Uganda, dezenas de gays, lésbicas e transgêneros se encontram em em uma boate quente, que fica na rua de uma escola, atrás de algumas palmeiras, atrás de cerveja gelada e lip-syncing ruim.

Nesse último domingo, os gays estavam jogando sinuca, se esfregando na pista de dança, e balançando a cabeça no ritmo de um show deprimente de karaokê que ocupava o palco. Duas lésbicas se acomodavam de mãos dadas em um banco, dividindo uma cerveja Nile Special. Havia provavelmente mais de 100 homossexuais no clube e o mesmo número de não-gays.

Por algum motivo, a polícia de Uganda deixou esse lugar em paz, ainda que muitos expressem a preocupação de que o clube possa estar com os dias contados.

Um homem gay europeu, que pediu para não ser identificado, ergueu seu queixo apontando para o cenário mais amplo.

“Veja, é disso que estou falando”, ele diz, “Veja toda essa gente aqui, gays e héteros. Não há nenhum problema”. Ele abraça um amigo alto.

“Não é a homossexualidade que vem do exterior”, diz o europeu. “É a homofobia.”


Retrospectiva LGBT de 2009

4 04UTC janeiro 04UTC 2010

Escrever retrospectivas já é, por si só, uma tarefa ingrata. A pretensão de abranger os mais importantes fatos relacionados a homossexuais ao redor do mundo durante os 365 dias que compuseram 2009 parece então praticamente inalcançável; quis por isso apenas relembrar alguns acontecimentos, com ajuda de arquivos de sites de notícias gays e da própria Wikipedia. Encarem essa postagem não com a imponência da palavra retrospectiva, mas como um refresco na memória para alguns pontos que chamaram a atenção durante o ano. É bom ressaltar que, no intento de fazer também uma retrospectiva local, deixei o Brasil de fora. Comecemos então?

O avanço dos direitos coloridos
O ano de 2009 está inserido no processo de avanço dos direitos homoafetivos que a comunidade internacional vem assistindo desde que a Holanda aprovou, pioneiramente, o casamento igualitário no ano de 2001. Já a partir de 1o de janeiro de 2009, pessoas do mesmo sexo poderiam começar a se casar na Noruega. Em fevereiro, é vez da Hungria e do Hawaii concederem aos casais gays todos os benefícios da união civil, exceto a adoção – benefício esse que, na Dinamarca, é concedido em março. A Suécia legaliza o casamento em abril, com efetividade marcada o mês seguinte. No segundo semestre, os avanços esfriam mas a discussão não pára. O Uruguai foi grande destaque na América Latina, aprovando leis de adoção e casamento que apenas aguardam sanção.

No final de outubro, o Matthew Shepard Act foi aprovado nos EUA e a homofobia foi criminalizada a nível federal. Por sinal, apesar de dependerem da vontade de 50 estados, um a um, os Estados Unidos testemunharam grande avanço LGBT em 2009, presenciando inclusive um boom casamenteiro com as conquistas em Colorado, Wisconsin, Nevada, Vermont, Iowa e até Washington DC, mesmo apesar da sofrida derrota em Maine. Na Áustria, em dezembro, a união civil entre homossexuais foi aprovada, para entrar em vigor no primeiro dia de 2010 e começarmos o ano já com boas notícias. Em Portugal, a eleição de José Sócrates para primeiro ministro acompanha o compromisso do seu partido de aprovar o matrimônio, o que em dezembro já estava em intensa discussão, com direito a plebescito: provavelmente em 2010 nossos colegas lusófonos já poderão juntar os trapinhos com pessoas do mesmo sexo.

Gays no exército?!
A questão militar foi tema para discussão: em março, Argentina e Filipinas eliminaram medidas proibitivas para a presença assumidamente homossexual nos exércitos. Dois meses depois, o Uruguai entra no coro. Nos Estados Unidos, no entanto, a política do “Don’t Ask, Don’t Tell” (algo como “não pergunte, não fale”) segue nos exércitos, e homens de carreira sólida são demitidos por terem sua intimidade trazida à tona. Em julho o tema foi amplamente debatido quando o soldado inglês James Wharton saiu na capa da publicação oficial do Exército Britânico, a revista Soldier, em que fala sobre sua homossexualidade. Wharton tem tomado, desde então, uma postura ativista, participando de vários eventos LGBTs. Cabe lembrar que o Reino Unido baniu essas medidas proibitivas há nove anos, celebrando desde então a diversidade dentro das Forças Armadas.

Califórnia, a Miss Antipatia
Em fins de 2008, a Proposition 8 significou um retrocesso para a comunidade LGBT norteamericana, tirando-lhes o recém concedido direito de se casar. O assunto gerou polêmica em âmbito nacional, alcançando seu ápice durante o Miss Estados Unidos de 2009: quando o blogueiro Perez Hilton perguntou à Miss California, Carrie Prejean, o que ela achava da privação de direitos, a candidata se posicionou negativamente. Muitos diziam que ela era a favorita para a faixa, mas que por conta da argumentação preconceituosa, restou-lhe o segundo lugar.

Prejean chegou a esboçar uma carreira de portavoz da forte campanha antigay dos Estados Unidos, tendo passado no primeiro semestre a impressão de tornar-se a estrela homofóbica do ano. Alguns escândalos porém, afastaram os religiosos da quase miss, e o anonimato parece ser a próxima etapa para Prejean.

A iconização de Harvey Milk
O filme pode ser do fim de 2008, mas o estouro é de 2009: “Milk”, de Gus Van Sant, foi sucesso de público e crítica. Se o recente êxito de Brokeback Mountain trouxe para o mainstream uma abordagem da vida particular de muitos homossexuais, Milk vai um passo a frente para falar sobre ativismo na década de 70, mostrando para o grande público um pouco da história do movimento gay.

As 8 indicações para o Oscar vieram consagrar o reconhecimento da película, e a conquista dos prêmios de Melhor Ator para Sean Penn e Melhor Roteiro Original para a obra de Dustin Lance Black reforçaram o coro. Os discursos do ator e do roteirista certamente marcaram a história da academia – e, senão, definitivamente a dos LGBTs – falando abertamente sobre preconceito e orgulho gay.

Com a visiblidade da obra, Harvey Milk passou a ser objeto de admiração de grande parte da comunidade gay, seja nos EUA ou no mundo. A imagem do falecido ativista passou, ao longo de 2009, por um processo de iconização, bem exemplificado pela medalha que Obama lhe dedicou e pela instauração do 22 de maio como “Milk Day” na Califórnia.

As vitórias da realeza ativista
Manvendra Singh Gohil pertence a uma dinastia que governa a Índia há quase seis séculos mas que, como algumas monarquias ainda vigentes, como em Espanha, Japão e Inglaterra, é mais simbólica do que política. Tendo se assumido para a família em 2002 e para a imprensa em 2006, foi publicamente rechaçado. Desde então, Manvendra vem desempenhando importante papel como ativista, sendo possivelmente o primeiro príncipe assumidamente homossexual contemporâneo. Sua aparição no programa da Oprah em 2007 recobrou sua popularidade entre os indianos.

A principal reivindicação de Manvendra era a descriminalização da homossexualidade na Índia, medida de quase 150 anos. Com sua efetividade, na metade do ano, 17% da população homossexual masculina do mundo – a indiana – deixou de ser perseguida pelas leis de seu país. Realizada a conquista, ele anunciou, durante a visita ao Brasil, a vontade de adotar um filho o mais breve possível.

Além de protestar, Manvendra também ganhou fama no ano que passou. Em janeiro de 2009, o hindu participou de um reality show da BBC chamado Undercover Princes, em que príncipes orientais iam para o Reino Unido viver como cidadãos comuns e procurar pessoas para namorar. A participação de Manvendra chamou a atenção pela (re)afirmação de sua homossexualidade. Em maio, foi anunciado que será realizado um filme sobre a vida do príncipe (!).

Enquanto isso, no Oriente Médio…
No mapa de direitos LGBTs ao redor do mundo, o Oriente Médio e o norte da África estão marcados em vermelho. É sabido que em lugares como os Emirados Árabes Unidos, a Árabia Saudita, o Iémen, o Irã, o Iraque e o Líbano existem medidas legais contra atos homossexuais – em alguns destes, pena de morte inclusive. Uma famosa ONG de direitos humanos, a Human Rights Watch, anunciou no final do primeiro semestre que só nesse ano centenas de gays foram torturados e assassinados no Iraque, dado este que alarmou a comunidade internacional. Além disso, ao longo de todo o ano pedidos de asilo de homossexuais perseguidos no Oriente Médio chegaram a países europeus, alguns negados e outros concedidos.

O fato que em 2009 mais chamou a atenção dos LGBTs no Oriente Médio se deu, no entanto, no único país da região que é favorável à legislação pró homossexual, além de possuir uma rica subcultura gay: Israel. No primeiro de agosto, um homem entrou armado na Associação de Gays e Lésbicas de Tel Aviv, atirou em todas as direções e fugiu, deixando dois mortos e vários feridos. Protestos em Israel e no mundo converteram a data desde já em tempo para protesto, numa espécie de Stonewall israelense do século XXI.

Yes, he can!
A campanha de Barack Obama para a presidência dos Estados Unidos, ao longo de 2008, foi provavelmente uma das mais marcantes campanhas eleitorais da década. Para gays norteamericanos, o impacto era absorvido também quando o candidato falava que se preocuparia com a questão homossexual caso fosse eleito.

Iniciando-se o mandato, iniciaram-se também as cobranças por parte dos ativistas. Mas a agenda presidencial parecia estar lotada, restando aos homossexuais um desconfortável silêncio. Por volta da metade do ano, enfim se constatou: ele esqueceu de nós. A capa do principal veículo de comunicação LGBT dos Estados Unidos, a revista Advocate, na edição de setembro, ao trocar o “Hope” da campanha original de Obama por um provocador “Nope?” põe em questão o modus operandi do presidente.

Foi nesse segundo semestre que o “silêncio rosa” do governante se quebrou. O Matthew Shepard Act e o discurso do presidente no jantar anual da Human Rights Campaign foram conquistas poderosas para os LGBTs dos Estados Unidos; o primeiro por conta da criminalização da homofobia federalmente e o segundo pela visibilidade que um presidente simpatizante pode dar. Mais do que isso, Obama é um dos políticos mais importantes do mundo, e tê-lo convencido de que os homossexuais devem ter os mesmo direitos que todos é algo significativo. Encerramos 2009 com os LGBTs dos Estados Unidos e do mundo apaixonados pelo presidente – e com a esperança de que nesses próximos anos venha muito mais.

Ativismo 2.0
2009 foi definitivamente o ano do Twitter. A mídia social ganhou uma popularidade só antes testemunhada antes por ferramentas como o Orkut ou Facebook, sendo utilizada ainda por importantes políticos e instituições. O Twitter foi o agitador do conteúdo da web nos últimos meses, estimulando o melhor uso de espaços de divulgação de idéias, como os blogs. A internet, mais especificamente a web 2.0, está na moda.

Os ativistas gays aparentemente souberam utilizar essas ferramentas a seu favor. De um belo vídeo com gays de todo o mundo afirmando estarem orgulhosos de sê-lo a um protesto de escala nacional realizado frente à Casa Branca, a internet serviu para aproximar as pessoas, botar ideias em discussão, agitar eventos. O primeiro ministro britânico Gordon Brown pediu desculpas pelo tratamento homofóbico dado ao matemático Alan Turing durante a década de 1940 por conta de uma petição online divulgada massivamente pelos homos do Reino Unido. Hoje uma grande quantidade de sites e blogs com as mais diferentes temáticas relacionadas a LGBTs está no ar, o que é extremamente significativo no sentido de criar uma base de apoio para quem precisa e promover o diálogo dentro e fora da dita “comunidade gay”.

O casamento gay na América Latina
Com o perdão do trocadilho, no último bimestre do ano assistimos a uma verdadeira novela mexicana gay na América Latina. No final de novembro foi anunciado que Alejandro Freyre, 39 anos, e Jose Maria Di Bello, 41, realizariam o primeiro casamento entre duas pessoas no mesmo sexo da América Latina, em Buenos Aires, por conta da aprovação da juíza Gabriela Seijas. O evento foi marcado para o primeiro de dezembro, visto que os noivos são soropositivos e queriam que a data coincidisse com o Dia Mundial da Luta Contra a AIDS. Um dia antes da consumação, porém, a juíza Marta Gómez Alsina operou uma manobra legal que garantiu o cancelamento do matrimônio. A notícia foi recebida com desgosto pelo casal, que, com postura ativista, deu a impressão de que o assunto ainda estava inacabado.

Enquanto isso, ao norte, no dia 21 de dezembro uma votação na asssembleia local da Cidade do México relativa ao casamento entre pessoas do mesmo sexo registrou 39 votos a favor e 20 contra. A adoção por casais homossexuais também foi aprovada no mesmo dia, concedendo aos gays da capital mexicana uma boa dose de direitos civis de uma só vez – a começar em março de 2010. Todos os olhos se voltaram para o México, esquecendo um pouco da derrota em Buenos Aires três semanas antes.

Mas Alejandro e Jose Maria, o casal de argentinos, não tinham desistido. Viajando para a província da Terra do Fogo, conquistaram o apoio da governadora para realizar o casamento, que se consumou no dia 28 através de um decreto da governante. Sete dias depois da primeira legislação pró casamento gay ser aprovada na América Latina, o primeiro casório efetivo ocorre, em um país totalmente distinto. Com os acontecimentos de 2009, os direitos LGBTs em contexto latinoamericanos parecem ter ganho uma base para continuar avançando.

40 anos de Stonewall
Foi em 2009 que o momento considerado marco do ativismo gay completou 40 anos: a rebelião de Stonewall foi relembrada, rediscutida e questionada por LGBTs de todo o mundo. Exposições, coquetéis, longos discursos em paradas. Se hoje não é mais reconhecida como “mito de criação” do ativismo gay, tal como era há algum tempo, Stonewall no mínimo ganha grande importância numa história da luta homossexual no século XX.

Uganda chama a atenção do mundo
No dia 13 de Outubro, um projeto de lei foi apresentado no parlamento de Uganda propondo a criminalização e penalização (de morte) da homossexualidade. O país já não é favorável às práticas homoeróticas, não efetivando punições no entanto por conta da necessidade de provas para a acusação – a nova lei facilitaria o processo, além de aumentar as penas. Governantes da Inglaterra, Canadá, França e Estados Unidos se manifestaram criticando o país africano, numa polêmica que se estende até o presente momento. Aguardamos pelo desfecho da situação, mas comemoramos desde já o amplo apoio recebido de todos os lados.

Lideranças assumidas
Por mais que o feminismo já não seja novidade, e que toda a conversa de que “a mulher está entrando no mercado de trabalho” também não, é só recentemente que temos visto mulheres assumirem importantes cargos políticos com mais frequência – as vizinhas Kirchner e Bachelet estão aí para servir de exemplo. Se cairmos na tentação de realizar um paralelo com a participação política homossexual, ainda temos uns bons anos até presidentes e ministros assumidos não serem mais motivo de estranheza. Até lá, cada caso que surge é uma novidade, mais um passo em direção a um reconhecimento respeitoso.


Na Alemanha, o vice chanceler eleito foi Guido Westerwelle, em coligação com o partido de Angela Merkel. Westerwelle é publicamente conhecido por ser homossexual, seja por sua participação em uma edição do Big Brother ou pelas constantes aparições com seu parceiro, Michael Mronz. A cidade de Houston, quarta maior metrópole norteamericana e maior cidade do homofóbico estado do Texas, elegeu uma prefeita assumidamente homossexual. Annise Parker, que se candidatou de forma independente, sofreu com uma campanha bastante homofóbica por parte da oposição, mas ganhou o apoio da comunidade gay dos Estados Unidos. Sua vitória foi bastante significativa para o país.

Vereadores, deputados e governantes menores à parte, 2009 foi o ano em que, pela primeira vez, o cargo de chefe de estado de um país foi ocupado por uma pessoa assumidamente homossexual. Depois de uma crise no governo islandês no ano de 2008, por conta da instabilidade da economia mundial na época, o executivo passou a ser liderado, a partir de 1º de fevereiro, pela ministra Johanna Sigurdardottir, que é casada com a jornalista Jonina Leosdottir.

Olhando pra frente
Mesmo um ativista mais rabugento há de convir que 2009 foi bom ano no quesito direitos. E ao passo que a tendência é que 2010 seja fantástico, com casamentos na Cidade do México, Áustria, Portugal e sabe-se lá onde mais, é bom lembrar que direito não é equivalente a respeito. Conforme os Estados reconhecem a homoafetividade e recriminam a homofobia, o preconceito encontra formas mais sutis de manifestação. Me parece que os próximos capítulos, além de ótimas comemorações, trarão o desafio de lidar com a hipocrisia do politicamente correto.