Educação sexual: um instituto necessário

11 11UTC Novembro 11UTC 2009

O estouro da AIDS nas décadas de 1980 e 90 fez com que a sexualidade tivesse de ser abordada com seriedade, e em âmbito nacional, no Brasil. Canais de televisão, campanhas publicitárias e panfletos informativos necessitavam, por uma questão de saúde pública, informar a população a respeito da nova doença. Ao mesmo tempo que se diz sensualizado e vende essa imagem para o exterior, o brasileiro, no entanto, tem sérias dificuldades para lidar com seu sexo, acabando por instaurar uma visão moralista e culpabilizadora do HIV e das relações sexuais de modo geral.

Foi essa perspectiva que adentrou o espaço educacional recente: Uma educação sexual que alertou a respeito dos males do sexo em tom de ameaça, reproduzindo para jovens o discurso que corria solto no país. Progressivamente, com o tempo, o clima se abrandou e os os tons se alteraram, fazendo da palestra escolar com o sexólogo um momento mais científico do que qualquer outra coisa.

Ainda assim, acredito que não só a atual abordagem educacional para a sexualidade é insatisfatória como noto que os ensaios de avanço nesse campo têm sido bombardeados por críticas diversas. Quis, por isso mesmo, dissecar um pouco algumas prerrogativas famosas no que diz respeito à educação sexual. Se você tem interesse pela discussão, convido-o à leitura.

“Educação sexual é falar de sistema reprodutivo, camisinha, anticoncepcional, etc.”

Sim, educação sexual é falar de sistema reprodutivo, camisinha, anticoncepcional, etc. É essencial que se conheça o corpo e suas funções, a origem dos impulsos sexuais e, o mais importante, que se valorize o sexo seguro. Mas não, educação sexual não é isso.

Por sexualidade não se compreende apenas o ato sexual em si, mas uma interação humana cheia de significados culturais. É nessa interação que vão se manifestar e perpetuar, também, convenções sociais como o machismo, a misoginia, a homofobia. O educador que apenas transmite a informação – “esse órgão encaixa naquele”, “use camisinha” – não se preocupa com a maneira como o aluno vai lidar com ela, e em um contexto em que a mídia é altamente sexualizada e que a pressão social para se iniciar a vida sexual cedo é cada vez maior, é necessário o mínimo esclarecimento.

A sexualidade, quando mal desenvolvida, pode se tornar um grande problema na vida de uma pessoa. Noções equivocadas e parciais de gênero e identidade sexual geram preconceitos, seja em relação ao outro ou a si próprio. Querendo ou não, antes de chegar à escola o aluno já tem a sua cultura sexual – que pode ser baseada na combinação das referências (ou omissões) de seus pais ao assunto com as referências que a mídia e os amigos lhe trouxeram. Isso nos remete à visão do professor como mediador entre o conhecimento prévio do aluno e o conhecimento erudito que está no programa. É necessário, dessa forma, problematizar a educação sexual: ir além da reprodução do biodiscurso.

“A educação sexual vai depravar a criança e macular a inocência infantil”

Importante colocar que a questão aqui não é adiantar ou retardar a presença das relações sexuais na vida do aluno, através de estímulos ou represálias. É lidar com a sexualidade, ponte cultural entre o social e o biológico, da maneira mais saudável possível para o crescimento individual.

Independente do contexto de sua criação, todo ser humano agrega, ao longo da infância, valores ligados à sexualidade. No caso da nossa sociedade ocidental, qualquer menina sabe já aos 4 anos de idade, por exemplo, que meninas gostam de cor de rosa, de brincar com bonecas e de determinados desenhos animados. A identidade de gênero, que posteriormente vai dialogar com uma identidade sexual, já está sendo estabelecida até mesmo antes da criança nascer, quando os pais escolhem a cor das roupas de acordo com o sexo do bebê.

Educar sexualmente significa não pré-estabelecer comportamentos adequados para feminino ou masculino; ajudar a criança a crescer de maneira natural e saudável, orientando-a à valorização do que é bom e correto para um ser humano a fazer, e não a associações de conduta por gênero. Vamos trabalhar com exemplos: ao invés de dizer que “meninas devem ser delicadas e estar sempre arrumadas”, estimular a boa educação e a autohigiene; ao invés de dizer que “meninos têm de ser durões e não podem chorar”, deixar claro que é sempre bom respeitar e ser respeitado. Surpreendentemente, isso faz parte do todo de uma educação sexual. E surpreendentemente, um menor estímulo à autoafirmação da identidade de gênero pode sim levar as crianças a serem até menos sexualizadas – justamente por não estarem sendo pressionadas a se preocupar com essas questões.

Em suma, com uma educação preocupada com a questão da sexualidade, a escola pode se tornar inimiga da mídia sexualizada e sexualizadora, como catalisadora de todo o conhecimento equivocado que a criança pode trazer de suas experiências prévias. E cumprir, assim, seu papel essencial: o de educar.

“A educação sexual vai disseminar a homossexualidade”

É sabido que o ambiente escolar ainda é bastante hostil às crianças e adolescentes que apresentam comportamento adverso ao atribuído ao seu gênero – para não falar do já constatado preconceito com os professores gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros. Uma reportagem da Agência Brasil de julho de 2009, realizada no Distrito Federal, conta que não só a discriminação é violenta como afeta o desempenho dos alunos, chegando muitas vezes a afastá-los da sala de aula. Faz-se urgente a necessidade de estimular a aceitação, tanto de dentro do aluno como de fora, vinda dos colegas: falar, nas escolas, que a sexualidade pode ter caráteres diversos e que não há nada de errado nisso.

Quando se fala na abordagem da diversidade de identidades sexuais em ambiente escolar, a questão é: será que uma relação liberal desses assuntos vai estimular as crianças a se identificarem como homossexuais? Sem a convenção da heterossexualidade como o “certo”, as sexualidades infantis vão se confundir e “desviar”? Para responder essa pergunta, precisamos considerar alguns pontos.

A “origem” da homossexualidade é assunto para controvérsia. Ciências naturais como a biologia e a psicanálise têm tentado explicar, através da genética e de traumas infantis, sua recorrência, mas os estudos nessa área mostram-se duvidosos ou pouco verificáveis. Os avanços das ciências humanas no estudo da sexualidade apontam para uma distinção entre sexo, como propriedade e objeto de estudo das exatas, e sexualidade, como área propriamente humana e cultural. Dessa maneira a origem da identidade de gênero e o comportamento sexual, se sujeitada à metodologia das exatas, só poderia gerar resultados insatisfatórios.

Uma das únicas certezas em relação aos homossexuais advém dos estudos de Kinsey (1949), que apontam para a estimativa de que 4 a 14% da população, independente de seu contexto, teria comportamento homossexual. Pesquisas recentes alteram os números para 1 a 20%. Até hoje os números se confirmam: o censo de 2009 dos Estados Unidos aponta para 10% da população como homossexual, enquanto no Brasil uma pesquisa de 2009 do Ministério da Saúde sobre o comportamento sexual do brasileiro revela que 10% dos homens entrevistados já teve relações com membros do mesmo sexo e que 5,2% das mulheres também o teve. Percebe-se que, mesmo comparando os Estados Unidos e o Brasil, países bem díspares no que diz respeito ao reconhecimento institucional da homoafetividade, os números persistem. Outra estimativa interessante realizada por um grupo de apoio para filhos de casais homossexuais diz que apenas 10% das crianças criadas em ambiente familiar gay tende a também sê-lo. Assim, seja em ambiente majoritariamente homo ou heterossexual, a porcentagem de Kinsey se repete.

Abordar a diversidade sexual na escola não significa estimulá-la ou tampouco proferir um discurso demagogo sobre como não devemos ser preconceituosos. Não é querer subverter a normatividade hetero para uma homossexual. É, sim, inserir um questionamento a respeito de gêneros, identidades e papéis no mundo em que vivemos. É preparar o aluno para se deparar com a realidade que está lá fora, que não é a dos 90% heterossexuais nem a dos 10% homossexuais, mas a de todo o conjunto social. Torná-lo não tolerante com as diferenças – pois a tolerância admite, não compreende -, mas percebedor das igualdades.

Uma conclusão: se um só quer, todos não fazem

Acredito que um projeto de educação sexual só vá fazer total sucesso se inserido em um contexto favorável, em que Estado, família e meios de comunicação ajam em conjunto no combate às idéias equivocadas de sexo e sexualidade. É natural que, caso ilhada em ambiente preconceituoso, qualquer iniciativa com uma nova proposta de abordagem dessa temática vá encontrar reprovação e mesmo indignação alheia. Para evitar isso seria necessário que o Estado reconhecesse institucionalmente todas as sexualidades, que se realizassem mais políticas públicas favoráveis à igualdade de gênero e que a mídia abordasse essas questões com mais responsabilidade. Por isso faz-se necessária não apenas essa nova educação sexual, dentro da escola, como também todo um trabalho reivindicatório fora dela, na busca por uma sociedade que lide com sua sexualidade não como normatizadora de regras comportamentais, separada em categorias identitárias, mas como o que ela verdadeiramente representa: um caminho para alcançar tanto a reprodução humana quanto o simples prazer físico.


Destaque da semana: RJ é o melhor destino de turismo gay no mundo

8 08UTC Novembro 08UTC 2009

Um mês depois de ser eleita sede das Olimpíadas de 2016 e no dia seguinte à sua 14ª Parada  do Orgulho LGBT, a cidade do Rio de Janeiro recebeu uma notícia que une os gays e o reconhecimento internacional. O Rio recebeu o título de melhor destino internacional para turismo gay no Trip Out Travel Awards, prêmio promovido pela Logo TV, emissora voltada para o público homossexual.

Parada Rio

De acordo com os organizadores, a Parada realizada no domingo passado atraiu 1 milhão de pessoas

A eleição foi decidida através de votos ao redor do mundo. Em sua página no site do prêmio, são enumeradas algumas características do Rio que devem ter colaborado para sua vitória: ainda que o deslocamento pela noite carioca não seja dos mais seguros, o custo total da viagem é menor do que para destinos nos EUA ou na Europa. Sem contar as belezas naturais e a famosa liberalidade brasileira… Como é de bom tom, a Prefeitura do Rio ignorou o esterótipo de nossa sensualidade morena, sem deixar de destacar outra das facetas da brasilidade: a hospitalidade.

“O título de melhor destino gay é mais um reconhecimento da hospitalidade do nosso povo, que faz todos os visitantes se sentirem em casa. É um prazer e orgulho ser o prefeito de uma cidade acolhedora que respeita e valoriza as diferenças”, disse o [a assessoria do] prefeito. (Via G1)

É interessante confrontarmos essa avaliação com os dados coletados por um estudo, também divulgado nessa semana, que aponta a falta de informações turísticas LGBT como um dos principais problemas enfrentados pelos estrangeiros gays no Rio. Ou seja, o maior destino para turismo gay no mundo não tem uma estrutura de informação totalmente adequada para seus visitantes. A hospitalidade reside mais na nossa tolerância às diferenças do que à valorização delas.

rio melhor destino gay cartazSe houvesse verdadeira valorização – se não valorização, o mínimo respeito – pelos LGBTs na cidade do Rio, seria improvável o número de uma vítima de homofobia violenta por dia nos morros fluminenses. O clima de acolhimento, a atmosfera gay-friendly pertencem muito mais aos ricos turistas gays que circulam pela Farme de Amoedo do que à população da cidade. Pudera, como não ser tolerante com essa parcela de 25% dos turistas estrangeiros que gastam, na média, o dobro do que a maiora dos visitantes? (Os dados ainda são do estudo de Bayard Boiteux e Mauricio Werner, que encontramos através do Dolado).

Não temos argumentos para contestar a votação. Se LGBTs ao redor do mundo consideram o Rio de Janeiro um destino que vale a pena, eles devem estar certos. Uma cidade barata, bonita e divertida merece mesmo o título de melhor local para visitar (e acreditem, não há nenhuma centelha de inveja gaúcha nisso que digo). Só acho que nós, brasileiros de todos os cantos, não precisamos ser tão festivos com esse anúncio. Não somos turistas. E, a não ser para os economicamente privilegiados, não estamos tão expostos assim à ambivalente busca de respeito através do pink money.

Isso não quer dizer que eu não veja coisas boas na conquista desse título. Espero que o recebimento do prêmio cumpra pelo menos o básico, e leve a uma maior valorização dos turistas gays, refletida em uma estrutura de atendimento mais consistente. Como insisto em ter esperança, espero também que a tolerância às diferenças deixe de valorizar a origem da bandeira do cartão de crédito. Quem sabe um dia o Rio de Janeiro deixe de ser “só” a melhor cidade para os turistas gays e se torne uma boa cidade para os LGBTs cariocas…

Rumo a esse dia, um outro anúncio de teor simbólico também mereceu destaque nessa semana. Antes da Parada, no domingo que antecedeu a premiação, o prefeito Eduardo Paes entregou a chave da cidade para Gilza Rodrigues, presidente do Grupo Arco-Íris de Cidadania LGBT. “Deixo a cidade em suas mãos”, disse o prefeito.


Transgêneros e os hormônios

6 06UTC Novembro 06UTC 2009

No início do mês passado, falamos pela primeira vez sobre transgenerismo, num post explicando as diferenças entre os TTTs que formam nossa sigla. Hoje, aproveitamos o espaço para aprofundar essa discussão. O artigo de hoje foi originalmente publicado em um periódico sobre ética médica da Clínica Lahey (quem quiser ver a diagramação original da revista, pode baixar esse PDF).

Por ser um texto científico, a linguagem está um pouco mais truncada do que o costumeiro aqui no Homomento. Apesar disso, o artigo desconstrói muitos mitos que se possa ter em relação à transexualidade, e fornece as bases para que possamos discutir não só o tratamento hormonal, mas também a possibilidade de despatologização dessa condição.

Transgenerismo

por Dr. Norman Spack (Professor assistente de Pediatria na  Harvard Medical School e Diretor Clínico da Divisão de Endocrinologia do Children’s Hospital, em Boston)

Indivíduos transgêneros são pessoas que, por todas as características biológicas conhecidas, são do sexo masculino ou feminino, mas se sentem como um membro do sexo oposto. O desconforto que sofrem é chamado de disforia de gênero. Essa é uma condição relativamente rara e não pode ser explicada por fatores como cromossomos, exposição a toxinas ou hormônios no período pré-natal, variabilidade genital, níveis de circulação de hormônios após o nascimento, gênero de criação, ordem de nascimento, ou a presença ou ausência de irmãos do mesmo sexo.

É possível que os cérebros dos transexuais sejam “conectados” de uma forma única? Diferenças sutis entre os cérebros masculino e feminino são relatadas há décadas em pesquisas, que colorem os núcleos acumbentes do cérebro de amostras retiradas pós-mortem para identificar diferenças de tamanho relacionadas ao sexo. 1 Um estudo recente mostrou que os núcleos de transexuais homem-para-mulher (MTF) são do tamanho dos núcleos das mulheres genéticas. 2 Um estudo anterior revelou que os homens vítimas de câncer de próstata que tinham sido tratados durante anos com hormônios femininos, e também mulheres vítimas de tumores adrenais virilizantes, tinham núcleos de acordo com seu sexo genético. 3 A exposição a hormônios não afetou as especificidades de gênero dos núcleos de seus cérebros.

A disforia de gênero é listada como uma condição psiquiátrica no manual de códigos de diagnóstico psiquiátrico DSM-IV. Eu acredito que as manifestações psiquiátricas são uma reação à situação, não ao problema subjacente. Um indivíduo transgênero que não passou por terapia hormonal ou cirurgia pode necessitar de medicação psicofarmacológica, mas depois que um paciente recebe tratamento médico e/ou cirúrgico, os medicamentos psicotrópicos são muitas vezes desnecessários.

Quase todos os adultos transgêneros relatam a sensação de estar no corpo errado desde a infância. As histórias dos pacientes estão em sintonia com a prática comum de se vestir secretamente com roupas do sexo oposto durante a infância. No entanto, a idade em que um indivíduo transgênero reconhece plenamente a sua identidade de gênero varia, de meados da infância até a meia idade. Esse reconhecimento atrasado geralmente pode ser atribuído ao medo da estigmatização e rejeição pela família, amigos e empregadores.

A maioria das crianças que manifestam interesse recorrente em ser o sexo oposto não são transexuais, embora muitos se tornem homossexuais. 4 Uma pequena percentagem de crianças que são enfáticas e consistente no seu desejo de ser do sexo oposto (menos de 20% dos acima) prefere ser chamada por um pronome e nome coerente com sua identidade de gênero. Seus amigos, roupas e atividades correspondem a essa identidade. Seu maior medo é a puberdade, devido a mudanças irreversíveis que ameaçam a forma como elas são percebidas (a sua “atribuição de gênero”). Durante a adolescência, quando características sexuais secundárias indesejadas e permanentes transformam o corpo do paciente em uma forma adulta que não condiz com o cérebro, depressão e ansiedade são reações típicas. Quando a menstruação se torna um lembrete mensal de feminilidade em uma adolescente com uma identidade masculina, o comportamento auto-destrutivo é comum. A incidência de suicídio entre os jovens transexuais é alta. 5 Transgêneros adultos que consideram perigoso reconhecer publicamente a sua identidade de gênero podem acabar adotando um estilo de vida de casamento e paternidade que corresponda ao seu sexo genético. Inevitavelmente, a manutenção desta mentira cobra seu preço psíquico.

Quem é qualificado para avaliar a condição de um paciente para encaminhá-lo para tratamento hormonal e, finalmente, cirurgia? As “normas de atendimento” foram criados pela Harry Benjamin International Gender Dysphoria Association, uma sociedade médica que inclui profissionais de saúde mental, endocrinologistas, especialistas em medicina interna e cirurgiões. Essas normas definem os estágios do tratamento, começando com a “exploração extensiva das questões psicológicas, familiares e sociais” por um profissional de saúde mental com profunda experiência de trabalho com essa população, e só então se passa para a intervenção física, que deverá ocorrer em fases, indo das intervenções reversíveis para as irreversíveis.

Os médicos podem ficar inseguros quanto a como se dirigir aos pacientes transexuais que não mudaram legalmente seu nome e sexo, mas tenham realizado a transição para um papel de gênero compatível com sua identidade de gênero. Alguns estados exigem cirurgia reconstrutiva – genitoplastia ou mastectomia – antes de permitir alterações de nome e sexo em documentos como carteiras de motorista e cartões de plano de saúde. Tendo feito ou não as mudanças legais ou passado pela cirurgia, transexuais têm direito à dignidade de serem chamados pelo nome e pronome de sua escolha. Deve-se oferecer vestidos para as pacientes homem-para-mulher na sala de exame, e deve-se perguntar aos pacientes mulher-para-homem (FTM) o que eles preferem usar durante o exame. Nenhuma pressuposição deve ser feita sobre a orientação sexual do paciente. Como qualquer pessoa, um indivíduo transexual pode ser hétero, homo ou bissexual. A orientação sexual reflete a atração física, não a identidade de gênero.

A classificação do transgenerismo como uma condição psiquiátrica tem o efeito irônico de induzir problemas psicológicos nos indivíduos transgêneros. Isso alimenta a idéia de que um transtorno psiquiátrico é o cerne do problema, que influencia a codificação do diagnóstico e as estruturas de cobrança pelo tratamento. Sob o código do DSM-IV, alguns planos de saúde nos Estados Unidos cobrem o custo da terapia de reposição hormonal. Mastectomias em FTMs, que custam entre US$ 6.000 e US$10.000, e genitoplastias (cirurgia de reconstrução genital) em MTFs, cujo valor vai de US$15.000 a US$25.000, são consideradas pela maioria dos planos como sendo cirurgias estéticas em pacientes com uma doença mental.

Para permitir que os pacientes daçam a transição física, a produção endógena de hormônios sexuais precisa ser reduzida a níveis compatíveis com o gênero de escolha, o que pode não ser fácil. Tanto MTFs como FTMs necessitam de doses adicionais de “crosshormones”: estrogênio para MTFs, e testosterona para FTMs. Altas doses de estrogênio representam um risco de coágulos sanguíneos, que podem ser fatais se se dirigirem para os pulmões (causando embolia pulmonar), e as doses de testosterona suficientes para prevenir a menstruação podem provocar hipertensão, acne cística e excesso de produção de hemácias, com o risco do fluxo de sangue “sedimentar”. Alternativamente, hormônios sexuais endógenos podem facilmente ser suprimidos através do uso de análogos do GnRH (hormônio liberador de gonadotrofina), que bloqueiam a liberação de gonadotrofinas (LH e FSH) pela hipófise, permitindo que o tratamento hormonal seja realizado com doses fisiológicas mais seguras de estrogênio ou testosterona. Infelizmente, os análogos de GnRH são proibitivamente caros nos EUA, e os pacientes são obrigados a tomar as doses mais elevadas de esteróides sexuais até terem suas gônadas removidas. Genitoplastia em MTFs e mamoplastia redutora em FTMs não são cobertos pela maioria dos planos de saúde, e os pacientes podem ter que passar anos economizando para realizar essas cirurgias.

Na Holanda e na Bélgica, um plano nacional de saúde cobre todas as despesas relacionadas com a avaliação e tratamento das pessoas transexuais, incluindo crianças. 6 Equipes interdisciplinares de gênero avaliam psicologicamente os pacientes, que se tornam potenciais candidatos à cirurgia reconstrutiva de sexo às custas do governo, depois de viver durante pelo menos um ano no gênero de escolha (a “experiência da vida real”), tomando os hormônios sexuais correspondentes. Essa discrepância na cobertura em diferentes países levanta questões sobre as políticas decisórias nos planos de saúde dos EUA.

Como o tratamento com hormônios do sexo oposto tem efeitos irreversíveis, decisões difíceis inevitavelmente aparecem. Para a MTF, o estrogênio leva ao desenvolvimento mamário e à redução da produção de espermatozóides. Algumas MTFs requerem o armazenamento de esperma antes do tratamento de estrogênio ou gonadectomia apenas para manter sua capacidade reprodutiva, independentemente de quem vai receber o esperma. Para os FTM, a testosterona produz uma voz grave, surgimento de pelos faciais, calvície temporária. Em seguida, vêm o fim da ovulação e da menstruação, e os ovários tornam-se policísticos, ainda que mantendo os óvulos recuperáveis. Quando a criopreservação de óvulos tornar-se um procedimento de rotina e bem sucedido, alguns FTMs irão solicitar o procedimento para servir como doadores de óvulos para o sua parceira ou substituta.

Uma questão ética importante em relação ao tratamento de transgêneros diz respeito às intervenções potenciais em crianças. Será que as crianças transgêneras que tiveram uma avaliação cuidadosa e prolongada por habilidosos especialistas em gênero deveriam ser obrigados a passar por toda a puberdade antes de ter acesso à mesma terapia utilizada em adultos? Não existe nenhum protocolo nacional ou internacional, e os pontos de vista sobre como proceder são diametralmente opostos. Um lado argumenta que a intervenção física deve ser adiada até o término da puberdade, porque os adolescentes são mais propensos do que os adultos a mudar de idéia sobre sua identidade de gênero. A opinião contrária, com a qual concordo, ddefende a intervenção endocrinológica precoce para prevenir a depressão grave, que acompanha o aparecimento de uma puberdade indesejável e evita o procedimentos fisica e psicologicamente dolorosos necessários para inverter as manifestações físicas dessa puberdade.

Um modelo de protocolo empregado atualmente na Holanda começa com um longo processo de seleção adolescentes púberes de gênero variante na fase “Tanner 2″ do desenvolvimento puberal: surgimento das mamas nas meninas e volume testicular de 8 cc, que precede o aumento fálico nos meninos. Nesta fase, as manifestações da puberdade são reversíveis. Análogos de GnRH são utilizados por pelo menos dois anos, potencialmente até os 16 anos de idade, quando adolescentes na Holanda são considerados capazes de consentir com o tratamento com crosshormones. Ao bloquear a puberdade, o tratamento de GnRH dá tempo para que os FTMs atinjam uma altura mais tipicamente masculina, e para a avaliação contínua do desejo de todos os pacientes para a transição. Se a avaliação clínica holandesa se provar médica e psicologicamente segura, ela se tornará o padrão de atendimento na Holanda, e o tratamento será coberto pelo seguro de saúde do governo.

É improvável que a adoção de tal terapia nos EUA, exceto por um protocolo de pesquisa, seja reembolsada pela maioria das operadoras de planos de saúde enquanto transgenerismo continuar a ser codificado e descrito como uma condição psiquiátrica. A única droga alternativa capaz de alcançar a supressão gonadotrófico comparável é a utilização de altas doses de progesterona, que tem efeitos semelhantes à dose alta de prednisona ou cortisona e pode produzir supressão do ACTH, retenção de líquidos, “cara de lua cheia”, obesidade central e resistência à insulina.

“Puberdade precoce” é a única indicação aprovada para uso pediátrico da terapia de análogos de GnRH nos EUA. Para um plano de saúde pagar por esse medicamento, o médico teria que usar esse diagnóstico para um FTM de 11 anos ou uma MTF de 12, apesar de o paciente dificilmente satisfazer os critérios etários de precocidade sexual. Se o protocolo holandês for aprovado pela Harry Benjamin Society, seria correto que os planos de saúde americanos não fornecessem o pagamento de GnRH em adolescentes devidamente classificados como transgêneros?

Indivíduos transgêneros enfrentam há muito tempo discriminação nas instituições médicas, incluindo consultórios médicos e hospitais. 7 Evocando uma abordagem não muito antiga de médicos e psiquiatras em relação à homossexualidade, alguns profissionais de saúde sustentam que o objetivo do tratamento psiquiátrico é convencer as pessoas transexuais a permanecer no papel de gênero de seu sexo genético, o que é uma impossibilidade para a maioria dos pacientes. Todos os envolvidos na assistência ao paciente deveriam ter alguma consciência dos transtornos de identidade de gênero, ainda que esses casos sejam raros. Médicos de atenção primária interessados em fornecer terapia de reposição hormonal para pacientes transexuais devem consultar o Harry Benjamin Society Standards of Care. Médicos e profissionais de saúde mental que não se sintam confortáveis nem possuam conhecimentos suficientes para tratar os pacientes transexuais devem encaminhá-los a colegas mais experientes.


Notas de Rodapé

1 Woodson JC and Gorski RA. Structural differences in the mammalian brain: reconsidering the male/female dichotomy. In Matsumoto A (ed.) Sexual
Differentiation of the Brain
, New York and London: CRC Press, 2000.

2 Kruijver FP et al. Male-to-female transsexuals have female neuron numbers in a limbic nucleus. J Clinical Endocrinology & Metabolism. 85(5):2034-41, 2005.

3 Zhou JN et al. A sex difference in the human brain and its relation to transsexuality. Nature. 378(6552):15-16, 1995.

4 Zucker KJ and Bradley SJ. Gender Identity Disorder and Psychosexual Problems in Children and Adolescents, New York and London: The Guilford Press, 1995

5 Kreiss JL and Patterson DL. Psychological issues in primary care of lesbian, gay, bisexual, and transgendered youth. Journal of Pediatric Health Care. 11(6):266-74, 1997

6 Cohen-Kettenis PT and Pfafflin F. Transgenderism and intersexuality in childhood and adolescence. Making choices, Thousand Oaks and London: Sage Publications, 2003

7 Feinberg L. Transgender warriors, Boston: Beacon Press, 1996 Additional readings Boylan JF. She’s not there. New York: Broadway, 2003

Leituras Adicionais

Brown ML and Rounsley CA. True Selves: Understanding transsexualism – for families, friends, coworkers, and helping professionals, San Francisco: Jossey Bass, 1996

Israel GE and Tarver DE. Transgender Care, Philadelphia: Temple U. Press, 1997

 

 

 


Destaque da Semana: a “melhor semana gay” de Obama

1 01UTC Novembro 01UTC 2009

Acreditamos que todo o bafafá do governador do Paraná foi o maior destaque da semana, mas dedicaremos um texto em breve para discorrer só sobre o assunto. Por ora, ficamos com uma notícia um pouco mais otimista.

Michael Jones, do Change.Org, observa muito bem que, desde o início do governo de Barack Obama, essa foi a melhor semana para os homossexuais. Na quarta-feira, uma nova lei contra os crimes de ódio foi aprovada, voltada especialmente para os motivados pelo preconceito homofóbico. Como nos conta o Dolado,

Denominada de The Matthew Shepard and James Byrd Jr. Hate Crimes Prevention Act e conhecida popularmente por Matthew Shepard Act, a lei se torna uma disposição da FY 2010 National Defense Authorization Act – um projeto de Defesa para o ano de 2010 aprovado no começo do verão americano deste ano. Matthew Shepard Act honra a memória de Matthew Shepard, um estudante de Wyoming assassinado brutalmente como vítima de homofobia, e James Byrd, um afro-descendente americano acorrentado na traseira de uma pick-up e arrastado por aproximadamente 7km. Ambos os crimes aconteceram em 1998.

Matthew Shepard tornou-se ícone da luta contra a violência homofóbica

Os ativistas norte-americanos acreditam que a aprovação da criminalização da homofobia é o primeiro passo para um reconhecimento mais justo do Estado à situação dos homossexuais. E parecem estar certos: na mesma semana, foi anunciado que seria banida uma medida preconceituosa que proíbe a entrada de soropositivos e doentes da AIDS nos Estados Unidos. O anúncio foi comemorado por organizações de todo o país – e também de fora dele.

Obama

Vale, pra terminar o domingo, ler um pedacinho do discurso proferido pelo presidente quando foi aprovado o Matthew Shepard Act.

Nós devemos nos posicionar não só contra os crimes que quebram os ossos, mas também contra os que quebram espíritos – não apenas inflingindo danos, mas incutindo medo. Ninguém na América deve ter medo de andar pela rua segurando as mãos da pessoa que ama.

Obama, como sempre, falou bonito: dessa vez, fez bonito também. Esperamos que essa semana seja lembrada futuramente como marco do início de toda uma mudança estrutural em relação aos LGBTs norte-americanos, e não como faísca de esperança no meio de um governo excessivamente pragmático.


História Queer e História Americana

30 30UTC Outubro 30UTC 2009

No encerramento de nossa semana dedicada à História LGBT, a tradução dessa sexta ressalta um ponto muito importante: quando se estuda a vida de LGBTs em outras épocas, não se pode perder a noção do conjunto. É impossível desvincular a história dos LGBTs do restante da História que estudamos no colégio – afinal, a sociedade que ainda hoje resiste a aceitar as sexualidades não-hétero é a mesma que hoje nega a existência do racismo, por exemplo, e os mecanismos que impedem a conquista plena da igualdade para um e outro grupo remontam ao mesmo passado.

Mais uma vez, traduzimos um artigo da Enciclopédia GLBTQ, de onde já tiramos a história das marchas em Washington. Hoje, em vez de um verbete, trazemos uma coluna de opinião.  Vicki Eaklor, a autora, é membro da American Historical Association e publicou o livro Queer America: A GLBT History of the 20th Century (Greenwood Press, 2008).

História Queer / História Americana

por Vicki Eaklor

Conforme eu ia escrevendo Queer America, o meu objetivo era o de oferecer uma fonte completa, ainda que concisa, para alunos, professores e qualquer outra pessoa que procurasse aprender alguma coisa sobre a experiência GLBTQ nos Estados Unidos nos últimos cem anos.

A necessidade desse livro surgiu a partir do meu próprio trabalho: cerca de quinze anos antes, eu tinha introduzido o curso “História Gay Americana” ao currículo da Alfred University, e de início achei difícil organizar uma lista de leituras. Desde então, como sabemos, o campo da história GLBTQ explodiu, com centenas de estudos maravilhosos sobre indivíduos e movimentos, abordagens e argumentos, constantemente levando-me a reconsiderar o conteúdo e o método de meu curso e minha pesquisa.

No entanto, dois temas com os quais comecei minha trajetória no ensino permanecem os mesmos e, na verdade, tiveram sua importância ampliada conforme eu escrevia o livro: a magnitude de nossa história – ela é tão vasta -, e o fato de que o passado GLBTQ, longe de ser “mais uma história” é parte integrante da história americana.

Dada a forma como a história é dividida em campos, tem sido relativamente fácil aceitar a guetificação desenvolvida desde os anos 60, quando os novos historiadores sociais começaram a reintegrar trabalhadores, mulheres, afroamericanos, indígenas, e, claro, os americanos homossexuais, entre outros, para a “história americana”. Tal era a força da história tradicional (branca, masculina, privilegiada, presumidamente heterossexual, política), porém, que a integração plena dessas histórias “minoritárias” tem acontecido lentamente, e isso quando chega a ser realizada.

O resultado é que a história dos EUA que a maioria dos americanos aprende ainda se assemelha menos a um picadinho composto por muitos elementos do que a uma refeição sofisticada feita de pratos separados, a maioria dos quais é “extra” e pode ser descartada dando preferência ao prato principal, a velha carne de sempre. É chegada a hora de resistir ao impulso e à conveniência desta abordagem, mostrando a natureza integrada de uma história com a outra. Assim, chego ao meu argumento de que a história queer é história americana, e vice-versa.

A história queer e a costumeira saga americana são interdependentes, de várias maneiras. Deixando de lado os efeitos evidentes da história dos EUA sobre as pessoas queer (relatados como eras de maior ou menor grau de homofobia, de acordo com as políticas existentes contra a homossexualidade), aqui vou me focar brevemente no contrário – o impacto das pessoas e movimentos queer na história dos EUA, e a centralidade do gênero como um tema agregador.

A discussão deveria avançar sem a necessidade de dizermos que é evidente que as pessoas GLBTQ, visíveis ou não, são parte da história nacional pelo simples fato de estarem entre “o povo americano”; nós servimos nas forças armadas na guerra e na paz, fizemos parte de todas as forças de trabalho, todos os movimentos pelos direitos civis, em todos os partidos políticos, e, pelo menos no caso de James Buchanan (se não também Lincoln), podemos ter vivido também na Casa Branca.

Além disso, como Lillian Faderman argumentou brilhantemente em To Believe in Women, não é apenas a presença óbvia dos queers que deve ser reconhecida, mas muitas vezes o papel crucial que eles desempenharam em alguns dos principais eventos do país. (Faderman mostra, por exemplo, o papel central das lésbicas em todas as grandes reformas educativas e sociais nos últimos 100 anos.)

Outros exemplos de vozes queer (exploradas com mais profundidade no meu livro) incluem as do Renascimento do Harlem e do desenvolvimento do blues como uma forma de arte (Alain Locke, Langston Hughes, Bessie Smith, Ma Rainey), o desenvolvimento da arte moderna e música (Andy Warhol, John Cage); teatro e música tipicamente americanos (Tennessee Williams, Aaron Copland, Leonard Bernstein); e também aqueles que influenciaram profundamente o pensamento, a literatura e o ativismo pelos direitos civis e o feminismo no pós-guerra (Bayard Rustin, Adrienne Rich, Rita Mae Brown).

Além de modificar a história tradicional dos “nomes famosos”, contudo, a história queer sugere que esses eventos e movimentos específicos para pessoas GLBTQ estão totalmente alinhados à trajetória da história americana como ela é concebida com frequência: como uma história de extensão gradual dos direitos civis (quando não chega a uma igualdade plena) para uma proporção cada vez maior da população.

Se pensarmos nas nossas origens como nação, quando só homens brancos com posses e 21 anos ou mais de idade eram considerados cidadãos plenos, as fileiras de eleitores potenciais expandiram-se ao longo dos dois últimos séculos, com os excluídos da participação social e econômica repetidamente organizando-se em movimentos para exigir o seu lugar. O resultado disso é uma “política de identidade”, em que as mesmas características (raça, religião, sexo) usadas para justificar a discriminação tornam-se a base para a organização de grupos para combater a desigualdade.

Os chamados “homossexuais” também começaram a pensar nesses termos nos meados do século XX, e se organizar como um movimento político. Ao fazer isso, cada grupo – da sociedade Mattachine da década de 1950 e os piqueteiros da década de 1960, até a Força-Tarefa Nacional Gay e Lésbica da década de 1970, a Campanha de Direitos Humanos de 1980, e GenderPAC da década de 1990 – oferece insights importantes para a evolução da política GLBTQ, e da política da nação como um todo.

Finalmente, qualquer tentativa séria de reintegrar as pessoas queer novamente à história americana nos leva não só a repensar o que é a história e por que estudá-la, mas nos lembra o tempo todo que toda a história que omita o gênero como tema é incompleta.

No mínimo, a nossa insistência nacional na conformidade de gênero (na ideia de que os papéis de gênero são atribuídos em conformidade com o sexo das pessoas) explica muito sobre a história que temos de homofobia, já que gênero e sexualidade são confundidos com tanta frequência ( aquela pressuposição de que os homens efeminados e mulheres masculinas são também gays ou lésbicas).

O gênero também aparece em nossa história econômica e política. Será que podemos realmente compreender o capitalismo ou o militarismo sem notar que o sucesso nessas áreas depende de um culto da masculinidade?

Podemos compreender plenamente o impacto da Guerra Fria, enquanto omitirmos a mania contra homossexuais subversivos que superou até mesmo o Pavor Vermelho, seja em Washington ou em Hollywood?

Essas perguntas poderiam ser multiplicadas para incluir cada era e cada evento em nosso passado, e a resposta tácita delas (não, nos dois casos) abre mais linhas de investigação, que só podem melhorar a compreensão do nosso presente, bem como do nosso passado.


Milk: 30 anos depois

28 28UTC Outubro 28UTC 2009

Eis um nome que fora do eixo norte-americano certamente não significava muito, ou mesmo nada, até o começo de 2009: Harvey Milk. A produção e posterior premiação do filme de Gus Van Sant foram responsáveis pela propagação da imagem e até iconização do ativista, ao menos no cenário LGBT.

Sean Penn no papel de Harvey Milk (2008)

Sean Penn no papel de Harvey Milk (2008)

Não foram só a interpretação de Sean Penn e a qualidade do roteiro, posteriormente premiados com Oscars, ou mesmo a temática da história, pouco contemplada em geral pelo cinema do mainstream, que impulsionaram a bilheteria do filme. Percebe-se a presença de um tino comercial para o lançamento de uma película como essa, no contexto em que foi lançada. Além de resgatar com esmero a figura política de Milk, ela também reproduz o cenário conservador em que Harvey viveu e militou – e que, notadamente, não se transfigurou tanto assim até hoje.

30 anos depois: a semelhança dos cenários

A 27 de novembro de 1978, Harvey Bernard Milk foi assassinado em San Francisco. 30 anos depois, a data escolhida para a estréia de sua biografia cinematográfica, a população dos Estados Unidos enfrentava uma situação política de avanços e retrocessos. Foi em novembro de 2008 que ocorreu a aprovação da Proposition 8 na Califórnia, tendo o apoio de 52,24% dos cidadãos votantes e representando um largo passo para trás na luta pelos direitos igualitários não só no estado como no país: cententas de casamentos entre pessoas do mesmo sexo foram anuladas, e um direito que recém havia sido concedido lhes foi novamente negado. Em novembro, também, os norte-americanos foram às urnas para eleger seu novo presidente, Barack Obama.

Se em 1978 conferimos a primeira vitória política de um homossexual assumido, em 2008 foi eleito o primeiro presidente negro dos Estados Unidos. Ainda que sejam cargos e minorias diferentes entre si, é inevitável fazer essa associação; além do mais, tanto um quanto outro discursaram com a intenção de combater desigualdades e preconceitos na sociedade norte-americana, cada um dentro de seus alcances.

Na ordem social e midiática, também conferimos algumas semelhanças. No ínicio de 2009, com a Prop 8 recém aprovada – e muito contestada pelos homossexuais da California -, aconteceu o tradicional concurso Miss USA. A candidata predileta era justamente a californiana Carrie Prejan, que, indagada a respeito do matrimônio homossexual, se posicionou negativamente. Ao fim do concurso ela ficou na 2º posição, havendo especulação a respeito de um desfavorecimento por conta do comentário preconceituoso. Em contrapartida, Carrie recebeu o título informal de símbolo da luta contra o casamento gay. Até mesmo porque reafirmou sua opinião em entrevistas e aparições posteriores, dando voz ao discurso cristão.

Anita Bryant (1964) e Carrie Prejan (2008)

Anita Bryant (1964) e Carrie Prejan (2008)

Semelhante é o caso de Anita Bryant, ícone de beleza e famosa cantora/garota propaganda dos anos 60-70. Anita, que é retratada no filme, liderou a partir de 1977 uma espécie de cruzada pelos Estados Unidos contra a aprovação de leis favoráveis aos direitos homossexuais. Apelando para a fantasiosa “ameaça” que os gays representavam aos bons costumes e principalmente as crianças “indefesas e puras”, Bryant encabeçou a criação e foi a principal porta-voz do movimento “Save Our Children”.

"SIM, ANITA! Eu quero ajudar você a trazer de volta aos Estados Unidos a moralidade e Deus." Cartão-reposta distribuído pelo território americano para angariar fundos e recrutar apoio

Cartão-reposta distribuído pelo território americano para angariar fundos e recrutar apoio, com os dizeres: SIM, ANITA! Eu quero ajudar você a trazer de volta aos Estados Unidos a moralidade e Deus.

Sejam por essas, ou outras eventuais semelhanças mais sutis aqui não citadas, que uma maior identificação com a obra foram possíveis, acabando por sublinhar a trajetória de Milk no cinema e refletir diretamente na imagem do mesmo fora das telas.

A consagração do ícone

Fato é, que no dia 12 de agosto de 2009, o mesmo presidente Barack Obama distribuiu uma Medalha Presidencial de Honra à cidadãos que auxiliaram a melhoria nas mais diversas categorias do país. Harvey Milk foi agraciado com a medalha póstuma, num gesto que simboliza a forte revitalização de sua imagem, posterior ao filme, como símbolo da luta pelos direitos LGBT.

Outra medida considerável foi a recente assinatura de uma lei, pelo governador da Califórnia (também conhecido ator) Arnold Schwarzenegger, em que oficializa o dia 22 de maio como Harvey Milk day, em celebração a data de nascimento do político.

Acredito que, longe de minimizar a importância de Milk ou desmerecer a honraria, a lei evidencia bem a crescente relevância do nome no cenário atual, seja ligado a luta pelos direitos, como também, agora a reafirmação do mesmo como ícone da cultura gay.

milk 1

O caso de Milk é importante, pois acaba tornando mais nítida a inserção de uma figura primeiramente política em posterior referencial cultural. Principalmente em meios, como o LGBT, em que militância e cultura tem seus limites definidos por uma linha tênue que poucas vezes pode ser identificada.

Falar mais da biografia dele seria apenas tentar reproduzir uma imagem grosseira do que Gus Van Sant conseguiu captar com delicadeza e apuro. Resta inspirar-se, fazer repercutir o legado e levar adiante a luta de Harvey Milk.

* Embora o filme de 2008 tenha alcançado um número ímpar de espectadores, dando uma projeção internacional ao nome, não foi a primeira produção que se propôs a contar a vida de Harvey Milk. Em 1984 um documentário chamado “The Times of Harvey Milk” foi realizado e premiado com o Oscar de melhor documentário do ano.

(Edição final: Pedro)


Outubro: Mês da História LGBT

27 27UTC Outubro 27UTC 2009

O senso comum pouco conhece o ativismo gay. Acredito que mesmo Stonewall, marco das lutas LGBTs, ganha pouca atenção da grande mídia – visto que está completando 40 anos em 2009 e pouco foi mencionada por aí.

É sabido que o preço da fama de alguns movimentos sociais foi alto para seus manifestantes. Queimação de sutiã e instauração do matriarcado são clichês contra os quais as feministas têm de lutar constantemente, explicando à exaustão que ser feminista não significa abdicar da feminilidade, ser lésbica ou querer que todos os homens morram. Mas se a alta exposição é prejudicial, não podemos deixar de esquecer que a invisibilidade também tem seus malefícios: se uma menina inconformada com a submissão que lhe é sugerida sabe, mesmo através da visão esterotipada, que existem mulheres que combatem tal situação, não necessariamente uma menino afeminado tem conhecimento da existência de toda uma estrutura ativista, com uma história própria, que visa a defesa da diversidade sexual.

Essa ausência de referenciais históricos relativos ao ativismo gay vem sendo notada e, progressivamente, diferentes iniciativas vêm tentando suprí-la. É nessa onda que foi instituído o GLBT History Month.

O GLBT History Month

Em 1994 o professor Rodney Wilson inaugurou a iniciativa, nos Estados Unidos, escolhendo Outubro por ser o mês de outra data ativista – o National Coming Out Day (o recém trazido para o Brasil “Dia de Sair do Armário”). A idéia foi apoiada por instituições gays como o GLAAD e o HRC e reforçada com a ajuda da National Education Association. Desde 2006, o Equality Forum se responsabilizou pela manutenção do interessantíssimo site da iniciativa.

LGBTHM

Inspirado nos Black and Women’s History Months, o GLBT History Month destaca anualmente as realizações de, de 31 ícones gays, lésbicos, bissexuais ou transgêneros. (…) Começando no dia 1 de outubro de 2009, um novo ícone GLBT é apresentado a cada dia. Você terá acesso a um vídeo, uma biografia e outros recursos, juntamente com informações sobre todos os ícones anteriores. Basta clicar sobre o nome do ícone, correspondente ao dia do mês.

Os vídeos e minibiografias já abordaram desde figuras conhecidas pelo grande público como Leonardo da Vinci, Michelangelo, Alan Turing, Cole Porter, Basquiat e Andy Warhol, a personalidades que apenas o público ativista mais experiente conheceria, como Alfred Kinsey, Rachel Maddow, Cleve Jones e Tammy Baldwin, passando ainda por celebridades como Ellen DeGeneres, Ian McKellen e Melissa Etheridge.

A versão britânica do Mês da História LGBT ocorre em fevereiro, devido a conquistas próprias de direitos dos gays britânicos, e começou em 1997. O site inglês explica a necessidade do evento e deixa claro que não quer reafirmar noções modernas de sexualidade, encaixando as personalidades históricas nas letras L, G, B ou T, mas apenas reparar o dano realizado pela heteronormatividade, levando assim ao ambiente educacional a noção de que a realidade da sexualidade humana é muito mais abrangente do que pensamos.

Além da consistência do projeto, a versão britânica conta com uma seção de sugestões de atividades para o dito mês, para cada interessado poder organizar e agir diretamente na sua comunidade. Desde seminários e conferências até exposições de arte com temática LGBT estão nessa pauta.

Acredito que a explicação do site para a iniciativa seja bem escrita a ponto de merecer ser reproduzida na íntegra:

Ao longo da história, podemos encontrar muitos exemplos de pessoas que, por uma razão ou outra, se recusaram a obedecer às premissas em relação ao sexo da sociedade em que nasceram. Também encontramos muitas histórias de pessoas que amavam outras de seu próprio sexo. Algumas dessas pessoas eram famosas, alguns deles obscuras. Algumas deles sofreram perseguições graves, outros tiveram mais sorte. Algumas são lembradas pelas contribuições que fizeram para a nossa cultura e sociedade. Suas vidas pessoais são geralmente reprimidas ou censuradas, exceto em publicações especializadas.

Para entender o nosso presente e imaginar o nosso futuro, precisamos primeiro obter clareza sobre nosso passado. Isto é válido para nós como indivíduos, mas também é aplicável para as sociedades. O LGBT History Month é um momento em que podemos explorar e partilhar alguns aspectos ocultos do passado do nosso país, tanto recente quanto remoto. Esta história escondida pertence a todos nós, é parte de nossa herança.

A configuração de personagens históricos: ônus e bônus

A execução dessa iniciativa pode render ótimos frutos. Por um lado, é importante que o grande público desenquadre suas noções e seu conhecimento do que é ser gay ou lésbica, saiba que estes têm uma trajetória particular em busca da garantia de seu – ainda não obtido – lugar ao sol. Isso pode estimular até mesmo o avanço dos direitos e do respeito aos LGBTs.

Por outro lado, é muito importante para os próprios gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros mais jovens tenham fácil acesso a essa história, sintam-se parte de um todo e não condenados a sufocar e morrer fora do aquário dos ditos heterossexuais.

Mas acredito que deva se ter aguns tópicos em mente, pois tarefa de educar em relação a essas figuras é delicada sob vários aspectos. Primeiro, como já mencionado pelos ingleses, é bom que não se categorize as pessoas. É importante que saibam que Leonardo da Vinci se relacionava com outros homens, mas ele não era gay, porque o gay é uma categoria recente. Deixar claro que a sexualidade humana tem várias facetas e, ao mesmo tempo, que ela não precisa se encaixar dentro de alguma delas é uma tarefa difícil.

Em segundo lugar, existe o fator da criação herói. A imagem mistificada e a supervalorização das atitudes podem ser consequências de uma mensagem mal transmitida. O importante é ter em mente que, seja comportando-se sob os moldes do ativismo clássico ou apenas tendo uma sexualidade aberta com naturalidade, todas essas figuras deixaram como lição uma vivência espontânea da sexualidade humana e a mensagem de que é preciso contestar, sempre, toda forma de discriminação ou privação dessa vivência.

Que o Mês da História LGBT sirva não como momento saudosista das antigas formas de ativismo, pois estamos em tempos diferentes e ainda há muito pelo que lutar, mas como injeção de inspiração e ânimo para as reivindicações de hoje e amanhã. E que seja, em algum momento, importada para solo tupiniquim, em cuja história não faltam personalidades admiráveis para se explorar nessa área.


Breves apontamentos para a história da homossexualidade

26 26UTC Outubro 26UTC 2009

O autor da mais completa obra sobre história da homossexualidade no Brasil, João Silvério Trevisan, costuma dizer que a história dos homossexuais foi sempre escondida, tornada invisível. A reticência em relação à presença de amantes do mesmo sexo em todas as épocas pode ser interpretada diversamente: seja como intencional, advindo da tentativa de normativizar a heterossexualidade, ou como acidental, descaso mesmo, se considerarmos que a história reflete muito o contexto em que é produzida – no ocidente, um contexto em que o sexo entre membros de gêneros diferenciados, e apenas ele, é visto como correto, comum e natural.

Falar de história da homossexualidade consiste em falar de apenas uma faceta da história da sexualidade humana, que é absurdamente rica e plural. Consiste em compreender que as relações sexuais foram encaradas de formas distintas de acordo com cada tempo e sociedade, sem a presença da dicotomia hetero x homo, fruto da mentalidade moderna. Afastemo-nos, por isso, da perspectiva errônea que tenta anacronizar as categorias identitárias, partindo da premissa que “houve gays e lésbicas em todas as épocas”.

Afastemo-nos, também, do ativismo barato, da história com fins. Se vivemos em uma sociedade homofóbica, não é o trabalho acadêmico que vai transformar a situação. Não adianta muito desconstruir as idéias erradas a respeito da trajetória histórica da sexualidade sem propor uma nova leitura para elas. O objetivo aqui não pode ser simplesmente esfregar na cara da academia a existência comprovada do homoerotismo em todos os tempos. Esse trabalho, além de não levar a nada, já foi realizado por outros.

Se queremos inverter a situação descrita por Trevisan, façamos de maneira digna, correta e compenetrada. A formação de uma memória histórica com a qual o ativismo LGBT possa contar e utilizar em suas lutas políticas é um assunto que pode ser próximo, mas deve ser visto como nitidamente distinto. Encaremos a história da homossexualidade não como ferramenta para visibilidade gay, mas para a construção de um conhecimento mais aprofundado da humanidade e de sua trajetória.

Semana da História LGBT no Homomento

Outubro é, oficialmente, o Mês da História LGBT. Se já constam aqui no Homomento duas traduções voltadas para esse propósito, essa semana resolvemos nós mesmos refletir a respeito do tema. Ao longo dessa última semana do mês serão publicadas algumas postagens dentro dessa temática, na tentativa de enriquecer a discussão.


Destaque da semana: violência contra LGBTs

25 25UTC Outubro 25UTC 2009
A homofobia não se traduz só em discriminação verbal. Pode levar a agressões e morte

A homofobia não se traduz só em discriminação verbal. Pode levar a agressões e morte

Essa semana, o Dolado nos trouxe uma informação muito interessante: em Londres, a New Scotland Yard está comemorando o aumento de 18,3% no número de registros de agressões homofóbicas em Londres. Sim, comemorando. Para a polícia londrina, o maior número de denúncias não aponta para um aumento na violência, e sim indica que a população LGBT está se sentindo mais segura para reportar crimes de ódio.

De acordo com reportagem do jornal britânico The Guardian, a organização pelos direitos dos homossexuais Stonewall alega que ainda hoje os LGBTs não são levados a sério quando vão à delegacia. Eles defendem que a homofobia seja monitorada da mesma forma que o racismo. Um representante da polícia londrina concordou que as estatísticas ainda são tímidas frente aos números reais da violência motivada por orientação sexual, mas destacou o empenho do poder público no combate a todos os crimes de ódio: “Estamos trabalhando em parceria com as vítimas, com organizações LGBT e outros parceiros para garantir que vamos oferecer um serviço efetivo para vítimas e testemunhas, bem como punir os agressores”.

No Brasil, podemos citar como semelhante a situação da violência doméstica, que também contabiliza aumento nos registros. O número de agressões denunciadas aumentou 43% na comparação entre 2006 e 2007, e cresceu mais 32% no ano seguinte. Para isso, foi fundamental a promulgação de uma lei específica para coibir a violência contra a mulher, a Lei Maria da Penha, em 2006, e a criação de uma rede de serviços adequada para o atendimento das vítimas.

Tanto no caso londrino como nos relatos de sucesso da lei Maria da Penha, há um outro fator que motiva as vítimas a procurarem a polícia: a confiança na busca pelos agressores. Enquanto isso, ainda não temos respostas para as bombas na Parada de São Paulo. Nessa mesma parada, um homossexual foi espancado e morreu alguns dias depois por traumatismo craniano; e cinco homens agrediram um rapaz e foram embora tranquilamente, provavelmente seguros de sua impunidade.

O rosto de Ferruccio Silvestro, espancado ao sair de uma boate gay, é um símbolo da luta contra a homofobia no Brasil

O rosto de Ferruccio Silvestro, espancado ao sair de uma boate gay, é um símbolo da luta contra a homofobia no Brasil

O Grupo Gay da Bahia estima que um homossexual é morto a cada dois dias no País. Um levantamento do Dolado ao longo da semana passada chegou a um número bem próximo: em 9 dias, foram 5 os casos de assassinatos motivados por homo e transfobia – e isso só nos casos veiculados na mídia.

Maria da Penha, a mulher cujo nome batiza a lei da violência doméstica, viu o marido que tentou matá-la permanecer impune por quase 20 anos. Se seu caso não houvesse chegado à Comissão Interamericana de Direitos Humanos OEA, talvez ainda não tivéssemos uma legislação específica para a violência contra a mulher. Também é interessante notar como a promulgação da lei, em 2006, provocou uma mudança de mentalidade - a agressão da mulher pelo marido deixa de ser vista como parte da dinâmica do casal para ser encarada como um problema grave.

As estatísticas londrinas nos animam, e o caso da lei Maria da Penha nos inspira a acreditar que nunca é tarde demais para buscar justiça. Para que os agressores sejam punidos, é preciso que não haja conivência com a violência praticada – e isso só vai acontecer quando a homofobia for vista como um problema sério e real, que ameaça a vida de LGBTs. Falando nisso, você já deixou sua assinatura no Não Homofobia?


A luta contra a AIDS e a Era de Aquário

23 23UTC Outubro 23UTC 2009

Outubro é o mês da história LGBT, e procuramos refletir isso em nossas traduções. Na semana passada, falamos sobre as primeiras marchas em Washington. Hoje, trazemos um relato que resgata os tristes dias das primeiras mortes pela AIDS.

A Caminhada contra a AIDS, a Era de Aquário, e pessoas como eu

Karen Ocamb

A maioria de nós não se emociona com eventos históricos, DSC_4195 raramente parando para pensar que uma vez aconteceu algo importante naquele dia.

Os feriados religiosos, por outro lado, exigem envolvimento – nem que seja apenas comprar presentes e dividir o pão.

Mas para pessoas como eu, LGBTs e já com uma certa idade, certos eventos são tão históricos como espirituais, senão religiosos – eventos como a Caminhada da APLA contra a Aids no domingo.

Atrevo-me a dizer que muitos, se não a maioria, dos mais de 30.000 caminhantes cadastrados participaram pela bondade do seu coração, não pela necessidade de FAZER ALGUMA COISA para combater a impotência avassaladora que nos possuiu durante o tsunami da crise da AIDS entre 5 de junho de 1981 – quando o CDC publicou um relatório dos médicos LA Michael Gottlieb e Joel Weisman sobre os primeiros 5 casos de homens gays com uma nova doença rara – e 1995, quando os inibidores da protease foram aprovados pelo FDA. Até o final daquele ano, estima-se que 9,2 milhões de pessoas no mundo tenham morrido de AIDS.

A morte em massa de gays nos Estados Unidos começou a diminuir no próximo ano. Na 11 ª Conferência Internacional sobre Aids em Vancouver, em 1996, cientistas anunciaram que uma terapia de combinação de medicamentos poderia transformar a AIDS de uma sentença de morte imediata a uma doença crônica controlável. E a doença começou a passar de homens gays – que então já haviam criado organizações de apoio para a educação, prevenção e tratamento de pessoas com HIV/AIDS – para outras populações com problemas acesso a saúde.

Em Los Angeles, na verdade, o HIV/AIDS apareceu pela primeira vez na Clínica de DSTS no Centro de Serviços Comunitários Gays, em 1979. E, como os gays começaram a ficar doentes e morrer dentro de algumas semanas – e outros simplesmente desapareceram – o centro criou uma central de atendimento por telefone para tentar responder a tantas perguntas tão assustadas quanto possível, sem explicações científicas claras. Essa central de atendimento cresceu lugar ao AIDS Project Los Angeles, que também começou a oferecer capacitações sobre a AIDS com médicos como Mark Katz, que lutavam não só contra a ignorância sobre a doença, mas também contra a hostilidade da sociedade e do governo. Pelo menos 25% da sociedade, de acordo com a pesquisa Pew Research mais recente, concordou com o pronunciamento do Reverendo Jerry Falwell, que disse que “a AIDS não é apenas um castigo de Deus para os homossexuais, é castigo de Deus para a sociedade que tolera os homossexuais”.

Então a comunidade LGBT veio em sua própria ajuda, criando e financiando novas organizações. A Caminhada da APLA contra a AIDS Bradley foi criada por Craig Miller, que tinha 25 anos na época. Os organizadores esperavam arrecadar US$ 100.000 naquele 28 de julho de 1985 – mas a estrela de cinema Rock Hudson tinha acabado de anunciar que tinha AIDS e 4.500 caminhantes apareceram nos estúdios da Paramount em Melrose – arrecadando $ 673.000.

Perdi a primeira Caminhada contra a AIDS – eu ainda era relativamente nova em LA, e meio que ainda estava no armário. Mas eu acompanhei as notícias sobre ela. E é aqui que os números – de cinco homens gays em Los Angeles em junho de 1981 para 7.699 casos de Aids e 3.665 mortes por AIDS nos E.U.A. até o final de 1984 – se tornam pessoais.

Eu recém havia produzido a cobertura dos Jogos Olímpicos de 1984 para as afiliadas da CBS News – que foi minha última tarefa após dez anos de CBS News – e eu comecei a estudar para ser uma dramaturga, tendo aulas de teatro com a incrível Salome Jens.

Foi lá que aprendi minhas primeiras lições sobre a AIDS.

Um jovem que Salomé dizia estar destinado à grandeza como ator/diretor repentinamente foi parar na sala de emergência com uma doença cerebral inexplicável. Salomé correu para perto dele; ele morreu três dias depois. Na aula, sussurrava-se que ele era gay e teve a nova doença. Depois disso, vários jovens atores vigorosos começaram a definhar. Ninguém sabia o que estava acontecendo; todos tinham medo.

Quando Johnnie Pipkin internou-se pela primeira vez no hospital, ele foi mantido em isolamento, sua comida era frequentemente deixado do lado de fora, e fomos obrigados a usar máscaras, luvas e uma bata cirúrgica antes de vê-lo. Ele queria tanto ser tocado – sua família havia simplesmente lhe abandonado -, e nós – a trupe de atores, seus companheiros de AA, seu ex-amante – éramos as únicas pessoas que aquele jovem de alma boa, outrora descarado e engraçado, tinha para amá-lo.

Não avia uma ala ou ambulatório para AIDS (5P21) na época, e uma crise de Johnny o levou para o hosptal do condado onde, por não ter plano de saúde, ele foi colocado em um quarto grande, junto a homens heterossexuais com uma variedade de doenças. Eles não se importaram muito com o “gay pervertido” escondido atrás da cortina do hospital.

Outro ataque deu-lhe um quarto todo seu. Mas como o County era um hospital escola da USC, ele era refém dos caprichos da equipe de enfermagem, por vezes, cruel. Muitas vezes ele foi obrigado a suportar os estagiários repetidamente furando-o com agulhas como uma almofada, tentando, muitas vezes sem sucesso, encontrar uma veia. Eu queria gritar para eles – para exigir que eles parassem de tratá-lo como se ele não era humano. Mas em vez disso Johnnie gritou para mim, pedindo-me para não aborrecê-los para que não se recusassem a fornecer a medicação para dor quando ele mais precisava dela, à noite.

Então, eu blasfemava contra Deus. E eu me repreendia por não ser Jesus, não sendo capaz de entrar, estender minhas mãos e curá-lo. Eu estava totalmente impotente.

Eu falhei com Johnnie, também. Antes que ele perdesse a voz para o câncer em seu esôfago – o câncer que se somava à infecção por fungos na boca, à variedade de fungos em seu corpo e aos vírus agindo como Pac-Man em suas entranhas, como se a Aids foi comê-lo vivo – Johnnie pediu que eu o ajudasse a morrer. Era fácil, sério – ele insistiu. Ele beberia uma garrafa de uísque ou duas, desmaiaria, e então eu seguraria um travesseiro sobre seu rosto. Eu disse que não – eu não iria ajudá-lo a renunciar a sua sobriedade e morrer com o demônio do álcool gritando em seu cérebro. Eu ainda tenho conflitos com essa decisão.

Um dia antes que Johnnie morresse em 1986, ajudei a enfermeira domiciliar a erguer seu esqueleto de sua cama para a cadeira de rodas, para que ele pudesse olhar mais uma vez para o seu precioso Silver Lake Garden. Eu não sabia como dizer adeus, então eu só disse que eu iria vê-lo amanhã. No dia seguinte, um domingo, eu estava falando em uma reunião do AA em Pacific Palisades, quando de repente senti uma ordem espiritual para falar sobre o que estava acontecendo com os meus amigos gays. Falei com o coração, e várias pessoas choraram, inclusive eu. Quando cheguei em casa, descobri que Johnnie morreu enquanto eu falava. Eu sabia. Eu pude senti-lo.

Johnnie Pipkin foi a minha segunda morte por Aids. A primeira foi a do ator/ antor Stephen Pender, no início daquele ano. Eu estava com Stephen quando ele morreu. Eu tinha ficado com ele dia e noite, à medida que seus amigos iam e vinham de seu quarto na ala Betty Ford do Cedars Sinai Hospital. Stephen foi meu padrinho no AA e, milagrosamente, ele lembrava de mim nos meus primeiros dias de sobriedade, na reunião atrás da porta vermelha em Greenwich Village. Não deixá-lo ficar sozinho quando morreu foi a minha maneira de agradecer a ele e todos os homens gays por estarem comigo quando eu lutava contra a morte pelo vício. Muitas vezes me perguneio: por que eles e não eu?

Stephen Pender morreu no dia 15 de março de 1986. Ele tinha 35 anos. Nesse ano eu andei na Caminhada da APLA contra a Aids. Eu chorei o caminho inteiro. Eu chorei porque Stephen tinha recém aparecido em “Hill Street Blues”, e falava-se em retomar sua carreira – talvez o começo de sua carreira na TV, depois de dois musicais na Broadway. Eu fazia parte de um grupo de amigos que cuidaram de Stephen quando ele estava doente – limpando sua casa todos os dias, cozinhando alimentos macrobióticos, tentando Cantina multidão (ADJ) BW exercícios espirituais alternativos, com os quais ele não se importava muito na verdade – os 12 passos dos AA eram espiritualidade suficiente para ele – e tentando abraçá-lo sem mover o cateter de Hickman em seu peito. Todo o tempo nós sabíamos que ele estava definhando lentamente e não havia nada que pudéssemos fazer para salvá-lo.

Nessa primeira caminhada, eu chorei a perda de Stephen e a minha própria impotência. Chorei pela perda de Johnnie, que estava definhando nessa época – mas queria saber tudo sobre a Caminhada contra a AIDS: quem estava lá, o que aconteceu, qual foi a sensação de estar com tantas outras pessoas passando pela mesma coisa.

A sensação era de amor. Era de um elo comum, forjado a partir de tristeza e raiva e perda, sabendo que os estranhos ao seu lado também sabiam no fundo de suas almas qual era a sensação do coração partido e daimpotência – e, ironia da ironia – também sabiam que quanto mais profunda a dor, mais espaço para o amor.

Parecia que a Era de Aquário estava sobre nós. A era de paz e da compreensão que muitos cantamos quando os nossos entes queridos estavam sendo convocados para lutar na guerra do Vietnã, alguns voltando para casa em sacos, alguns mentalmente e emocionalmente perdidos – todos mudados.

No início, a despedida foi semelhante – dizendo adeus aos amigos na pista, quando se preparavam para lutar no exterior em uma guerra em que eles não acreditam – e dizendo adeus aos entes queridos, quando entraram em hospitais para o tempo final.

cadeira de rodas Mas a Aids foi diferente. Agora meus amigos estavam literalmente morrendo nos meus braços. Uma geração de amigos e colegas. E aqueles que caminhavam ao meu lado conheciam a profundidade daquele amor e daquela perda, também. Era o tipo de conhecimento compartilhado que poderia curar o mundo, se o mundo quisesse ouvir.

Mas o mundo não deu ouvidos para nós, então andamos. E a nossa caminhada levou à coragem de ver e ajudar outro amigo a morrer. E a nossa visibilidade era uma posição orgulhosa e desafiadora contra os Jerry Falwells e Ronald Reagans do mundo, que – em nome de Deus – condenaram a todos nós.

E a Caminhada contra a AIDS permitiu que lutássemos com os nossos corações. No início dos anos 90, o famoso cantor e ativista da People With AIDS Coalition (PWA) Michael Callen iria se despedir de nós com sua canção, “Love Don’t Need a Reason” – uma canção sobre o amor autêntico, sem vergonha. O refrão diz

0011 Pois o amor não precisa de um motivo

O amor nem sempre rima

E o amor é tudo que temos por agora

O que nós não temos é tempo.

Michael cantou essa música na Marcha em Washington de 1993, ainda que seus pulmões estivessem cheios de sarcomas de Kaposi. Ele morreu naquele 27 de dezembro – apenas horas depois que eu o deixei – Eu era uma de seus amigos e cuidadores.

Nos dias de hoje, Michael é melhor conhecido como o cara cantando em falsete em “Where the Boys Are” no filme sobre AIDS “Filadélfia”. Foi aí que a maior parte da América aprendeu sobre a Aids – e, em particular, sobre o Sarcoma de Kaposi. Essas são as manchas roxas que o personagem de Tom Hanks mostrou em seu peito durante a cena do tribunal.

Danny-Warner Sabíamos sobre os sarcomas. Na verdade, assim como a lipodistrofia ensinou a todos nós como abandonar a “imagem corporal”, os sarcomas nos ensinaram sobre o desapego da vaidade. E o ato de abandonar todos os preconceitos em relação a como um homem gay deve parecer – e ser – era em si um ato de enorme coragem espiritual. Homens como Danny Warner, um dos co-fundadores em 1983 do extinto LA Shanti em West Hollywood – uma das primeiras organizações em HIV/AIDS do mundo – se despiram da vergonha e foram ao trabalho e a eventos com marcas bem visíveis de sarcoma no rosto.

Agora, à medida que me preparo para publicar este post, aquelas 30.000 pessoas estão caminhando pelas ruas de West Hollywood e Los Angeles. Eles estão caminhando por suas próprias razões. Mas eles também estão caminhando para Johnny Pipkin e Pender Stephen e Michael Callen e Warner Danny – e para pessoas como eu, que se assumiram por causa da AIDS, que aprenderam a amar tão profundamente por causa da AIDS, e que continuam a sofrer sozinhas em pequena e grande escala.

Awla 08 A Caminhada da APLA contra a AIDS hoje é histórico – ela marca o 25o aniversário do evento. Também marca onde estivemos – na vanguarda espiritual, os artistas pavimentando a estrada de tijolos amarelos para a Era de Aquário.

Mas devemos prestar atenção ao eco desses passos, porque mais
uma vez o HIV está aumentando entre os jovens homossexuais, enquanto a homofobia e o estigma ainda nos garantem um discreto apoio das mulheres e pessoas de cor.

Então, deixe os aplausos dos apoiadores e a luz da verdade agirem sobre os caminhantes hoje. Amanhã, o dinheiro arrecadado pode salvar uma vida e capacitar uma nova geração para a AÇÃO! LUTEM! PAREM A AIDS!